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Em muitos países da lusofonia africana, a estabilidade não se mede em discursos nem em indicadores macroeconómicos. Mede-se na estrada. Mede-se no momento em que o camião entra ou não, mede-se no mercado, sobretudo no informal. Quando o camião não chega, não é apenas uma falha logística, é um abalo psicológico coletivo.
Em Moçambique, sobretudo em períodos eleitorais, já vimos como a tensão política e os bloqueios em zonas de fronteira transformam o quotidiano. Um atraso em Ressano Garcia, por exemplo, deixa de ser um constrangimento operacional e passa a ser o início de uma cadeia invisível de ansiedade que se espalha pelos mercados, pelos bairros e pelas decisões das famílias.
O comerciante guarda stock, o consumidor antecipa escassez e o preço sobe antes da ruptura. Não é irracional, é memória. É o reflexo de quem já viveu o vazio na prateleira e entra automaticamente em modo de sobrevivência. E assim nasce uma economia do medo.
A logística, que devia ser invisível, torna-se emocional. Cada camião que falha ativa um alerta silencioso: “E se amanhã não houver?” E sem previsibilidade não há planeamento, há apenas sobrevivência.
O contexto global recente veio reforçar essa realidade. Apenas o risco de bloqueio no Estreito de Hormuz por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial mostrou como a perceção de escassez pode ser tão poderosa quanto a escassez real. Em Moçambique, mesmo com garantias dadas pelo Governo sobre a existência de stock, foi o ritmo do “camião” que não conseguiu responder ao aumento súbito da procura. A ansiedade fez o resto.
Na prática, vimos a aplicação de um conceito clássico da economia, o famoso ceteris paribus, uma expressão usada para analisar o impacto de uma variável económica mantendo todas as outras constantes. Neste caso, o sistema logístico manteve-se, os níveis de stock também, mas a procura aumentou exponencialmente. E foi suficiente para quebrar o equilíbrio. O ritmo normal da cadeia de abastecimento deixou de conseguir responder.
Quem tinha capacidade, se antecipou e em pouco tempo, os postos esvaziaram, não por falta imediata, mas por pressão sobre o sistema. Quem vive no dia-a-dia reagiu e quem está nos bairros sentiu primeiro. A última milha da logística é, na verdade, a primeira linha da desigualdade.
Falamos muito de infraestruturas como estradas, portos, corredores, mas o verdadeiro desafio é confiança. Um sistema logístico frágil não falha apenas no transporte, falha também na construção de segurança social.
Porque, no fundo, isto não é apenas sobre bens. É sobre dignidade. É sobre o cidadão que acorda sem saber se haverá combustível para ir trabalhar. É sobre a família que compra em excesso por medo de não voltar a encontrar. E é sobre o pequeno negócio preso num ciclo de reação constante.
Quando o abastecimento falha, não quebra apenas o mercado, quebra a estabilidade mental de uma sociedade inteira. Num continente onde tanto se fala de crescimento, talvez seja hora de reconhecer o óbvio: não é possível haver prosperidade onde a sobrevivência ainda dita o ritmo da cadeia de abastecimento.
Porque quando o camião falha, o que chega primeiro não é a escassez, mas sim a ansiedade.
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