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Mina Andala venceu o prémio de Melhor Atriz – Competição Nacional nos Prémios CinEuphoria 2026 pela sua interpretação em A Memória do Cheiro das Coisas. Os vencedores foram anunciados a 13 de janeiro, data em que foi tornado público o palmarés completo desta edição dos prémios atribuídos pelo blogue CinEuphoria.
O prémio atribuído a Mina Andala integra um palmarés nacional marcado pelo reconhecimento de vários intérpretes em diferentes categorias, com especial destaque para filmes como Banzo e Hanami, que concentraram distinções nas áreas da interpretação e da música original.
Banzo destacou-se como um dos filmes mais premiados da Competição Nacional. Para além dos prémios de Melhor Ator Secundário, atribuídos a Hoji Fortuna e Matamba Joaquim, o filme venceu ainda os prémios de Melhor Realização e Melhor Direção Artística, reforçando o seu peso no conjunto das decisões do júri. No campo da curta-metragem, Cirila Bossuet foi distinguida com o prémio de Melhor Atriz pela nterpretação em Ecstasy. O galardão foi atribuído directamente, após voto unânime do júri.
Já Hanami, da realizadora Denis Fernandes, arrecadou o prémio de Melhor Atriz Secundária – Competição Nacional, atribuído a Sanaya Andrade, e venceu igualmente na categoria de Melhor Música Original, somando distinções em áreas distintas do trabalho artístico. Entre os prémios coletivos, Ana Sofia Martins integrou o leque de atores distinguidos com o prémio de Melhor Elenco – Competição Nacional pelo filme Portugueses, uma distinção atribuída ao trabalho conjunto do elenco. O Prémio do Público distinguiu o filme Ainda Estou Aqui, realizado por Walter Salles, numa categoria decidida por votação e paralela às escolhas do júri.
Em declarações à BANTUMEN, Mina Andala sublinhou a forte carga simbólica do reconhecimento, assumindo-o como algo que ultrapassa a dimensão estritamente individual. “Sinto-me eternamente grata por receber este prémio. É profundamente simbólico para mim, não apenas enquanto atriz, mas enquanto mulher negra e artista portuguesa”, afirmou, acrescentando que a distinção reflete também o mérito de A Memória do Cheiro das Coisas, que descreve como “uma voz clara de uma nação que procura perceber-se”.
A atriz destacou o filme como uma obra que obriga o espectador a confrontar várias “feridas lusitanas”, entre as quais a guerra colonial, o racismo estrutural, a solidão e o facto de “termos de deixar os nossos pais em lares”. Nesse contexto, explicou que a construção da personagem Hermínia assentou sobretudo num trabalho de contenção. “Interpretar esta personagem foi essencialmente um exercício de escuta, de silêncio e de memória.”
Do ponto de vista interpretativo, o principal desafio passou por resistir à tentação do excesso. “Raramente me chamam para cinema e, naturalmente, queres mostrar o teu valor, queres que te vejam. Ora, a Hermínia pede o contrário: ela é pequenina, silenciosa, invisível. É nesses pequenos detalhes que se agiganta.” A atriz estabeleceu ainda paralelos entre a sua experiência pessoal e a da personagem, que apesar de ter nascido em Portugal, sente que há pouco espaço, muitas vezes, para ser simplesmente portuguesa. “Tal como ela, nasci aqui e ainda estou a aprender a lidar com certos traumas e acontecimentos do passado que desabaram em mim assim que nasci. Nos anos 70, em Portugal, não se nascia preta impunemente.”
A relação entre Hermínia e Arménio surge, nas palavras de Mina Andala, como um dos núcleos mais exigentes do filme. “A personagem obrigou-me a reocupar territórios de solidão, dor, raiva e resistência, ao ter de olhar olhos nos olhos para o Arménio.” A atriz sublinha que a guerra colonial não terminou com o fim formal do conflito e permanece inscrita “nos corpos e nas memórias dos intervenientes diretos e nas vidas dos que vieram depois”. “Ainda há corpos a cair”, frisou, acrescentando que o cinema português tende a abordar esse passado quase exclusivamente pelo prisma bélico, sem acompanhar os seus efeitos prolongados no presente.
Nesse sentido, considera que o prémio agora atribuído também representa um reconhecimento de narrativas que durante décadas permaneceram silenciadas. “Enquanto atriz negra, sinto que este prémio reconhece histórias que ficaram durante muito tempo vetadas ao silêncio.” O filme aborda igualmente o envelhecimento e a persistência do racismo, num país que, como a própria resume de forma incisiva, “não é para velhos, nem é para pretos”.
A atriz destacou ainda o processo de trabalho com o realizador António Ferreira, sublinhando a dimensão dialogante da construção da personagem. Segundo explicou, o realizador procurou compreender a fundo uma figura como a de Hermínia, mantendo longas conversas consigo sobre a sua experiência enquanto mulher negra em Portugal e sobre a forma como lidava, na vida real, com homens semelhantes ao Arménio. “O António transforma o cinema num espaço de confronto, mas também de empatia e, em certa medida, de reparação”, afirmou, acrescentando que o filme não exige empatia automática por nenhuma das personagens, limitando-se a apresentá-las e a convidar o público a conhecê-las melhor.
A rodagem, realizada em Coimbra, coincidiu simbolicamente com as comemorações do 25 de Abril e do 1.º de Maio, datas que o realizador decidiu integrar na narrativa e uma opção que Mina Andala considera particularmente significativa. “Contar este tipo de histórias é sempre uma responsabilidade artística e cívica. Aprendi imenso com este filme.”
A concluir, a atriz reforçou a dimensão coletiva do prémio. “É uma distinção que me honra a mim e, acima de tudo, creio, todas as vozes que ficaram à margem da narrativa oficial da nossa história.” Quanto ao futuro próximo, resumiu que "o plano para este ano é trabalhar”, adiantando que deverá integrar uma série com o realizador Basil da Cunha, além de outros projetos que prefere revelar mais tarde.
Criados em 2009, os Prémios CinEuphoria são atribuídos anualmente pelo blogue CinEuphoria, a partir das classificações e votações dos seus colaboradores ao longo do ano, distinguindo cinema nacional, ibérico e internacional, bem como áreas técnicas, artísticas e interpretações. A edição de 2026 voltou a sublinhar a diversidade de filmes e percursos reconhecidos, com particular incidência na produção portuguesa recente.
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