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Há instituições que guardam objetos e há outras que guardam consciência. O Museu Nacional de Antropologia, em Angola, pertence claramente à segunda categoria.
Foi ali, no âmbito do Mês da Identidade Africana, assinalado em novembro de 2025, numa colaboração entre a BANTUMEN e o The Creative Hub by Cipro Group, que nos sentámos para conversar com José Manuel de São Pedro, conhecido artisticamente como Joaquim Tchindje. Artista plástico, antropólogo e chefe do Departamento de Educação e Animação Cultural, está no museu há 29 anos. Quase três décadas a cuidar de um acervo que, como ele próprio diz, “fala por si”.
“Temos várias tarefas mas a mais importante é conservar o conhecimento que está aqui de uma forma dormente para o levarmos para a sociedade”, explica-nos. A missão não é apenas conservar peças, é ativá-las. É viajar até comunidades, resgatar memórias que muitos pensam que já não existem e devolvê-las ao presente.
Mas há também frustração. Quando entrou no museu, encontrou mestres mais velhos que lhe transmitiram saberes de forma gradual, quase iniciática, muitos deles baseados na oralidade, na experiência prática e no contacto direto com as comunidades. Hoje, sente que essa continuidade está em risco. Preocupa-o o facto de não existirem concursos ou mecanismos consistentes que permitam a entrada e permanência de jovens profissionais na área. Embora recebam estagiários, muitos não permanecem, o que cria uma rutura na cadeia de transmissão do conhecimento acumulado. O que está em causa, portanto, é a preservação desse saber interno - técnico, cultural e humano - que não se aprende apenas nos livros, mas na convivência e na prática diária dentro do museu. “Nós não estamos a ter aquela integração de jovens, porque não há concursos para essas pessoas. Recebemos estagiários, damos informação, mas depois há uma rutura porque não ficam connosco.” A tristeza é visível, mas a convicção mantém-se. “A luta continua”, afirma Joaquim.
Num contexto em que muitas instituições culturais africanas sobrevivem com recursos limitados e pouca visibilidade internacional, o Museu de Antropologia resiste através de parcerias e da força do seu próprio acervo. “Aquilo que tem aqui em termos de acervo, fala em si. Quando a pessoa olha, vai fazer a linguagem gestual, a linguagem do objeto, da forma, da técnica que se usou.”
Há uma pedagogia silenciosa nas vitrines, uma narrativa que não precisa de tradução. E é com os jovens que essa narrativa ganha mais urgência. Muitos chegam com uma visão moldada sobretudo por referências europeias. “Eles estão mais habituados com a estética europeia mas, por exemplo, o cubismo vem a partir da nossa essência, da nossa geometria, do nosso ponto linear.”
O que Tchindje faz é abrir horizontes. Explica os grupos étnicos de Angola, as tecnologias ancestrais, os sistemas de pensamento, e desafia-os a transformar esse conhecimento em novas criações. Arquitetos jovens visitam o museu e saem com ideias ampliadas, reconectadas com a raiz.
Entre todas as peças, há uma que concentra simbolicamente essa conversa sobre identidade: a estatueta conhecida como “O Pensador”. Durante décadas, foi interpretada a partir de uma lente europeia. “Deram-lhe o nome de pensador”, recorda. Mas a desconstrução feita por estudiosos angolanos revelou outra camada. “O pensador não é o que nós pensávamos. O pensador é o cuco, que significa sageza, um ancestral onde está dividido as doze dimensões de três em três, ligado com as linhas do Sona.” Não é apenas uma figura sentada em reflexão. É consciência ancestral, estrutura simbólica é memória codificada. “O cuco é a essência, a consciência da nossa eternidade”, diz-nos, com a serenidade de quem carrega essa responsabilidade há anos.
Se Joaquim tivesse um momento para falar com todos os jovens africanos, o recado seria direto: “Para tirar o complexo de pensar que isto vale para nada. Nós somos a pessoa. A essência de África significa a pessoa.” A identidade não é um adorno. É a base.
O artista e antropólogo conta-nos ainda uma história que desmonta estereótipos de forma quase cinematográfica. Quando os primeiros europeus chegaram a determinadas comunidades, os anciãos reuniram-se para observá-los. Deram-lhes comida, vigiaram-nos durante 24 horas e analisaram-nos com instrumentos de saber tradicional. “Eles disseram: os europeus não são deuses, são pessoas como nós. Pensam como nós. Nós é que pensamos errado sobre eles”, sem laboratórios, mas com método. Sem tecnologia moderna, mas com ciência do olhar.
Num tempo em que muito se fala sobre descolonização do pensamento, talvez o caminho passe por estes espaços que resistem em silêncio. Instituições africanas que arquivam, preservam e ensinam, mesmo sem os recursos que mereciam. Museus que não são apenas depósitos de passado, mas laboratórios de futuro.
E talvez o maior ensinamento do Pensador - ou do Cuco - seja este: pensar não é um gesto isolado. É um gesto coletivo, ancestral, contínuo. E enquanto houver quem o explique, como Joaquim Tchindje, a memória continuará viva.
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