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A terceira edição da MELLA TABLE aconteceu este fim de semana na Feira Cultural da Diáspora Africana, na Fábrica Braço de Prata, em Lisboa, e marcou mais uma etapa num processo que começou, no início do ano, com uma pergunta aparentemente simples: existe, de facto, uma comunidade negra estruturada em Portugal? Três edições depois, a discussão já não está apenas na existência dessa comunidade, mas naquilo que é necessário para que ela funcione de forma continuada, gere oportunidades, crie relações económicas e deixe de depender exclusivamente da energia de momentos pontuais. Foi precisamente a partir desse ponto que a MELLA TABLE 3 foi pensada, com a representação como eixo, mas procurando afastar-se da discussão simbólica para entrar em temas como investimento, propriedade, poder económico, consumo e compromisso. No documento de preparação da sessão, a organização colocava duas questões centrais: como passar de ações pontuais para investimento real em talento negro e PALOP, e como construir uma cultura de apoio constante que permita aos negócios negros crescer para além do entusiasmo inicial.
Para Ana Fernandes Martins, fundadora da MELLA, a evolução entre as três edições não foi desenhada antecipadamente, nasceu de uma mudança na própria forma como decidiu construir o projeto. "Os primeiros tempos da MELLA foram construídos com base no que achava que a comunidade precisava e nos meus ideais e experiência", explica. A experiência empresarial, particularmente através do The Fam Kitchen, levou-a, porém, a perceber a importância de escutar antes de avançar com soluções, uma lógica que levou à criação da primeira MELLA TABLE. A partir daí, cada edição começou a ser construída tendo em conta aquilo que os participantes diziam, mas também aquilo que ficava por dizer: no final dos encontros, a organização recolhe feedback e utiliza essa informação para desenhar os passos seguintes. Foi assim que, depois da primeira edição, surgiram pedidos para criar ligações mais consistentes entre os participantes, e nasceu a componente de mentoria e networking da segunda mesa.
“Compromisso necessário hoje é muito concreto: estrutura e investimento direto nos nossos negócios e nas nossas pessoas”
Ana Fernandes

DR

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Agora, na terceira edição, a conversa avançou novamente, e desta vez a palavra que atravessou a sala foi compromisso. "Há um tema que vem desde a primeira edição, trazido pela Shenia: o 'pacto de negritude', ou seja, estabelecer um contrato entre nós", recorda Ana. Para a fundadora, o entusiasmo inicial, a mobilização digital e aquilo que chama de "hype das redes" podem ser importantes para iniciar movimentos, mas não são suficientes para os manter. "O compromisso necessário hoje é muito concreto: estrutura e investimento direto nos nossos negócios e nas nossas pessoas, com capital financeiro, capital intelectual e parcerias reais." Essa ideia de compromisso não aparece, porém, romantizada, e Ana fala também do preço envolvido em construir iniciativas de impacto num contexto onde muitas delas começam com recursos próprios, sem redes de segurança nem garantia de retorno. "O custo do compromisso também é financeiro e emocional. Em Portugal, romantiza-se excessivamente o ecossistema de impacto social", afirma, sublinhando que muitos empreendedores acabam por criar respostas a problemas estruturais através dos seus próprios negócios, investindo tempo, dinheiro e energia pessoal antes de existir qualquer estrutura capaz de os apoiar.
É precisamente aqui que a terceira MELLA TABLE procura provocar uma mudança de perspetiva. Em vez de colocar toda a responsabilidade nas empresas ou instituições, Ana defende que existe também um trabalho que precisa de ser feito dentro da própria comunidade. "Há bloqueios de ambos os lados, mas não os trato como concorrentes, trato-os como uma sequência. Nenhuma instituição investe em algo que a própria comunidade ainda não considera investível." A ideia, sublinha, não passa por retirar responsabilidade às empresas ou às estruturas institucionais, mas por entender que a criação de poder económico também exige capacidade de organização interna, produção de dados, valorização dos próprios negócios e construção de redes capazes de funcionar para além de momentos de visibilidade.
Do lado empresarial, Ana identifica igualmente uma mudança necessária na forma como o mercado português interpreta a diversidade: em vez de ser tratada apenas como uma questão de recursos humanos ou responsabilidade social, acredita que deve passar a ser entendida como uma questão de inovação, mercado e competitividade. A representação, por si só, deixou assim de ser suficiente. "Na prática, significa deixarmos de estar presentes apenas para 'cumprir quotas ou tirar uma fotografia bonita' e começarmos a ocupar lugares de decisão, a investir em negócios próprios, a criar património, a apoiarmo-nos mutuamente para gerar valor real." Ana resume a transição de forma simples: "É termos voz, mas também poder económico e capacidade de influência."
Uma das ferramentas através das quais a MELLA pretende transformar esse discurso em algo mensurável é o INDEX, um projeto de mapeamento de negócios, talentos e pessoas do espaço lusófono. A ambição é começar a responder a perguntas que continuam sem resposta estruturada: quantos negócios existem, quantos conseguem aceder a crédito, quantos empregam outras pessoas, onde estão concentrados e quais são as suas necessidades. Para Ana, sem esta informação, conceitos como propriedade, crescimento ou poder económico correm o risco de permanecer no campo das intenções. "Propriedade continua a ser um conceito bonito, mas não mensurável", admite.
A questão do consumo também atravessou a terceira mesa. Para a fundadora, a construção de um ecossistema económico mais forte depende igualmente das escolhas feitas pelos próprios consumidores: "Não basta esperar que o mercado nos valorize, temos de começar por nós: recomendar, comprar, contratar, partilhar." Mas também aqui rejeita a lógica puramente moral, já que apoiar negócios negros não pode depender apenas de uma obrigação identitária. Para que esse comportamento se torne hábito, as empresas precisam de oferecer qualidade, conveniência e propostas competitivas. "A solidariedade económica funciona melhor quando investimos em marcas que entregam qualidade real." É também neste contexto que surge o debate sobre o chamado "nicho": Ana considera que muitos negócios negros e PALOP continuam a ser tratados dessa forma porque o mercado ainda não reconhece plenamente consumidores negros como segmentos económicos relevantes, com diversidade interna e poder de compra. O desafio, acredita, passa também por dados, já que sem informação estruturada sobre consumo, empresas, públicos e capacidade económica se torna mais difícil disputar espaço nos canais de distribuição, nos media, no retalho ou nos processos de compra institucional.

Ana Fernandes, fundadora da MELLA TABLE | DR
A escolha da Feira Cultural da Diáspora Africana para esta terceira edição trouxe ainda uma mudança física e simbólica. Ao sair do formato habitual e integrar uma programação mais ampla, a MELLA aproximou-se de novos públicos e de outros empreendedores, e Ana diz que a experiência lhe permitiu perceber que a mensagem continua a funcionar fora de um espaço controlado pela própria organização. "Foi importante sentir que fazíamos parte de algo maior, com outras iniciativas a acontecer ao mesmo tempo." Ao mesmo tempo, o encontro voltou a expor uma fragilidade que a própria fundadora não esconde: a descontinuidade. "A descontinuidade continua a ser o nosso maior desafio, tanto para mim, como fundadora, quanto para a própria comunidade."
É talvez nessa admissão que se encontra uma das questões mais interessantes sobre o futuro da MELLA. O projeto ambiciona ser uma infraestrutura, mas Ana reconhece que ainda depende fortemente dela. "Para mim, o teste é simples: a infraestrutura é o que continua a funcionar mesmo quando paro. Hoje, se parasse durante seis meses, a resposta honesta ainda seria 'quase nada'. A MELLA, até agora, sou sobretudo eu." A frase poderia parecer uma fragilidade, mas também define com precisão a fase em que o projeto se encontra: depois de três edições dedicadas a ouvir, testar formatos e criar ligações, o próximo desafio é transformar essas relações em mecanismos capazes de sobreviver à pessoa que os iniciou.
Há já sinais dessa passagem. Segundo Ana, das MELLA TABLE nasceram parcerias, colaborações, clientes e relações de mentoria entre participantes, embora a organização ainda esteja a formalizar a recolha desses resultados para conseguir apresentar números concretos, sendo o networking, até agora, o impacto mais consistentemente apontado pelos participantes. A MELLA estabeleceu também uma parceria com a BHO Digital, com quem prepara uma iniciativa dirigida a talentos afrodescendentes, mas é precisamente a falta de dados consolidados que ajuda a perceber o momento atual do projeto.
Se a primeira MELLA TABLE perguntou se existe comunidade, e as seguintes começaram a explorar como essa comunidade se liga, aprende e investe, a terceira edição deixa uma questão mais exigente: o que é necessário construir para que tudo isto continue a funcionar depois de desaparecer o entusiasmo do evento? A resposta de Ana regressa sempre à mesma palavra: estrutura. Uma rede ativa de contactos, acesso a recursos, mentoria, apoio a negócios, capital intelectual e informação mensurável, ferramentas que permitam que o crescimento deixe de depender exclusivamente de uma pessoa, de uma mesa ou de um momento de mobilização. A terceira MELLA TABLE não apresentou essa estrutura como algo concluído, pelo contrário, mostrou que ela ainda está a ser construída. Talvez seja precisamente aí que esteja a diferença entre falar de representação e assumir o custo do compromisso.
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