Assa Matusse canta o direito de se reconhecer em “Nati Tivah”

May 28, 2026
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Assa Matusse | DR

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Em xi-changana, nati tivah significa "eu me conheço". É essa afirmação que Assa Matusse escolheu para dar título ao seu novo EP, lançado na primavera de 2026. Dois anos depois de Mutchangana ter atravessado o Índico e colocado sonoridades moçambicanas na agenda da francofonia e da lusofonia, a artista regressa com seis faixas que combinam afro beat e afro-pop, construindo uma versão mais madura e ritmicamente complexa de si mesma.


Produzido pela Vth Season, editora independente sediada em Joanesburgo com um papel crescente na projeção do talento africano no mercado global, Nati Tivah foi um processo que Assa Matusse descreve como simultaneamente exigente e revelador. Questionada sobre o papel da editora na moldagem do projeto, a artista é assume que “eles moldaram ou simplesmente ajudaram-me a achar uma direção e mostraram-me que eu podia fazer aquilo que eu quisesse na área, no estilo musical, sem perder a minha identidade. E, sinceramente, eu acho que me encontrei muito e estou muito feliz pelo resultado." O que ficou desta colaboração foi, nas suas próprias palavras, "um direcionamento que veio mesmo para somar na minha carreira."


A faixa-título nasceu de uma sessão de estúdio única, composta e gravada no mesmo dia, num jorro de escrita espontânea que a artista atribui à urgência das ideias. A música mistura português, inglês e línguas moçambicanas num reflexo das preocupações sociais e políticas que a têm inquietado: "Parece que realmente, às vezes é preciso fingir demência. No verdadeiro sentido. Mesmo fingindo demência para poder sobreviver a esta selva onde às vezes os que causam dor e sofrimento são os mais aplaudidos." A letra fala de insegurança, de marginalização, de um mundo onde a indiferença parece ser estratégia de sobrevivência, mas o remate é de lucidez: "Estou a fingir demência, mas eu me conheço."


O paradoxo entre a aparente resignação e o autoconhecimento é o fio que atravessa o EP. Temas como a identidade, a esperança, os conflitos sociais e as experiências humanas encontram expressão num universo sonoro que totaliza 21 minutos e inclui colaborações com Michael Makembe e SPIRIT ZW em "Hamiriza", entre outras faixas que expandem o universo de referências da artista sem o abandonar. Para quem acompanha o percurso de Assa Matusse, a pluralidade, a mistura de línguas, a maleabilidade estilística e a escrita como identidade são marcas de sempre. "Esta mistura sempre das línguas sempre vai me acompanhar. É uma coisa natural que eu não, que eu não agora, não penso antes. É natural, acontece naturalmente."


O que o EP vem desfazer é uma certa ideia redutora sobre o que significa ser artista moçambicana. Assa tem sido explícita no seu incómodo com a expectativa de que o seu valor resida exclusivamente na marrabenta ou nas tradições mais imediatamente reconhecíveis. "Não acredito que ser artista moçambicano quer dizer só isso", afirma, referindo-se ao tufo, ao changana e a tudo o resto que compõe a riqueza musical do país. "Eu acredito que o artista pode estar onde quer estar e, sobretudo, onde consegue se expressar sem limitações e com liberdade. Porque arte é liberdade." Foi precisamente pelo changana que se tornou referência em Moçambique e começou a despertar a atenção internacional, um percurso que reconhece como fundador sem querê-lo como limite.

A pressão de ser, neste momento, uma das vozes moçambicanas com maior projeção fora de África é algo que a artista assume com honestidade. "Carrego com muita pressão, porque infelizmente não temos esta representação internacional como deve ser. Então, para mim, carregar esta responsabilidade e, sobretudo, nunca decepcionar, às vezes pode trazer algumas limitações." Mas a pressão, acrescenta, é também forma de gratidão: "As pessoas realmente olham para mim e acreditam que eu posso fazer acontecer. Então eu carrego com muita pressão, mas ao mesmo tempo com muita gratidão. É sobretudo com amor ao meu país."


Nati Tivah é, assim, uma afirmação construída com método e com afeto. A artista sabe o que ficou para trás e sabe o que carrega consigo: a escrita, a melódica, as línguas, Moçambique. Quanto ao que vem a seguir, recusa a certeza: "Não sei o que me espera lá para a frente. Vou seguindo a linhagem do que vai fazendo o meu coração bater."

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