Moçambique estreia-se no Film Festival de Roterdão com "O Profeta"

January 29, 2026

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O Profeta, do realizador moçambicano Ique Langa, marca um momento inédito para o cinema nacional ao tornar-se o primeiro filme moçambicano a integrar a secção oficial de competição do International Film Festival Rotterdam (IFFR). A estreia internacional está marcada para 30 de janeiro e a sessão já se encontra esgotada.


Rodado a preto e branco, o filme decorre na vila de Manjacaze, na província de Gaza, no sul de Moçambique. O Profeta conta a história de um pastor chamado Helder, que quer ter uma igreja na vila de Marrecas, mas nada está a correr como idealizou. A partir daí, começa a duvidar da própria fé e procura poderes alternativos para ver se as coisas mudam. É nesse momento que tudo começa a avançar, até começar a andar para trás”, explica o realizador. Sobre a opção estética, acrescenta: “Lembro-me de tentar escrever o filme a cores, imaginar a cor, mas aí deixou de fluir. Parecia que o filme deixava de acontecer naturalmente. Escrevi-o em preto e branco, com muitas dúvidas, mas segui a minha intuição. Hoje sinto que o filme queria ser em preto e branco”.


O Profeta é um projeto de longa duração, com nove anos entre a conceção e a finalização. A escrita iniciou-se em 2016 e ficou concluída em 2019. As filmagens, previstas para 2020, foram adiadas devido à pandemia da Covid-19 e acabaram por acontecer de forma faseada, entre 2022 e 2025, enquanto a equipa trabalhava como freelancer, explica Ique Langa.


Trata-se do primeiro filme do realizador, que o descreve como “muito íntimo e pessoal”. O pai é natural de Manjacaze, local onde passou grande parte da infância. Com um tom assumidamente artístico, próximo do cinema transcendental, o filme dialoga com referências como Yasujiro Ozu, Robert Bresson e Carl Theodor Dreyer. “Há um tom poético que surge primeiro. É pessoal porque carrega muitas das minhas próprias dúvidas num momento de crescimento, de procura sobre quem sou”, afirma.


Um dos aspetos centrais do filme é o seu processo comunitário. O Profeta não conta com atores profissionais. À exceção de três pessoas de Maputo, o elenco e a equipa de apoio são compostos por mais de uma centena de habitantes de Manjacaze. “Sinto que a alma da vila está no filme, quase como um co-realizador. A forma como foi feito, com a comunidade, é essencial. Moçambique pode não ter recursos, mas tem comunidades para fazer os filmes de que precisa”, sublinha.


Inicialmente concebido apenas como uma narrativa cinematográfica, o percurso do filme alterou-se após uma exibição comunitária em Manjacaze, organizada como forma de agradecimento à população local. Foi nesse contexto que a equipa conheceu o produtor e cineasta sul-africano Khalid Shamis, que incentivou a submissão do filme a festivais internacionais.


Desde então, O Profeta integrou o Final Cut in Venice, iniciativa da Bienal de Veneza dedicada a filmes em fase final de produção, onde arrecadou prémios que garantiram apoios à pós-produção, incluindo financiamento do Doha Film Institute, além de distinções no GUIÕES. A seleção para a competição oficial de Roterdão foi inesperada. “Ficámos chocados. Roterdão é um festival de classe A. Ser o primeiro filme moçambicano nesta secção é algo muito grande”, admite o realizador.


Apesar da estreia internacional, ainda não existem planos para exibições públicas em Moçambique. A prioridade passa por consolidar o percurso internacional do filme e levá-lo a outros festivais. Ainda assim, Ique Langa acredita que este momento possa funcionar como estímulo para novas gerações de cineastas moçambicanos. “Acredito que passa por encontrarmos pessoas com a mesma paixão, alinharmo-nos e apoiarmo-nos mutuamente para contar estas histórias juntos. Há muito talento e muita vontade de fazer filmes. Muitas vezes, o problema é cada um achar que está sozinho, quando afinal há outros a fazer o mesmo. Se conseguirmos criar essa comunidade, conseguimos fazer mais filmes”, defende.


O Profeta é produzido por Sousa Domingos, com direção de fotografia de Denilson Pombo, montagem de Sara Carneiro, música original de TKRZ (Ailton Matavela) e desenho de som de Diana Queirós. Para além da sessão de estreia, o filme terá mais duas exibições nos dias 1 e 4 de fevereiro. Os bilhetes estão disponíveis online no site oficial do IFFR.


Fundado em 1972, o International Film Festival Rotterdam (IFFR) teve a sua primeira edição organizada em junho desse ano, sob a direção do programador de cinema Hubert Bals. Desde a sua criação, o festival afirmou-se como uma plataforma dedicada ao cinema independente, experimental e de autor, com especial atenção a obras de realizadores emergentes e a cinematografias provenientes de regiões fora dos grandes circuitos comerciais.


Embora não integre o grupo dos três grandes festivais europeus — Cannes, Veneza e Berlim —, o IFFR é reconhecido como um dos mais relevantes festivais de cinema da Europa e reúne anualmente cineastas, profissionais da indústria e público internacional. Para além das exibições, o festival desenvolve iniciativas como o mercado de coprodução CineMart e o Hubert Bals Fund, programa de apoio a cineastas de países em desenvolvimento, consolidando o seu papel como espaço de descoberta, circulação e financiamento de novos projetos cinematográficos.

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