Há artistas bons… e depois há Papillon

March 24, 2026
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Papillon no Coliseu dos Recreios | ©Assunção Pearson

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Há muito tempo que não escrevia uma crónica. E hoje, ainda com o concerto de sexta-feira preso na cabeça, dei por mim a pensar: porquê agora? Talvez porque há momentos que pedem registo. E o convite do Eddie Pipocas, que ficou em standby durante meses, acabou por ganhar sentido depois do que se viveu no Coliseu.


Vamos ao essencial: há artistas muito bons… e depois há o Papillon.


Digo isto com algum peso. Já trabalhei com muitos artistas, dentro e fora do hip hop, em Portugal e lá fora. E sim, sou suspeito. Trabalhei com o Rui durante alguns anos. Mas é precisamente por isso que consigo dizer, com alguma segurança, que desde muito cedo era evidente que estávamos perante alguém diferente. Pelo talento, pela forma como lê o mundo e transforma isso em linguagem. É um dos poucos nomes que conseguiu alargar o que o hip-hop português podia ser, não um rapper que se abriu ao mundo, mas alguém que fez do hip-hop uma base inclusiva, capaz de conter uma palete vasta de ritmos, sons e universos próprios.


Se houver dúvidas, o exercício é simples: ouvir Deepak Looper, Johnny Driver e Wonder de seguida. São capítulos de uma vida em construção, mas com estados emocionais distintos e deliberados. Deepak Looper é a saída do casulo, a energia acumulada. Johnny Driver é o regresso à larva, o luto trabalhado, a morte do pai a obrigá-lo a pensar a vida de uma forma diferente. Wonder é a maravilha recuperada; o fecho de um ciclo conceptual. Há ali crescimento artístico, mas também humano. Filho, irmão, amigo, pai e, sobretudo, alguém que rejeita a ideia de perfeição para se aproximar de algo mais raro: autenticidade.


O concerto no Coliseu foi a materialização disso tudo.


Para perceber o peso daquela sala, é preciso saber que o Papillon já tinha estado naquele palco várias vezes antes: como convidado, com os GROGNation, nos Prémios Play. Conhecia aquela casa antes de poder chamá-la de sua. Mas nada disso desviou o foco; pelo contrário, criou contexto. Quando cheguei, pensei naquela frase-cliché dos casamentos: "casamento molhado, casamento abençoado". Aqui foi igual. Concerto molhado, concerto abençoado.


O alinhamento foi inteligente e pensado como viagem, muito mais do que como sequência de hits. De "¡+1!" a "Camadas", de "Imagina" a "Metamorfose pt.2", havia uma construção emocional clara, de músicas que abrem espaço para músicas que fecham, até chegar ao "1:AM" em acapella, o momento mais despido da noite, em que o silêncio à volta era parte da música. Muitos artistas perdem-se entre o que o público quer ouvir e o que querem mostrar. Aqui as duas eram a mesma coisa.


Depois, os encontros - que podiam ser só participações -, mas acabaram por funcionar como extensão do universo do Papi. Bispo em "Não Dá Para Parar", Plutónio em "Iminente", Slow J em "FAM", Bárbara Tinoco em "N.M.N", ajudaram a compor o retrato de um artista que nunca aceitou fronteiras de género como argumento.


E isso diz muito.


Porque o que se viu ali foi um público em sintonia do início ao fim, a provar que a música, quando é honesta, não precisa de fórmulas de rádio para chegar. O segundo álbum dele, lançado quase em silêncio, sem singles e com faixas longas, é prova disso. É um disco sobre perda e sobre o que se constrói depois dela, íntimo por definição, feito para ser ouvido a sós. No Coliseu, aquelas músicas foram cantadas de cor por uma sala inteira. Há qualquer coisa de paradoxal nisso e que resume bem o que o Papillon conseguiu: transformar o que é mais privado no que é mais coletivo.


De todo o concerto, fica a ideia de que a música o salvou. Não é uma metáfora fácil, mas pode ser entendida se olharmos para a linha do tempo: antes da música havia um sonho de futebol que o corpo e os documentos não deixaram cumprir. Depois, a morte do pai, o acontecimento que está no centro de Johnny Driver, obrigou-o a construir outra forma de estar no mundo. Por fim, a paternidade, que trouxe uma “prioridade nova” e acabou por transformar-se numa das fontes de inspiração de Wonder, último álbum editado e também ele apresentado no Coliseu.


Em 2023, numa conversa que tive com o Papillon, lancei-lhe uma pergunta inspirada numa barra do Slow J: "Papi Profeta, já previu depois do terceiro disco?". Na altura ficou no ar.


Depois do que se viu no Coliseu, a pergunta mantém-se, mas com outro peso.


O que vem a seguir já não é só sobre carreira. É sobre uma coerência que não se planeia e isso só acontece quando um artista nunca se desvia do que é.

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