Estereótipos, diálogos e desafios entre Brasil e os PALOP

January 23, 2026
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©Natalia Blauth/ Unsplash

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Artigo escrito originalmente em português do Brasil


Ao ler os textos publicados nesta revista, dois deles chamaram especialmente minha atenção por dialogarem diretamente com minha realidade enquanto africano no Brasil. Diante disso, decidi contribuir de forma propositiva, buscando estabelecer um diálogo que possa colaborar com outros pesquisadores e pesquisadoras.


Minha trajetória acadêmica e profissional, que atravessa Angola e Brasil, revela não apenas conquistas, mas também tensões e dores. Foi no Brasil que descobri, pela primeira vez, que ser negro podia ser considerado algo ruim. Ainda hoje, mesmo naturalizado brasileiro, carrego os estereótipos que a sociedade insiste em reproduzir. Meu fenótipo muitas vezes me insere no espaço do afro-brasileiro, mas, para muitos, o africano “verdadeiro” deveria ser sempre retinto. Por não corresponder a essa imagem, apenas meu sotaque frequentemente me entrega ao lugar renegado e marginalizado.


Ao refletir sobre esse percurso, dialogo com as provocações feitas por Jamila Pereira, ao relatar sua experiência no Brasil, e com Macaulay Pereira Bandeira, que aponta para as contradições das relações entre Brasil e os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP). Esses diálogos nos permitem pensar a complexidade das lutas raciais e da emancipação dos povos negros dentro da chamada lusofonia, termo que, para muitos brasileiros, não significa absolutamente nada. No imaginário de parte da sociedade, sobretudo entre elites intelectuais e acadêmicas, não se quer nada com aquele lado do Sul Global.

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Agenda cultural

“Não podemos mais baixar a cabeça diante da opressão da branquitude, que historicanmente ousou determinar o nosso lugar"

Alonso Carlos Artur

A relação entre Brasil e os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) possui mais de cinquenta anos em sua forma diplomática, como aponta Macaulay. Mas o que me chama a atenção, assim como a Jamila e talvez a ele é o quanto essa relação pouco contribuiu para a valorização da população negra no Brasil, seja afro-brasileira ou africana. Ao contrário, em muitos momentos, ela foi construída à custa da invisibilidade dos afro-brasileiros, o que acabou por desumanizar ainda mais os africanos que chegaram em tempos recentes.


Não podemos negar a influência da colonialidade do poder, como ensina Aníbal Quijano. Mesmo depois de décadas de independência, muitas nações do PALOP ainda se encontram presas a essa lógica: o colonizador muda, mas a colonialidade perdura, reproduzida pelas próprias elites. Em Angola, como em outros países do PALOP, quem fala “o melhor português” precisa fazê-lo nos moldes de Portugal, relegando nossos outros valores linguísticos ao segundo plano, reduzindo-os a línguas subalternas ou “dialetos”.


Como lembra Stuart Hall, as identidades culturais não são fixas, mas construídas em meio a relações de poder e representações. No caso da negritude, essas representações são atravessadas por estereótipos que não apenas produzem imagens negativas dos negros, mas também delimitam os lugares sociais que podem ocupar. É exatamente isso que percebo na minha trajetória: por mais títulos acadêmicos que alcance, a racialização insiste em colocar-me em posições de subalternidade. A resistência, contudo, é constante. Não podemos mais baixar a cabeça diante da opressão da branquitude, que historicamente ousou determinar o nosso lugar.


O texto de Jamila Pereira, publicado na BANTUMEN, me sensibilizou porque expõe uma realidade que também vivi: a ignorância brasileira sobre a África contemporânea. Ela narra o choque de perceber que, no Brasil, ainda circulam imagens coloniais e reducionistas do continente berço, como se fosse sinônimo apenas de miséria, fome e atraso. Essa visão, que reduz África a um país ou a um espaço de carência, desconsidera sua diversidade cultural, suas riquezas e suas contradições internas. Como Jamila afirma, existe um laço além do trauma entre os povos de Angola, Cabo Verde, Moçambique, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e o Brasil. Mas esse laço é constantemente fragilizado pela falta de reconhecimento mútuo.

“No imaginário de parte da sociedade, sobretudo entre elites intelectuais e acadêmicas, não se quer nada com aquele lado do Sul Global”

Alonso Carlos Artur

Em diálogo com Jamila, Macaulay acrescenta uma crítica contundente: o Brasil exporta uma imagem internacional que não representa os afro-brasileiros. Pelo contrário, historicamente essa imagem instrumentalizou a população negra para justificar supostos “laços culturais” com a África, sem nunca permitir que os negros fossem protagonistas da narrativa. Como ele lembra, o Brasil das novelas, do turismo e das representações midiáticas não é o Brasil real e muito menos é o Brasil dos povos afro-brasileiros.


Esse contraste se reflete diretamente na minha trajetória. No Brasil, percebi que ser africano é algo marcado socialmente e, muitas vezes, de forma negativa. Descobri que ser negro não é apenas uma questão de identidade, mas um marcador de exclusão e estigma. Mesmo com minha formação acadêmica e meu título de mestre pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), ainda enfrento olhares atravessados pelo preconceito. Muitos esperam de mim a figura estereotipada do africano retinto, como se a identidade negra fosse algo fixo e homogêneo, baseado apenas em tonalidades de pele. Isso evidencia o quanto o racismo no Brasil é, ao mesmo tempo, individual e estrutural: manifesta-se em atitudes interpessoais, mas também se sustenta em instituições e práticas que reproduzem desigualdades.


Jamila e Macaulay também lembram que a ignorância brasileira sobre a África se conecta ao desconhecimento dos africanos sobre o Brasil real. Muitos jovens do PALOP chegam ao Brasil admirando sua cultura, mas sem conhecer as complexidades do racismo estrutural brasileiro. Descobrem, muitas vezes pela dor, que ser africano aqui significa também ser racializado de outra maneira tornando-se negros em um sentido que talvez não fosse vivido em seus países de origem.


Nesse processo, percebo como estereótipos e estigmas atravessam fronteiras. No Brasil, somos vistos a partir da lente da branquitude, que constrói a identidade negra como lugar de subordinação, mesmo quando este olhar proveem de um negro brasileiro. A mesma lógica opera quando línguas africanas, como o crioulo cabo-verdiano ou guineense e também o kibundu ou umbundu falado em Angola, são reduzidas a “dialetos”, enquanto o português europeu é visto como o mais correto. O racismo, o colonialismo e o neocolonialismo são forças que atravessam tanto o Brasil quanto os países africanos, reforçando hierarquias culturais e políticas.

“O Brasil das novelas, do turismo e das representações midiáticas não é o Brasil real"

Alonso Carlos Artur

No entanto, também vejo espaços de resistência e construção de alternativas. A Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB), especialmente no Campus dos Malês, é um desses espaços. Foi lá que também conheci jovens de quase todos os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), inclusive Macaulay, acadêmico brasileiro a quem tenho grande respeito, e ele afirma que, juntos, produzimos conhecimento, cultura e práticas políticas que apontam para uma integração crítica. A UNILAB não é apenas um projeto acadêmico; é uma tentativa de recuperar laços históricos e de criar um futuro comum fundado na dignidade negra, emancipando o continente africano e seus descendentes, sejam continentais ou diaspóricos.


Por essa razão, é válido dialogar com o icônico Cheikh Anta Diop, quando ele afirma que  África não pode ser reduzida a um espaço de carências, pois é berço de civilizações que deram contribuições decisivas para a humanidade. Essa perspectiva confronta diretamente as visões coloniais que ainda predominam no imaginário brasileiro, em que o continente aparece apenas como sinônimo de fome, miséria, guerras e atraso.


As reflexões de Jamila Pereira e Macaulay Pereira Bandeira ajudam-me a compreender minha própria trajetória como angolano que se tornou também brasileiro. Descobri, no Brasil, que a negritude é marcada por estereótipos, estigmas e exclusões que se renovam em cada espaço social, do cotidiano à academia. Mesmo naturalizado, mesmo professor, mesmo mestre em educação, ainda carrego marcas de uma racialização que insiste em me colocar em um lugar de inferioridade, essa realidade forçou-me a militar pelas causas raciais e me apropriar de discussões voltadas para educação para as relações etnos raciais primeiramente apresentadas a mim pela UNILAB nas minhas duas formações.


Contudo, como lembra Jamila, há um laço além do trauma que une Brasil e África. Esse laço pode ser fortalecido se reconhecermos nossas invisibilidades e enfrentarmos os estereótipos que nos separam. Como destaca Macaulay, é preciso questionar a imagem do Brasil exportada para o mundo e construir uma narrativa em que afro-brasileiros e africanos sejam protagonistas.


Sonho, assim como muitos colegas da UNILAB, com uma integração que não seja marcada pelo colonialismo, pela colonialidade do poder ou pelo racismo, mas pela solidariedade, pela valorização da diversidade cultural e pelo reconhecimento mútuo. Esse sonho não ignora as dores e os obstáculos, mas acredita na possibilidade de transformar, como diz Macaulay o abraço na ignorância em diálogo, e o diálogo em emancipação. 

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