Há mulheres a mudar a Guiné-Bissau. A Mindjer i Futuro quer que sejam muitas mais

August 4, 2026
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Na Guiné-Bissau, o talento e a ambição no feminino nunca foram uma miragem, e o mesmo se pode dizer da resiliência que atravessa gerações de mulheres. No entanto, o acesso a oportunidades estruturais e a espaços de tomada de decisão continua a ser um caminho sinuoso, muitas vezes travado pela falta de redes de apoio e de modelos de referência visíveis.


É precisamente no centro desta narrativa de superação que nasce, em 2022, a Mindjer i Futuro (MiF), uma organização que está a reescrever o guião do desenvolvimento sustentável do país a partir daquela que é a sua base mais sólida, as meninas e mulheres guineenses. Agora, o site da organização é lançado para que este projeto chegue mais rápido às meninas e mulheres guineenses.


Sob a premissa de que o progresso da Guiné-Bissau é indissociável do investimento no potencial feminino, a MiF transforma esse potencial em ação através de ecossistemas de mentoria e capacitação, alicerçados na partilha de experiências, que preenchem as lacunas deixadas pelo isolamento geográfico e social e garantem que cada mulher guineense tenha as ferramentas necessárias para liderar o seu próprio destino, aprender, liderar, empreender e contribuir para o desenvolvimento da sua comunidade. Falámos com a cofundadora, Ana Djú, sobre este espaço criado por mulheres para mulheres, onde o objetivo é inspirar mudanças e elevar as suas vozes.

“O valor da diáspora não está apenas no conhecimento técnico que partilha, mas também na capacidade de inspirar, abrir horizontes e criar ligações”

Ana Djú

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"O website da Mindjer i Futuro representa uma oportunidade para apresentar o trabalho da organização numa plataforma formal, com maior alcance e visibilidade. Embora as redes sociais continuem a ser os principais canais de contacto com o nosso público, o website permite-nos reunir toda a informação sobre os nossos projetos, resultados e oportunidades num único espaço acessível. Além de reforçar a credibilidade institucional da organização, cria também novas oportunidades de parceria, colaboração e crescimento, permitindo-nos chegar a uma audiência nacional e internacional", começa por contar-nos.


O trabalho da MiF assenta em cinco valores fundamentais: a Igualdade, por meio da promoção de oportunidades equitativas para todas as mulheres; o Empoderamento, focado no fortalecimento da autonomia e da capacidade de ação; a Educação, vista como ferramenta indispensável de transformação social; a Sororidade, que promove redes de apoio e solidariedade entre mulheres; e o Impacto, que reflete o compromisso com mudanças concretas e duradouras.


Embora exista talento e ambição em todas as regiões do país, aliados a uma inegável capacidade de trabalho, muitas mulheres continuam a enfrentar barreiras estruturais e sociais que limitam o seu acesso a oportunidades educacionais, profissionais e de liderança. A MiF identifica, entre esses obstáculos, o acesso limitado à informação, a ausência de modelos de referência femininos, redes de contacto profissionais frágeis e oportunidades reduzidas de capacitação técnica.


"Quando promovemos debates sobre liderança, tecnologia, empreendedorismo ou oportunidades globais, procuramos traduzir esses temas para desafios concretos vividos pelas raparigas guineenses: acesso à educação, autonomia económica, participação cívica, confiança, liderança comunitária e geração de rendimento. A tecnologia é apresentada como uma ferramenta para ampliar oportunidades e não como um fim em si mesmo. As nossas actividades aproximam diferentes experiências de vida e mostram que existem múltiplos caminhos para o sucesso", explica Ana Djú. A cofundadora acrescenta ainda que "o valor da diáspora não está apenas no conhecimento técnico que partilha, mas também na capacidade de inspirar, abrir horizontes e criar ligações que permitam às jovens imaginar possibilidades para além das limitações do seu contexto imediato."


Neste contexto, a organização procura criar espaços seguros onde as mulheres possam desenvolver competências práticas, fortalecer a autoconfiança, expandir as suas redes de contacto e ganhar terreno em espaços de tomada de decisão ainda pouco acessíveis.


Investir em competências duradouras é, para a MiF, uma resposta direta à instabilidade do país. "Num contexto de instabilidade, acreditamos que é essencial investir em competências que permanecem relevantes independentemente das circunstâncias, como comunicação, liderança, gestão financeira, literacia digital e empreendedorismo.


A nossa principal estratégia é garantir que todas as formações e mentorias tenham uma forte componente prática, permitindo que as participantes apliquem imediatamente os conhecimentos adquiridos através de exercícios, apresentações e feedback. Paralelamente, investimos fortemente na criação de redes de contacto, porque sabemos que, em contextos onde as oportunidades são limitadas, o acesso a pessoas, informação e referências pode ser tão importante quanto a formação em si", nota.

“Num contexto de instabilidade, acreditamos que é essencial investir em competências que permanecem relevantes independentemente das circunstâncias””

Ana Djú

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A visão a longo prazo da organização aspira a uma Guiné-Bissau onde o fortalecimento das capacidades das mulheres gere benefícios em cadeia, impactando positivamente as próprias participantes, as suas famílias, as comunidades envolventes e a sociedade em geral.

O alcance geográfico da organização, por agora, tem fronteiras que Ana não esconde, mas nas quais assume estar disposta a trabalhar: "O nosso público-alvo é atualmente composto sobretudo por jovens raparigas e mulheres dos centros urbanos e periurbanos. Reconhecemos que o nosso alcance geográfico ainda é circunscrito à capital, Bissau, e que muitas mulheres, especialmente nas zonas rurais, continuam afastadas de oportunidades de formação, informação e desenvolvimento pessoal e profissional. Sabemos que muitas raparigas e mulheres guineenses enfrentam barreiras linguísticas e educativas que dificultam o acesso a bolsas de estudo, programas de intercâmbio e outras oportunidades internacionais.”


A parceria da MiF com o Centro Cultural Franco-Bissau-Guineense e com a Embaixada de França na Guiné-Bissau representa um passo importante na superação dos desafios de domínio de uma língua estrangeira, num contexto sub-regional em que a língua de trabalho dominante é o francês. Ao mesmo tempo, estão a trabalhar para expandir gradualmente as suas atividades para todas as regiões da Guiné-Bissau, levando informação e inspiração a mais mulheres e raparigas que vivem em contextos rurais e frequentemente isolados, e abrindo caminho a novas oportunidades.


"Sabemos que este é um caminho que exige tempo, recursos e parcerias", reconhece a cofundadora, "mas estamos comprometidas com a construção de uma rede cada vez mais inclusiva e representativa da diversidade das mulheres guineenses".


Para materializar estes objetivos, o trabalho da Mindjer i Futuro divide-se em cinco áreas de intervenção, a primeira das quais é a Capacitação e Desenvolvimento de Competências, que promove formações, workshops, masterclasses e conferências destinadas a fortalecer competências pessoais e profissionais em temas que incluem comunicação, liderança, empreendedorismo, educação financeira, saúde sexual e reprodutiva, literacia digital, empregabilidade e participação cívica, sempre através de abordagens práticas e participativas.

A segunda área centra-se na Mentoria e Desenvolvimento Pessoal, reconhecendo o valor dos modelos de referência através de um programa que liga jovens mulheres a profissionais experientes para partilha de experiências e superação de desafios, cuja primeira edição contou com nove pares de mentoras e mentorandas ao longo de sete meses, com resultados altamente positivos na autoconfiança das participantes.


A terceira área de intervenção foca-se na Educação e Acesso a Oportunidades, através da criação de iniciativas concretas como o programa de Bolsas de Estudo de Língua Francesa, desenvolvido em parceria com a Embaixada de França, que permitiu a dez jovens mulheres frequentarem formação linguística durante oito meses no Centro Cultural Franco-Bissau-Guineense, expandindo assim as suas perspetivas académicas e profissionais.

“Em contextos onde as oportunidades são limitadas, o acesso a pessoas, informação e referências pode ser tão importante quanto a formação em si”

Ana Djú

A quarta área dedica-se à Criação de Redes e Participação, fortalecendo o capital social feminino através de espaços de diálogo e networking, como o evento intitulado Mulheres Guineenses e Identidades Diaspóricas, que reuniu mulheres de diferentes contextos para refletir sobre identidade e liderança, num exercício de desenvolvimento coletivo que liga a diáspora às mulheres residentes no país. E a quinta área foca-se na Produção e Disseminação de Conhecimento, onde se destaca o Podcast Mindjer i Futuro, desenvolvido em parceria com o projeto iParticipate, que dá visibilidade a mulheres guineenses que se destacam em setores como liderança, saúde, empreendedorismo, literacia financeira, alterações climáticas e transformação digital, visando democratizar o conhecimento.


Ana não tem dúvidas sobre o desequilíbrio que o podcast tenta corrigir: "Na Guiné-Bissau, áreas como tecnologia, finanças, liderança e empreendedorismo continuam muitas vezes a ser associadas aos homens. Através do podcast, procuramos tornar estes temas acessíveis ao público em geral, utilizando uma linguagem simples, exemplos do contexto guineense e convidadas que são referências nestas áreas. Ao dar visibilidade a mulheres guineenses que lideram em setores tradicionalmente dominados por homens, mostramos que estes espaços também lhes pertencem".


Desde 2022, a Mindjer i Futuro alcançou resultados expressivos, tendo impactado mais de quatro mil participantes, estabelecido mais de vinte parcerias institucionais, realizado mais de trinta workshops, conferências e formações, atribuído bolsas de estudo linguísticas e mobilizado uma equipa dedicada de quinze jovens voluntários.


A abordagem de trabalho da organização baseia-se na identificação de necessidades reais e na criação de respostas práticas, privilegiando metodologias participativas, a aprendizagem entre pares e o acompanhamento próximo dos percursos de cada participante, com a visibilidade de mulheres guineenses que já alcançaram o sucesso a funcionar como inspiração para outras jovens.


Olhando para o futuro, a Mindjer i Futuro pretende consolidar os seus programas existentes e expandir significativamente o seu alcance geográfico e temático nos próximos anos, mantendo como prioridades o fortalecimento da mentoria, o aumento das vagas de capacitação, a expansão dos conteúdos digitais e a criação de novas parcerias nacionais e internacionais para continuar a impulsionar uma geração de mulheres preparadas para liderar a mudança na Guiné-Bissau.

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