“Criar hip hop e chegar às massas, sem deixar de dizer alguma coisa ao teu povo”, a indústria musical vista por Tomás Martins

December 29, 2025
tomas martins mes da musica entrevista

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A indústria musical portuguesa atravessa um momento de redefinição, marcado pela convivência entre novas possibilidades de criação e circulação, e fragilidades estruturais que condicionam a consolidação de carreiras. A democratização do acesso às ferramentas de produção e aos canais digitais alterou o ecossistema, ampliou vozes e propostas, mas trouxe também um mercado mais fragmentado, saturado e difícil de escalar, onde visibilidade nem sempre se traduz em sustentabilidade. “A indústria musical em Portugal continua a ter muitos problemas de escala e estruturais”, afirma, Tomás Martins, fundador da plataforma @ocriador.pt, em entrevista à BANTUMEN.


O diagnóstico está diretamente ligado às transformações recentes nos modos de produção e distribuição musical. Produzir música deixou de depender exclusivamente de grandes estúdios ou de contratos com editoras e passou a estar dependente da vontade dos artistas. “As pessoas têm hoje mais acesso às ferramentas necessárias para produzir e também aos sistemas de distribuição, para colocar a música cá fora”, explica. Esse alargamento de possibilidades alterou a forma como a música circula, mas teve também um efeito colateral que “facilitou a saturação dos mercados” num cenário em que o aumento da oferta torna mais difícil aos artistas diferenciarem-se.


A conversa decorre à margem do Mês da Música, iniciativa promovida pelo Ponto Kultural, onde Tomás Martins foi um dos oradores da conversa Indústria da Música. O encontro, realizado em Mem Martins (na Linha de Sintra), reuniu agentes culturais de diferentes backgrounds para discutir os desafios contemporâneos do setor, num contexto que permite observar de forma mais nítida como as dinâmicas da indústria se manifestam fora dos centros tradicionais de decisão.

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Agenda cultural

“As pessoas têm hoje mais acesso às ferramentas necessárias para produzir e para colocar a música cá fora”

Tomás Martins

Ao longo da conversa, o percurso de Slow J surge como referência recorrente para pensar essas transformações. Lançado num momento de forte projeção pública do artista, Afrofado, álbum editado em 2023, conheceu uma ampla circulação nas plataformas digitais - mais de 100 milhões de streams desde o lançamento - e afirmou-se como um dos projetos mais ouvidos da sua discografia, com presença consistente em playlists, concertos e debates culturais. Para Tomás, esse alcance não resulta de uma adaptação mecânica às lógicas do algoritmo, mas de uma proposta artística clara. “A proposta do J sempre foi muito consciente do ponto de vista artístico. A pergunta era: será que consegues criar hip hop consciente e, ao mesmo tempo, chegar às massas, sem deixar de dizer alguma coisa ao teu povo?”, sublinha ao afastar a ideia de uma criação orientada exclusivamente por métricas ou expectativas externas.


O álbum ilustra, nesse sentido, uma das tensões centrais da música contemporânea: a necessidade de dialogar com um público alargado num ecossistema acelerado, sem reduzir a obra a um produto formatado para consumo rápido. Canções que funcionam num primeiro nível mais imediato permitem, a partir daí, o acesso a camadas mais profundas de significado. “Há pessoas que se ligam primeiro à música e só depois chegam ao conceito e à história”, observa e cita o tema “Tata” a título de exemplo - “há pessoas que nem sabem o que quer dizer ‘Tata’ ou ‘wanangue’, mas ligam-se à música” - e apontando a acessibilidade como ponto de entrada e não como diluição da proposta artística.


A lógica, admite, está intimamente ligada às condições atuais de consumo. As métricas do streaming, a fragmentação da atenção e a multiplicação de plataformas influenciam inevitavelmente a forma como a música é produzida e pensada, quer de forma consciente quer indireta. Ainda assim, essa influência é encarada como parte de um processo histórico mais amplo, em que a música sempre respondeu aos espaços, aos suportes e aos contextos de escuta. “Há 20 ou 30 anos também havia métricas, só que eram outras, como quantos álbuns vendeste”, lembra. O que mudou foi a multiplicação de indicadores, como o tempo mínimo de audição ou o replay value, sem que isso se traduza, necessariamente, numa pressão declarada para criar música orientada apenas para o algoritmo ou para a viralidade.

“As pessoas não sabem bem o que é o publishing. Essas estruturas não estão muito bem desenvolvidas em Portugal”

Tomás Martins

No plano estrutural, os constrangimentos do mercado português mantêm-se evidentes. A reduzida escala limita a capacidade de gerar receitas consistentes e dificulta a profissionalização plena das equipas que trabalham em torno dos artistas. Muitas funções essenciais continuam pouco desenvolvidas ou insuficientemente compreendidas, como o publishing, área central na gestão de direitos e na valorização do trabalho criativo. “As pessoas não sabem bem o que é o publishing. Essas estruturas não estão muito bem desenvolvidas em Portugal”, aponta Tomás Martins quando compara o modelo nacional com outros mercados onde a área desempenha um mais papel central na sustentabilidade das carreiras. Ainda assim, mantém uma perspetiva otimista e sublinha que o processo de democratização acabou por deslocar parte do poder para quem cria.


Parte dessa fragilidade reflete-se diretamente no papel do manager. Em muitos casos, sobretudo nas fases iniciais das carreiras, a gestão artística implica uma acumulação de funções que vai muito além da definição estratégica. Pensar na distribuição, edição, comunicação, produção e administração torna-se uma exigência do contexto. “Quando comecei como manager do Slow J, percebi que ia ter de fazer muita coisa, ser quase um canivete suíço”, recorda. A acumulação resulta da ausência de escala para sustentar equipas especializadas, algo que só se torna viável quando os projetos crescem ao ponto de permitir dividir responsabilidades e rendimentos por áreas como marketing, booking ou publishing.


A lógica nacional, ainda muito focada nos concertos, acentua algumas dessas limitações. O espetáculo ao vivo continua a ser a principal fonte de rendimento, o que, muitas vezes implica redefinir prioridades e reforçar uma visão de curto prazo. A acumulação das funções de manager e booker é frequente, o que pode gerar tensões entre a construção de uma carreira sustentada e a necessidade imediata de garantir circulação. Para Martins, esta realidade ignora muitas vezes a dimensão humana do percurso artístico. “Este processo é muito complexo mentalmente. Se a música tem sucesso é complicado, se não tem sucesso também é complicado”, afirma, e defende que o papel do manager passa também “ajudar o artista a recentrar e a perceber que a carreira não se esgota neste single ou neste momento”.

“Hoje em dia tens de ter milhões e milhões [de streams] para fazer algum dinheiro com isso [música]”

Tomás Martins

A realização da conversa em Mem Martins inscreve-se num território com um peso determinante na criação e circulação da música urbana desde o início dos anos 90. Inserida fora do eixo central de Lisboa, esta geografia - composta por quase 70 mil habitantes e considerada a freguesia mais populosa do país - deu origem a alguns dos percursos mais consistentes da música urbana nacional, desde coletivos pioneiros como Da Blazz, formados no início da década de 1990, até projetos que viriam a ganhar projeção nacional.


É também neste contexto de criação, embora de outra localidade, que emerge a Força Suprema, coletivo que consolidou a ligação entre o rap e as vivências locais, com destaque para NGA, figura central do grupo e autoproclamado “rei da LS”. Mais recentemente, desse mesmo eixo e já oriundos de Mem Martins, surgiram artistas como Papillon, Julinho KSD, Landim, Bispo, Ivandro e Fumaxa, reforçando a ideia de território não apenas como um ponto de origem biográfica, mas parte de um ecossistema cultural mais vasto, onde a música se constrói em diálogo direto com a vivência urbana, as dinâmicas sociais locais e redes comunitárias ativas.


Nesse enquadramento, iniciativas como o Mês da Música ganham relevância ao criar espaços de reflexão a partir de um eixo que não só consome cultura, mas também a produz e projeta de forma continuada no panorama musical nacional.

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