Miguel Trindade é o novo campeão mundial de kickboxing

October 19, 2026
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Miguel Trindade é o novo campeão mundial de peso-pena da GLORY, uma das principais organizações de kickboxing do mundo, e, segundo a própria GLORY, o primeiro português a conquistar um título da organização. O lutador de 25 anos venceu o turco Deniz Demirkapu, radicado na Bélgica, por KO técnico no terceiro assalto do GLORY 110, no sábado, 17 de outubro, na Lotto Arena, em Antuérpia. O cinturão estava vago desde agosto, quando o tailandês Petchpanomrung, campeão da categoria desde 2018 e recordista de defesas do título na GLORY, com nove, anunciou a retirada do kickboxing.


Trindade passou os dois primeiros assaltos a castigar o adversário com pontapés baixos, enquanto Demirkapu apostava sobretudo no boxe e chegou a acertar golpes fortes. No terceiro assalto, com o adversário já desgastado, o português derrubou-o três vezes, e o árbitro interrompeu o combate aos 1:23, de acordo com os resultados oficiais da GLORY. Trindade chegava a Antuérpia como número um do ranking da categoria, segundo a Lusa, com Demirkapu em segundo lugar.


Miguel Angelo Trindade nasceu a 5 de janeiro de 2001, em Lisboa, filho de imigrantes moçambicanos. Segundo a Lusa e o DN, cresceu nas Torres da Bela Vista, em Loures, e mais tarde mudou-se para Sintra. Foi aí, no Progresso Clube, em Algueirão, que fez parte do percurso amador, com o treinador Paulo Calhau. Em 2018, o Sintra Notícias contava já cinco títulos de campeão nacional de muay thai, entre 2013 e 2017, e dois títulos europeus de juniores, conquistados em Paris, em 2017, e em Praga, em 2018. Em maio de 2019, ainda com 18 anos, venceu em Kent, Inglaterra, o britânico Marley Mason, anterior detentor do título, e ficou, segundo a RTP, com um título mundial de full contact nos 62,5 quilos.


Inscreveu-se em Geografia na Universidade de Lisboa, mas desistiu aos 19 anos. “Fui para cumprir o sonho da minha mãe, mas não era aquilo que eu queria”, contou ao DN. A decisão de se dedicar à luta não resolveu tudo de imediato. “Saí para me dedicar à luta, mas não havia combates suficientes, nem dinheiro suficiente”, recordou. “Então, trabalhei no McDonald’s, trabalhei a dar aulas, até que vim para Espanha”, acrescentou.


Instalou-se em Ponferrada, em Espanha, na região de El Bierzo, onde treina com Diego Vázquez. A alcunha por que hoje é conhecido, “El Único”, nasceu das palavras do treinador. “O meu treinador dizia: ‘O Miguel é o único a treinar no domingo, o único a correr uma montanha’, e assim ficou”, explicou ao DN. Para o lutador, a saída de Portugal foi também uma resposta às dificuldades de crescer no desporto no país. “Em Portugal, tudo o que não é futebol é muito difícil”, disse ao jornal, admitindo que hoje a situação é “um bocadinho” melhor.


Em 2021, em Ponferrada, conquistou o título europeu de muay thai da International Sport Kickboxing Association (ISKA). Seguiram-se anos de combates um pouco por todo o mundo. “Começámos a ‘partir pedra’”, recordou. “Fomos lutar a Abu Dhabi, em Roma, na Lituânia, Tailândia... E ganhámos no mundo inteiro, fizemos barulho suficiente para assinar o contrato com o GLORY”, contou. Pelo caminho, em 2023, em Lisboa, juntou ao currículo o título europeu de K-1 da WAKO Pro, o circuito profissional da World Association of Kickboxing Organizations.


A GLORY contratou-o em outubro de 2023, juntamente com a mulher, a também lutadora Débora Évora. A estreia, em dezembro desse ano, em Roterdão, terminou com uma derrota por decisão dividida frente ao albanês Berjan Peposhi. O ano seguinte foi o da afirmação. Em março, num evento da RISE, organização japonesa com que a GLORY mantém uma parceria, venceu por KO técnico, em Tóquio, o australiano Chadd Collins. Em dezembro, chegou à final do Grand Prix de peso-pena GLORY x RISE, em Chiba, no Japão, depois de vencer por KO no primeiro assalto o japonês Kento Haraguchi e, de novo, Collins. Perdeu a final por decisão dividida frente a Petchpanomrung. No final de 2024, o Beyond Kickboxing elegeu-o revelação do ano e distinguiu o KO sobre Haraguchi como o melhor da temporada.


A primeira oportunidade de lutar pelo título chegou em junho de 2025, no GLORY 100, mas Petchpanomrung voltou a vencer, desta vez por decisão unânime, ao fim de cinco assaltos. Trindade regressou às vitórias e entrou no torneio “Last Featherweight Standing”, onde, em março de 2026, em Tóquio, se vingou de Peposhi, o homem que o tinha derrotado na estreia. Caiu nas meias-finais, em junho, de novo frente a Petchpanomrung. Com a retirada do tailandês, a GLORY marcou o combate pelo título vago entre Trindade e Demirkapu.


Antes de subir ao ringue em Antuérpia, Trindade falou ao DN sobre o que representa. “Em Portugal, não há muitos lutadores que cheguem tão longe”, afirmou. “Se calhar ninguém quer saber o que eu digo, mas se calhar há um jovem que ouve. Se eu puder ser exemplo para ele, já estou a fazer o meu papel”, continuou. Sobre as origens, não deixou dúvidas. “Abraço as minhas raízes, seja em Portugal, seja em Moçambique, seja no bairro onde cresci”, disse ao jornal. “Tenho muito orgulho do que sou, de onde venho, e acho importante nunca esquecer isso”, acrescentou.

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