Raquel Lima e o lugar da subversão até chegar ao Prémio Emma Goldman

March 25, 2026
raquel lima entrevista
Raquel Lima | ©Estelle Valente

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Nascida em Lisboa em 1983, filha de mãe angolana e pai são-tomense, Raquel Lima cresceu na margem sul do Tejo portadora de uma cartografia afetiva e política que moldaria tudo o que viria a construir. Sem cidadania portuguesa até à maioridade, foi na palavra dita que encontrou o território que o Estado lhe negava. Pelos palcos do poetry slam e do spoken word, começou a reivindicar um lugar pleno num país que teimava em não reconhecê-la.


Da cofundação do PortugalSLAM, entre 2012 e 2017, à investigação doutoral sobre a oratura são-tomense e as tafua - canções de escravatura de Angola para São Tomé -, o percurso de Raquel Lima desdobra-se entre a academia, as artes performativas e o ativismo, sem que algum desses espaços a contenha inteiramente. O primeiro livro, Ingenuidade Inocência Ignorância (2019), já era indissociável da voz gravada e da música de Yaw Tembe. O mais recente, Úlulu, lançado este ano pela Andarilha Edições com a Facada Records, parte de um ritual são-tomense de enterro do cordão umbilical e convoca a voz da sua mãe, do seu filho ainda bebé e de outras mulheres da sua constelação, tornando-se, simultaneamente, performance, livro artesanal, áudio-livro e, em breve, concerto.


Em 2021, cofundou a UNA (União Negra das Artes), a primeira associação cultural portuguesa dedicada a pensar o lugar de artistas da diáspora negra e a problematizar, sem rodeios, questões de representatividade e políticas públicas para o setor. Foi desta trajetória - tecida com coerência entre o panafricanismo, o feminismo antirracista e um pensamento herdeiro do anarquismo - que emergiu o reconhecimento mais recente: o Prémio Emma Goldman, que a distinguiu como a primeira intelectual portuguesa, angolana e são-tomense a recebê-lo.


Em entrevista à BANTUMEN, Raquel Lima fala sobre ancestralidade, pertença e exclusão, sobre o que o palco ensina e a academia não alcança, e sobre o que significa ser reconhecida num espaço que valoriza, acima de tudo, a coerência de uma vida entregue à subversão e à criação.

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Mbye Ebrima
raquel lima entrevista

© Marta Pinto Machado

Nasceste em Lisboa em 1983, filha de mãe angolana e pai são-tomense, cresceste na margem sul do Tejo e há ainda uma avó paterna senegalesa e uma trisavó materna brasileira. Como é que carregar tantas geografias em simultâneo moldou a tua voz e a tua relação com o mundo?


Inicialmente essa ancestralidade manifestou-se como lacuna ou como uma incompletude. Como nasci e cresci em Portugal e na Europa, convivi com um enorme fascínio e uma curiosidade aguçada por essas culturas e línguas tão próximas dentro de casa, mas tão distantes a nível geográfico. E essa sede só se começa a resolver com a minha primeira viagem a São Tomé e Príncipe em 2013, e sucessivamente com outras viagens ao continente africano, em países como Gana, Nigéria, Moçambique e Cabo-Verde. Então, essas geografias da minha linhagem (e não só) moldam profundamente a minha voz e a minha relação com o mundo, porque sempre senti a injustiça social que esteve por trás desse afastamento, dessa procura de pertença e dessa vontade de retorno. E esses são aspetos que determinam, de forma inequívoca, o meu trabalho artístico, fundamentam o meu percurso académico, fortalecem as minhas práticas ativistas no feminismo, antirracismo e panafricanismo e nutrem as minhas relações pessoais e afetivas. Além das questões de identidade e pertença, prezo muito ter conseguido obter também a cidadania desses países e ter tripla nacionalidade, porque isso molda também a minha relação de compromisso com esses territórios e pessoas.


Antes da maioridade, não conseguiste obter a cidadania do país onde nasceste. Foste construindo a tua identidade primeiro pela poesia oral. De que forma essa experiência de exclusão te fez chegar à poesia?


Nunca refleti sobre essa relação direta, mas a poesia oral foi sempre um refúgio para a construção de uma comunidade de poetas que imaginava e criava o seu lugar, de forma única e autêntica. O poetry slam e o spokenword foram, por natureza, lugares de reflexão, criação, convívio e celebração. Lugares em que me reconheci como pertencente a um movimento e como impulsionadora de uma imaginação radical sobre o que é a poesia em Portugal. São lugares onde senti que estávamos a criar algo genuinamente novo aqui. Então, sim, poderá ter sido uma forma de reivindicar o meu lugar pleno neste país, onde curiosamente criámos o PortugalSLAM, através da associação cultural Pantalassa, estrutura que cofundei, e que também já estava preocupada em problematizar a ideia de espaço lusófono. Além disso, a poesia é um espaço privilegiado para a nutrição da subjetividade, um lugar de autonomia e agenciamento, e os meus poemas são também, muitas vezes, uma dimensão de desabafo sobre as contradições e ambiguidades do mundo em que vivemos.


Passaste pelos slams, pelo spoken word, pelo PortugalSLAM que codirigiste entre 2012 e 2017, antes de regressares à academia. O que é que o palco te ensinou que um doutoramento não consegue ensinar e vice-versa?


Eu penso muito o palco e as artes performativas como espaços ritualísticos, em que, além do encontro entre as pessoas, acontece uma comunhão no plano astral. Espaços que vão além da racionalidade e onde mobilizamos energias, voz e corpo, com toda a sua experiência adquirida, herdada e somatizada, e isso eu não encontro nos debates académicos, onde a autoria e a individualidade ocupam mais espaço. Contudo, ainda estou para saber o que um doutoramento me pode ensinar, depois de finalmente defender a tese.


Mas acredito que a comunidade artística é a fatia da sociedade civil que antecipa as questões políticas e epistemológicas centrais de determinado período histórico. E ainda que a academia tenha a autoridade de definir o valor científico do conhecimento, sinto que chega sempre atrasada no que toca aos movimentos sociais mais pulsantes e aos sinais de mudança ou transformação social. Talvez por isso o sector artístico seja tão precário e o primeiro a ser prejudicado quando se trata de reprimir certos debates e narrativas, por ser tão perigoso também.


Ingenuidade Inocência Ignorância (2019) é simultaneamente livro e audiolivro, com música de Yaw Tembe. A tua voz narrada faz parte da obra; não é separável dela. O que significa para ti a ideia de "poética do corpo presente" e porque é que a página sozinha não chega?


A poética do corpo presente é exatamente o que falo na resposta anterior. Essa possibilidade de carregarmos discursos e narrativas para além da página, mas através da voz, da respiração, do gesto, da hesitação, do encontro físico, etéreo e presente, e estes são campos incríveis de produção de saber e que garantem a manutenção de sociedades inteiras. Daí também a valorização da oratura no meu trabalho académico, e em todas as minhas práticas - porque muito do conhecimento que sempre me chegou sobre as minhas raízes, por exemplo, foi acolhido pelas histórias que escutava e não pelos livros que lia. O meu segundo livro, Úlulu, lançado este ano pela Andarilha Edições e a Facada Records, com música de Okan Kayma, e a minha voz, da minha mãe Maria Palmira Joaquim, da Eneida Tavares, da Tobi Ayé e do meu filho Rani Lima, é também um áudio-livro. Porque é um meio de oferecer ao leitor mais camadas para além da leitura, convidando-o a uma escuta ativa e à compreensão de outras dimensões que determinados ritmos e línguas carregam. A poética do corpo presente é essa relação indissociável entre poesia, corpo e presença, e esse foi também o mote para pensar oficinas de poesia, e a sua relação com raça, género e uma escrita interseccional.


A tua investigação doutoral centra-se na oratura são-tomense e especificamente sobre a tafua, canções de escravatura de Angola para São Tomé. Porquê essa manifestação em particular e o que é que a oratura consegue revelar que o arquivo histórico esconde?


A tafua é-me muito cara porque desenha trajetos que me são familiares. Falamos de pessoas Angolanas escravizadas em São Tomé, e que me permitem aceder a esses lugares, práticas e línguas que também fazem parte da minha vida, da vida da minha mãe e do meu pai. Além disso, as canções testemunham a força, resiliência e quotidiano das pessoas escravizadas, e essas dimensões raramente são pesquisadas, do ponto de vista científico, nos estudos sobre escravatura. Permite-me acrescentar uma camada fundamental sobre a experiência desses antepassados, e prolongá-la até à experiência dos seus descendentes cujo corpo é um património vivo de preservação cultural. E isso ajuda-nos a pensar nas continuidades históricas do colonialismo e a estender e/ou problematizar a concepção de arquivo histórico, a meu ver limitada e alheia a uma articulação com os direitos humanos dessas bibliotecas vivas.

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©Nuno Ferreira Santos

O teu projeto mais recente, Úlulu, parte de um ritual são-tomense de enterro do cordão umbilical: a criança parte, mas sabe sempre regressar. De onde surgiu este projeto e o que é que ele te pede que os anteriores não pediam?


Este projeto surge com um convite do Francisco Frazão para estender, reinventar e dar corpo ao vídeo Essencial é a Fome, também realizado por mim, no âmbito da sua direção artística no TBA. Esse convite surge no momento em que eu engravidei, em São Tomé, e quando estou a viver dos momentos mais marcantes da minha vida, no que toca a uma reconexão do corpo com a terra, e vice-versa. E Úlulu comporta, de forma poética, ecológica e ancestral, essa relação entre corpo e terra. Vem na sequência de outra obra visual “o meu útero não está na europa”, em que já aproximava uma ideia mítica de útero às cascatas são-tomenses, porque era essa a minha busca - uma relação uterina e espiritual com o lugar de pertencimento. A criação Úlulu foi, sem dúvida, das mais desafiantes, não só porque é um formato de espetáculo exigente, que envolveu uma equipa maior do que nos projetos anteriores, mas também porque envolveu trabalhar em família, especificamente com a minha mãe, e com o meu filho bebé ainda muito pequeno. Então foi uma peça muito familiar, em que toda a equipa se envolveu nessa frequência para abraçar uma dinâmica muito íntima e colaborativa. Úlulu nasceu performance, transformou-se em livro artesanal feito a várias mãos, ou seja, virou oficina, depois áudio-livro e em breve será concerto. Então este projeto também simboliza a abordagem transdisciplinar ao meu trabalho artístico, de uma forma muito visceral, horizontal e comunitária.


Em 2021 cofundaste a UNA - União Negra das Artes. Que lacuna estava ali que nenhuma outra estrutura existente conseguia preencher?


Não existia em Portugal nenhuma associação cultural dedicada exclusivamente a pensar o lugar de artistas da diáspora negra na sociedade, e a problematizar abertamente questões de representatividade negra, legado negro, e políticas públicas concretas para esse sector. E se o sector artístico é perigoso na sociedade, as pessoas negras neste sector ainda mais o são, porque denunciam a forma como ele é cúmplice da limitação de acessos e fruição cultural num país racista. E o papel histórico da UNA é exatamente esse: organizar, sistematizar, celebrar e problematizar um setor onde, durante muitos anos, não nos vimos representadas, e no qual os lugares de direção e decisão continuam sendo alheios e praticamente inacessíveis.


O teu trabalho habita a encruzilhada entre arte, academia e ativismo - várias participações em conferências como keynote speaker e oradora, a Bienal de Veneza, a Bienal de São Paulo, workshops de escrita interseccional, o NAC, o INMUNE, a Yanda Panafrikanu, a UNA. Como é que geres esse movimento constante entre espaços tão diferentes, com lógicas tão diferentes?


As lógicas dos espaços são diferentes, mas a minha lógica mantém-se nesses circuitos - são espaços para ocupar com autonomia, espírito crítico e autenticidade. Preservando um lugar intacto, dentro de mim, em todos eles, um lugar que tento não corromper nem negociar. Talvez seja o da consciência negra. Ou o da consciência de mulher negra, mãe, diaspórica que nasce numa classe baixa, num país em negação com a sua própria identidade. Então existem espaços de luta e disputa, e espaços de fortalecimento e celebração. E quando consigo fazer tudo isso, em todos os lugares, sinto que existe coerência na minha jornada. Poder refletir sobre os elementos da natureza no âmbito das ciências sociais, ou práticas ritualísticas nos estudos sobre performance, são exemplos dessa hibridez criativa que procuro preservar.


O Prémio Emma Goldman é explicitamente contra as lógicas competitivas da academia e do neoliberalismo e valoriza o ativismo, a pesquisa artística, o autocuidado. O que significa ser reconhecida especificamente neste espaço?


Significa que alguém conseguiu ler essa coerência de que falava anteriormente. Alguém reuniu as peças dispersas, os caminhos soltos, as colaborações múltiplas e os diversos desafios. Além disso, significa que existem lugares académicos que se questionam e auto-refletem ao ponto de reconhecerem a importância de termos um pé dentro da academia e outro fora. Significa que existem zonas libertadas dentro do universo académico, zonas anarquistas, em que é possível que aconteça uma redistribuição de recursos, e que a força das mulheres que pensam para além das disciplinas e campos de ação pode ser reconhecida e reparada. É um círculo perfeito! Uma oportunidade de descanso mas também de mobilização de força anímica para os próximos passos.


Emma Goldman era anarquista. Que relação tens com esse legado?


Quem me conhece há mais tempo sabe que, desde cedo, cresci a ocupar lugares que não me eram destinados à partida, e bebi muito do movimento anarquista na minha adolescência e na vida adulta, assim como dos movimentos de hip-hop (particularmente do graffiti) e punk, que leio também como, em grande parte, anarquistas. Estive envolvida em ocupações de habitação e de propriedade coletiva na Holanda, Itália, Espanha e Portugal, e sempre senti que não existe lugar onde eu faça mais sentido do que o da subversão ao sistema imposto. Lugares onde podemos manifestar livremente o nosso descontentamento com a ordem local ou global das coisas, com o “Estado” das coisas, e que são regidos por lógicas de horizontalidade e autogestão. E sigo lutando por igualdade social e questionando formas de hierarquia, autoridade ou dominação na minha poesia, nos meus artigos e livros científicos, no sector artístico e no associativismo.


Livros que co-editei e onde também contribuo com capítulos, como o Pandemic Solidarity: Mutual Aid During the Covid-19 Crisis (Pluto Press, 2020) e Afroeuropeans: Identities, Racism, and Resistances (Routledge, 2025), são exemplos disso. As oficinas de arte-educação que dinamizo têm sempre um caráter libertário, com foco na consciência crítica e coletiva, e em oposição à doutrinação de verdades absolutas dominantes. E recentemente fiz a curadoria da conferência Reformular a Autoridade e Autoria nas Artes, na Culturgest, para também questionar hierarquias impostas e formas de reparação.


Os meus livros de poesia também privilegiaram sempre editoras independentes e o fazer artesanal, e até o chamado DIY (do it yourself), comum na construção de fanzines anarquistas. Interessa-me conhecer e colaborar sempre com os meios de produção editorial e não estar sujeita a eles, de forma imposta e unilateral.


Finalmente, o lugar das lutas feministas e antirracistas também pode ser lido como anarquista, ainda que anacronicamente, porque, a meu ver, as lutas antirracistas começam com as primeiras revoltas de pessoas escravizadas. Mas na UNA, por exemplo, todo o trabalho é horizontal e autogestionado. Acredito que a transgressão possa acontecer de forma mais radical, com a criação de zonas libertadas de raíz, mas que se estende à forma como operamos nos movimentos associativos, literários e até mesmo académicos. 


E por tudo isso, ganhar o prémio Emma Goldman é surreal, e é a vida a fazer finalmente sentido! E conhecer as outras premiadas no evento, em Viena, mulheres negras, trans, indígenas, palestinianas, lésbicas, periféricas e rurais, muitas delas a sentirem o mesmo síndrome de impostoras e a viverem esse sonho com a mesma intensidade e dúvida, fortaleceu-me muito e deu muito sentido às várias lutas e conquistas acumuladas. Acho que o prémio em si justifica a minha relação com esse legado.


Foste a primeira intelectual portuguesa, angolana e são-tomense a receber esta distinção. Ser a "primeira" é motivo de celebração, de pressão ou tudo ao mesmo tempo?


Espero que seja, acima de tudo, motivo para que mais intelectuais em Portugal possam receber a mesma distinção, porque há sem dúvida muitas que a merecem, acima de tudo em grupos sociais historicamente oprimidos. E, de resto, sim, celebro com alguma pressão, mas com um lembrete no descanso e na simplicidade, na importância de a nossa saúde mental depender muito de nos retirarmos de lógicas que nos pressionam, num mundo que já tem várias pressões em curso, a tempo inteiro. Citando a mana Isabél Zuaa numa entrevista recente: “No momento em que estamos, ser genuinamente feliz é um ato político”.

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