Michel Kuka e o legado de Patrice Lumumba na CAN 2025

January 9, 2026
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© CONFEDERAÇÃO AFRICANA DE FUTEBOL (CAF)

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A campanha da República Democrática do Congo na CAN 2025 pode ter terminado nos oitavos de final, após a eliminação frente à Argélia, mas reduzir a presença congolesa a um resultado desportivo seria um erro. Porque, neste torneio, a RDC deixou uma marca que vai muito além do relvado: a força cultural, histórica e simbólica da sua torcida. Uma presença orgulhosa identitária, que dançou do primeiro ao último minuto, vestida com as cores nacionais e indumentárias tradicionais, transformando as bancadas num verdadeiro palco de afirmação.


No centro dessa expressão coletiva destacou-se uma figura improvável, mas inesquecível: Michel Kuka Mboladinga. Conhecido por muitos como o “Lumumba do futebol”, este super-adepto tornou-se, aos olhos de milhares de africanos e observadores internacionais, o verdadeiro campeão moral da CAN 2025.


Em todos os jogos, Michel Kuka manteve, de forma firme e silenciosa, a pose icónica da estátua de Patrice Emery Lumumba, primeiro Primeiro-Ministro da República Democrática do Congo, líder pan-africanista e uma das figuras mais marcantes da luta contra o colonialismo no século XX. Lumumba foi um homem que enfrentou o sistema colonial que explorava o povo congolês, denunciou publicamente as injustiças da dominação europeia e defendeu, até às últimas consequências, os direitos políticos, económicos e humanos do seu povo. Pagou com a vida essa coragem, tornando-se mártir de um sonho maior do que ele próprio: a dignidade e a liberdade de África.


Ao transportar esse símbolo para as bancadas da CAN, Michel Kuka fez algo notável. Sem discursos oficiais e sem campanhas de “branding”, conseguiu projetar uma imagem positiva, forte e digna da República Democrática do Congo no palco internacional. Tornou-se, em poucos dias, uma das figuras mais marcantes — senão o verdadeiro rosto da CAN Marrocos 2025.


Mais do que isso, despertou curiosidade, interesse e pesquisa. Levou pessoas de todo o mundo a querer saber quem foi Patrice Lumumba, a descobrir a história de um homem firme, corajoso e coerente, que deu a sua vida pela libertação do seu país e pela emancipação do continente africano das correntes do colonialismo. Num tempo em que a memória histórica é frequentemente diluída, Michel Kuka abriu portas ao conhecimento e à reflexão.


Contudo, nem tudo foi celebração. No jogo dos oitavos de final frente à Argélia, decidido no prolongamento com um golo de Mohammed Amoura, o momento da vitória argelina ficou manchado por um gesto controverso. O autor do golo imitou, de forma provocatória, a pose de Michel Kuka em frente à bancada congolesa, antes de se atirar ao chão, sugerindo simbolicamente o fim daquela presença. O ato foi recebido como uma falta de respeito que ultrapassa a provocação futebolística.


Ao ridicularizar aquela pose, ridicularizou-se também um símbolo da resistência africana e a reação foi imediata: ondas de indignação surgiram um pouco por toda a África e até dentro da própria Argélia, onde muitos cidadãos condenaram publicamente a atitude do jogador, reconhecendo que nenhum triunfo desportivo justifica o desrespeito.


Importa recordar que Patrice Lumumba mantém uma ligação histórica ao próprio país anfitrião. Em agosto de 1960, em Rabat, foi condecorado pelo então Rei de Marrocos, Mohammed V, num gesto de reconhecimento da sua luta e do seu papel na emancipação africana, detalhe que confere ao episódio outra simbologia.


No final, Michel Kuka saiu do anonimato para se tornar uma figura reconhecida nas ruas de Marrocos. Fotografado, saudado e admirado, levou para a CAN 2025 não apenas a paixão pelo futebol, mas um profundo valor sentimental, histórico e cultural. Para muitos, ele não foi apenas um adepto: foi a consciência viva de África nas bancadas. E talvez seja essa a grande lição desta CAN.

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