Toty Sa’Med nos bastidores do álbum premiado de Luedji Luna

June 11, 2026

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lLuedji Luna foi a maior vencedora individual do 33.º Prémio BTG Pactual da Música Brasileira, na cerimónia realizada a 10 de junho, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, numa noite que homenageou Cazuza e juntou várias gerações da música brasileira no mesmo palco. A artista baiana venceu nas categorias Pop – Melhor Artista e Pop – Melhor Lançamento, esta última com Antes Que A Terra Acabe, álbum cuja ficha de produção reúne oito nomes: Fejuca, Kato Change, Zudizilla, Lucas Cirillo, Duda Raupp, Iuri Rio Branco, a própria Luedji Luna e o angolano Toty Sa'Med, cujo trabalho se reparte entre Luanda, Lisboa e o Brasil.


A presença de Toty Sa'Med neste disco não é um encontro casual e percebê-la implica recuar quase uma década, até ao ponto em que a sua música começou a atravessar o Atlântico e a cruzar-se com a cena brasileira que agora o premeia, ainda que por via indirecta. Em entrevista à Rimas e Batidas, o músico situou o início dessa relação em 2015, quando Aline Frazão o convidou para ir ao Brasil e ali conheceu Kalaf Epalanga, no festival Back2Black; seria Kalaf a coproduzir o seu EP de estreia, Ingombota, em 2016. A ligação consolidou-se depois em Lisboa, num concerto no CCB onde lhe foram apresentadas Sara Tavares e Ana Moura e onde conheceu Dino d'Santiago. "Foi aí que começou a minha relação com os artistas de cá [Portugal]", contou ao mesmo meio. Em 2019, no single "Maldita", que gravou com o brasileiro Domenico Lancellotti na bateria, deixou audíveis as influências que assume desde cedo, de Cartola a Djavan.


Toty Sa'Med, nome artístico de Erickson Medeiros, nasceu em Luanda em 1989 e vive entre a capital angolana e Lisboa. Cantor, compositor e multi-instrumentista, é hoje sobretudo um produtor requisitado: as suas guitarras passam pelos discos de Djeff e Djodje e por trabalhos da editora Klasszik. Na Kiôlo, a produtora de Kalaf Epalanga, ocupa um lugar central, com a sua marca a ouvir-se em quase tudo o que ali se faz. Compôs em coletivo para Dino d'Santiago, Kady e Irma, e assina, com José Eduardo Agualusa, a faixa-título de Moura, álbum de Ana Moura.


Em Antes Que A Terra Acabe surge creditado na produção de "Farol da Barra", onde, segundo as fichas técnicas divulgadas, assina também guitarra, teclados, vocais e programação.


Esse historial torna a sua entrada num disco baiano menos surpreendente do que poderia parecer, mas convém resistir à leitura fácil. Seria cómodo apresentar a colaboração como mais um capítulo de uma "ligação lusófona", não fosse o próprio Toty desconfiar do termo. Em entrevista à BANTUMEN, em 2022, recusou a palavra lusofonia, por carregar, defende, uma herança colonial, e preferiu o termo “lusografia”, seguindo o escritor Germano de Almeida, por ser a escrita o único denominador comum entre esses países. Recusou também o papel de ponte que lhe quiseram atribuir, descrevendo-se antes como alguém com "os skills que a circunstância pede". Sobre o seu lugar nessas misturas, resumiu à mesma publicação: "sinto-me um instrumento do tempo e da cultura".


A desconfiança do termo não apaga, porém, a densidade do que nomeia. Entre Angola e o Brasil há uma circulação musical que antecede em muito qualquer indústria de festivais ou de streaming. O semba e o samba partilham uma gramática rítmica comum, herança da matriz bantu que a escravatura transportou para o Atlântico, e a discussão académica sobre qual gerou qual interessa hoje menos do que o reconhecimento de que os dois géneros dialogaram entre si ao longo de mais de um século. Esse diálogo nunca teve um só sentido: o N'Gola Ritmos, conjunto fundado em Luanda nos anos 1940 e considerado precursor do semba moderno, nasceu de músicos que ouviam e tocavam a música brasileira antes de se voltarem para a sua própria tradição. A admiração foi recíproca e fez-se de viagens, discos e migrações em ambas as direções.


Essa história tem hoje um novo ponto de concentração e chama-se Lisboa. É na cidade onde Toty vive que se cruzam, no mesmo espaço físico, músicos de Angola, de Cabo Verde, da Guiné-Bissau, de São Tomé e do Brasil, e é a partir dela que produtoras como a Kiôlo e figuras como Dino d'Santiago têm reorganizado quem trabalha com quem. O percurso de Toty Sa'Med, de Luanda ao Rio passando por Lisboa, é um caso particular de um movimento mais largo, em que as trocas deixaram de depender de comemorações institucionais para se fazerem no trabalho concreto de estúdio.


Antes Que A Terra Acabe sucede a Um Mar Pra Cada Um e reúne, além dos produtores, nomes como Seu Jorge, Arthur Verocai, Alaíde Costa, Robert Glasper, Rapsody e Emillie Lapa. Num disco com esta densidade de colaborações, o contributo de Toty Sa'Med inscreve-se onde menos se procura: na textura de uma faixa, no arranjo e nas decisões de produção que lhe dão forma. É também aí, e não apenas nos encontros anunciados, que as músicas de Angola, do Brasil e de Portugal se vão encontrando.

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