Mónica Semedo começou como operadora de caixa e hoje fatura milhões como franqueada Auchan

March 23, 2026
monica semedo franquia auchan entrevista
Mónica Semedo | ©Nuno Silva/BANTUMEN

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Em 2008, Mónica Semedo tinha 20 anos e começou a trabalhar como operadora de loja no Minipreço. "Pensei que era uma coisa temporária, que dali a uns meses saía." Dezasseis anos depois, gere três supermercados como empresária multi-franqueada da Auchan - a insígnia que absorveu o Minipreço e é hoje a maior rede de retalho em Portugal, com mais de 600 pontos de venda - e integra o comité de franqueados da insígnia. Foi crescendo dentro de uma estrutura que, para muitos dos seus contemporâneos, era precisamente o tipo de emprego de onde se foge e, atualmente, fatura entre cinco a seis milhões de euros por ano.


Portugal tem hoje uma das maiores taxas de emigração jovem da Europa. Cerca de 73% dos jovens entre os 18 e os 24 anos ponderam sair do país, segundo um estudo da BCG, mais nove pontos percentuais face ao ano anterior. A lista de razões é quase sempre a mesma: salários baixos, carreiras bloqueadas, mercado de trabalho que não recompensa quem fica. Mónica ficou no retalho, que figura entre os setores com pior imagem junto dos jovens qualificados, e foi construindo carreira dentro da estrutura: chefia de equipa, responsabilidade de loja e em 2021 uma proposta que não estava nos planos. A Auchan queria saber se ela estaria interessada em assumir uma unidade própria como franqueada. "Eu já dava o meu máximo quando trabalhava para o outro." A proposta confrontou-a com uma pergunta que nunca tinha feito antes: estaria preparada para aquele lugar? "Custou-me imaginar que eu podia estar naquela posição", disse à BANTUMEN.


Ainda que com medo, decidiu avançar. A decisão significava abandonar o salário fixo e passar a gerir o risco de ter que lidar diariamente com receitas, despesas, fornecedores e contas ao final do mês. "Vou trocar o certo pelo incerto", pensou. Apesar da dúvida, os anos seguintes trouxeram-lhe as certezas de que precisava: abriu a primeira loja em 2021, a segunda em 2022 e a terceira em 2023.

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Mónica Semedo, na inauguração da sua loja franqueada nos Olivais | DR

Catorze anos como responsável de loja tinham-lhe dado uma competência operacional de gerir equipas, controlar perdas, manter os níveis de serviço, mas nem isso foi suficiente para atenuar aquilo que considera ter sido um início difícil. O novo papel tinha uma exigência diferente e Mónica não esconde que demorou a perceber isso. "Eu pensava que bastava continuar a ser uma boa responsável de loja", conta ao afirmar que depois de alguns meses, os números desalinharam-se.


"Chegou a uma altura em que vi que já estava no vermelho", situação que, na altura considerou pesada, porque ao sair do Minipreço, cinco ou seis colegas tinham optado por segui-la. Pessoas com quem trabalhou durante anos, que tinham deixado a segurança dos seus postos para integrar a nova loja. A lógica empresarial era uma coisa; a responsabilidade sobre as carreiras de quem confiara nela era outra. "Eu não tinha a opção de dizer 'não deu certo'. Pus tudo o que tinha ali."


Pelo meio vieram alguns dias e noites difíceis em que "podia ir dormir desanimada e chorar um bocadinho", mas o dia seguinte trazia tarefas concretas, decisões que não podiam esperar. Admite que a aprendizagem de perceber onde estava a perder dinheiro, integrar o controlo financeiro na rotina, delegar em vez de estar sempre no terreno foi feita (e conseguida) pela pressão de ter uma equipa para gerir e objetivos a cumprir.


Ao recordar esse período, a mãe surge, inevitavelmente, como referência maior. É a história de alguém que se forjou na determinação: Nozinha, chegou a Portugal quatro anos antes da filha e começou a trajetória no comércio informal, a vender fruta e peixe seco, antes de abrir um pequeno café. Mais tarde, abriu o Restaurante Nozinha, espaço de comida tradicional em Lisboa e que conta também com música ao vivo. Durante a pandemia, quando o confinamento obrigou as portas a fechar, reinventou o negócio com entregas ao domicílio para não parar e garantir a sustentabilidade do negócio. É essa a imagem que Mónica traz quando fala de persistência: "Ela é o meu exemplo, lutar dia e noite." A comunidade cabo-verdiana - uma das mais antigas em Portugal, presente no país desde os anos 60 e 70 da emigração laboral - tem, historicamente, taxas de empreendedorismo baixas face a outros grupos. A maioria insere-se no mercado como trabalhadora dependente, concentrada na construção e nos serviços. A mãe foi uma exceção e Mónica também.


Nas reuniões do comité de franqueados da Auchan, onde se sentam à mesma mesa os empresários que operam as lojas de proximidade da insígnia em Portugal, Mónica é muitas vezes a única mulher estrangeira e a única africana na sala. Em Portugal, menos de 17% dos cargos de liderança empresarial são ocupados por mulheres, e a percentagem diminui à medida que sobem os níveis hierárquicos, segundo dados da Informa D&B. A intersecção entre género e origem racial estreita ainda mais esse espaço. "Não sou o estereótipo de alguém para estar naquela situação", confissão que faz sem alarde nem vitimismo. Diz tratar-se de uma constatação, não de uma queixa. O que a preocupa é o que o seu papel representa para quem vê de fora - os filhos, mas também quem está onde um dia Mónica também esteve. "Se vocês trabalharem com resiliência e afincadamente, o limite só vocês podem colocar."

Quando questionada sobre o que poderia ter facilitado o percurso, responde sem hesitar: "Gostava que me tivessem contado que nem sempre é fácil, mas que há sempre uma solução." Com o tempo, a forma de encarar os problemas mudou. "Não é um problema. Vamos arranjar uma solução lógica." O marco mais significativo, diz, não é o número de lojas, “foi conseguir mostrar que é possível." E a frase com que fecha a conversa resume aquilo que tem sido a trajetória ao longo dos anos: "Se caírem três vezes, levantem-se quatro."

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