Este cientista cabo-verdiano criou uma marca para simplificar o skincare

October 30, 2026
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Samora Miguel Cardoso Lopes, fundador da Aqua Religion

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“Hoje em dia, fazer skincare é quase um part-time job.” É assim que Samora Miguel Cardoso Lopes resume o ponto de partida da Aqua Religion, a marca de cuidados com a pele que criou para reduzir o número de produtos e o tempo dedicado às rotinas diárias. O investigador biomédico cabo-verdiano, com percurso na investigação clínica nos Estados Unidos, passou cerca de dois anos e meio a desenvolver as formulações antes de pensar em vendê-las. “O meu primeiro objetivo é ter um produto de qualidade. O marketing vem depois”, explica à BANTUMEN.


A proposta tem nome, “One Ritual”, e três produtos: o Kojic Acid Dark Spot Serum, para as manchas; o Peptide Anti-Aging Serum, para os sinais de envelhecimento; e o Reset Eye Patches, pensado para a hidratação e a redução de olheiras. Cada fórmula responde a uma necessidade específica, com o objetivo de simplificar a rotina e evitar a acumulação de produtos e o desperdício. A marca descreve as formulações como vegan e cruelty-free e resume os seus princípios na expressão “Wellness over Profit”.


Ao colocar os produtos no mercado, o fundador diz preocupar-se tanto com os ingredientes como com aquilo que promete a quem os compra. “Não quero fazer marketing enganador”, afirma. É uma responsabilidade que assume pessoalmente: “Não conseguiria dormir descansado sabendo que estava a desenvolver produtos que um dia pudessem levar alguém ao hospital”, acrescenta. Para Samora, comunicar uma marca de skincare também passa por ensinar, desde a importância da proteção solar até à leitura dos ingredientes e das alegações que as marcas fazem. Reconhece o peso das redes sociais na descoberta de produtos e quer manter-se perto de quem experimenta os seus. “Quero construir uma comunidade que está a experimentar estes produtos e que sabe onde os encontrar”, diz.


A Aqua Religion não é a primeira incursão de Samora na beleza. Antes, já tinha explorado os cuidados com o cabelo natural através de uma empresa de produtos capilares, um interesse que manteve enquanto construía o percurso científico nos Estados Unidos, ligado à investigação clínica em anestesia, cuidados intensivos e medicina da dor. Quando voltou ao desenvolvimento de produtos, começou pelas formulações. A ideia de criar uma empresa foi ganhando forma à medida que o projeto avançava e, pelo caminho, devolveu-lhe o gosto pelo desenho. É ele quem trata do design, das embalagens e do website da marca. Em criança, gostava de desenhar e de trabalhar com formas geométricas e chegou a imaginar um futuro na arquitetura. “A medicina tem princípios e regras. O empreendedorismo dá-me mais espaço para ser criativo”, conta.

“Não conseguiria dormir descansado sabendo que estava a desenvolver produtos que um dia pudessem levar alguém ao hospital.”

Samora Miguel Cardoso Lopes

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Já nos Estados Unidos, ao terminar o ensino secundário, recebeu uma bolsa para uma academia de aviação e ponderou tornar-se piloto. A distância da família e as circunstâncias daquele período levaram-no a procurar outro caminho. O interesse por compreender as doenças vinha de mais longe, da infância em Cabo Verde.


Nascido em São Vicente, viveu parte desses anos na Praia, aos cuidados de uma tia professora, num contexto familiar marcado pelos problemas de saúde da mãe. A leitura fazia parte do quotidiano e, na Escola Grande, uma professora ensinava os alunos a questionar as histórias e a olhar para elas de outras perspetivas. Ainda hoje se lembra do Capuchinho Vermelho contado também do ponto de vista do lobo. A morte dessa professora, vítima de cancro, deixou-lhe perguntas sobre a doença e sobre o que a provocava. “Aquilo foi uma semente. Levou-me a tentar entender as doenças e as razões pelas quais as coisas acontecem”, recorda.


A formação e a investigação aconteceram depois, nos Estados Unidos, mas a ligação ao arquipélago manteve-se através da Cabo Verdean American Medical Society (CVAMS). Na organização, participou em ações de formação, intercâmbios científicos e culturais e iniciativas de apoio ao sistema de saúde cabo-verdiano. A CVAMS aproxima especialistas da diáspora e profissionais que exercem no país, e o investigador faz questão de sublinhar que a troca acontece nos dois sentidos. “Nós também aprendemos com os médicos de Cabo Verde”, afirma. A falta de equipamentos e recursos obriga os colegas cabo-verdianos a adaptar procedimentos e a procurar soluções, uma experiência que, no seu entender, pode ser útil a quem trabalha noutros contextos.


Para que essa troca tenha continuidade, defende uma articulação mais organizada entre o sector público, o sector privado, a diáspora e as instituições do país. “No fim do dia, para fazer ciência e medicina, precisamos de instituições”, sublinha. Diz haver profissionais preparados e vontade de investir, mas considera que os projetos só avançam com estruturas capazes de reunir financiamento, equipamentos e conhecimento à volta de objetivos comuns. Ao falar da diáspora, lembra os muitos profissionais que trabalham para o país a partir de diferentes lugares e pede condições para que possam aplicar essa experiência. “A nação cabo-verdiana deve abraçar um bocadinho mais e dar espaço para as pessoas operarem nas áreas em que estão a tentar criar”, defende.


Nos próximos cinco a dez anos, imagina a Aqua Religion reconhecida nos Estados Unidos e a nível internacional. Se esse crescimento acontecer, pretende apoiar projetos de ciência, tecnologia, engenharia e matemática em Cabo Verde. “Se a empresa crescer, quero investir em projetos STEM em Cabo Verde”, diz, a pensar em oportunidades para crianças e jovens conhecerem estas áreas através da prática. E explica porquê: “O povo cabo-verdiano é inteligente. Muitas vezes só falta exposição e oportunidade.”


A marca ocupa-o, mas não substitui o objetivo de se tornar cirurgião. Responsabilidades familiares, dificuldades pessoais e períodos de burnout obrigaram-no a interromper alguns planos, sem abandonar essa intenção. “O meu objetivo é tornar-me cirurgião e continuar os trabalhos que já faço, em Cabo Verde e globalmente”, afirma. A Aqua Religion é, por isso, uma atividade entre várias a que quer continuar a dedicar-se. “É tudo sobre a jornada: aprender sempre algo novo e dedicar esse conhecimento a encontrar melhores formas possíveis de ajudar pessoas através da medicina, da ciência e agora também através dos produtos que desenvolvo”, resume. Já no fim da conversa, deixou um pedido em inglês: “Please don’t make it sound like I made it. I’m just a guy.” Em português, algo como “não faças parecer que já cheguei lá, sou só um tipo normal”.

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