“Tu vais mudar ou não?” é a pergunta que juntou Bispo e AD em “Mais Vida”

September 17, 2026

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Às portas do Estúdio Santa Catarina e poucos momentos antes de sentar-se à conversa com a BANTUMEN, ouvia-se Bispo dizer "mais um!" Era um novo galardão de platina, "mais um", passando a redundância, a juntar a tantos outros que o rapper de Algueirão-Mem Martins tem vindo a conquistar ao longo de mais de uma década de carreira. Ainda a fechar o ciclo de Entre Nós, álbum que, editado em abril de 2025 depois de cinco anos sem lançamento próprio, encerrou com três concertos esgotados nos Coliseus do Porto e de Lisboa, regressa agora às composições e lançamentos próprios, depois de um período marcado por colaborações com Nenny e Bárbara Tinoco, entre outros, e por ter juntado a voz a Sam the Kid, Sir Scratch, Gson e Papillon no tema "É Tuga ou Nada", que serviu de hino de apoio à Seleção Nacional durante o Mundial 2026.


"Mais Vida" chega às plataformas digitais hoje, dia 17 de setembro, e traz-nos um Bispo, como o próprio disse, "mais experiente, mais maduro, com mais vida, literalmente". A acompanhá-lo, AD, rapper e compositor guineense também conhecido como "AD 96 Member", que começa a espreitar um outro tipo de espaço na indústria depois de o seu single "Mundo Camuflado" ter passado a marca das 270 mil streams. No total, soma já 20 mil ouvintes mensais no Spotify. O trabalho, para já, passa por "crescer, aprender e continuar a cozinhar."


Tudo começou com Bispo a ouvir, por acaso, uma música de AD da qual não conseguiu desprender-se. Quis logo ouvir outra, gostou ainda mais, e foi isso que o levou a escrever-lhe depois de um concerto no Armazém 18, em Lisboa. "Bispo mandou mensagem. O Bispo...", resumiria AD, ainda a rir da própria reação. Para ele, contudo, a admiração não nasceu ali: já ouvia Bispo há algum tempo, e foi por isso que aquela mensagem em concreto, mais do que a descoberta de um nome desconhecido, o deixou tão impactado.

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Bispo e AD| DR

Foi já a trabalhar juntos, numa sessão marcada para a uma da tarde a que AD só chegaria às duas, que a canção começou a ganhar corpo sem que ninguém tivesse de decidi-lo. Sozinho nessa hora de folga inesperada, Bispo pôs-se a ouvir uma guitarra de Gemiinyy até esta o levar a um verso já fechado, o mesmo que empresta à música o seu refrão, "tu vais mudar ou não". Quando AD chegou, gostou da energia que encontrou e gravou a sua parte tão depressa que Bispo lhe chamaria, mais tarde, "ninja", sem tempo para pensar duas vezes numa palavra. Coube a Entre Nós, o mesmo engenheiro que gravou o álbum Entre Nós, apontar para a cabine e a juntar as duas vozes em estúdio para chegar ao resultado hoje apresentado ao público. Sobre o refrão, Bispo explica que não pensou só em quem fosse ouvir: reconhece que é também uma pergunta que já fez a si próprio inúmeras vezes, há coisas que sabe, mas que custa pôr em prática, e admite que a canção pode voltar a servir-lhe daqui a uns anos, caso precise de mudar outra vez.


Nessas duas partes escritas, quase ao mesmo tempo, caberiam depois família, fé, erros e tudo aquilo que ainda ficou por dizer ou por fazer. Bispo explica que a sua entrada no single nasceu a pensar numa pessoa em concreto, alguém que via tomar decisões que sabia não levarem a lado nenhum, e sublinha que a intenção nunca foi julgar, apenas deixar a canção disponível para essa pessoa ouvir sozinha, no carro, as vezes que precisasse, sem se sentir apontada. Do lado de AD, a ligação foi imediata e involuntária. Ouviu a parte de Bispo antes de perceber bem o alcance da própria letra e sentiu-se "conectado e em casa". Só mais tarde perceberia quanta coisa, desde essa gravação, já tinha mudado na sua vida.


Confrontado com o crioulo da Guiné-Bissau que leva à letra, um registo com que o ouvido português convive menos do que com o crioulo de Cabo Verde, AD descreve-o como um som que pode parecer "rijo" à primeira impressão, mas que também sabe ser suave quando é preciso. É uma experiência que compara à de ouvir música em inglês em que, mesmo sem perceber todas as palavras, a energia chega sempre primeiro. E é ela, não a tradução, que o liga à parte do colega. Do lado de Bispo, há o reconhecimento da leveza que se sente na música de AD quando este fala de assuntos pesados, um elogio que AD retribui, atribuindo essa leveza à influência de artistas como o próprio Bispo, com quem cresceu a aprender que, mesmo nos momentos mais difíceis, há sempre espaço para celebrar a vida.


Confrontado com os nomes distintos que atravessam o seu percurso, de Dino a Olavo Bilac, Landim ou Apollo, além de Nenny, Bispo responde recorrendo à própria formação. Cresceu com o ouvido treinado pelo hip-hop/rap e a conviver de perto com outras culturas, e foi isso, mais do que qualquer plano, que sempre o levou a querer misturar a sua música e a sua mensagem às de outras pessoas. Olha para o que faz como "um pedaço" de si, que ganha força sempre que se cruza com outra voz, seja numa canção de amor, seja a falar de algo errado na rua ou no país. Começou na música quase sempre acompanhado, raramente sozinho, e resume tudo à palavra energia, associando a falta dela, não a falta de talento, à ausência de pontes que, de outro modo, se fariam sozinhas. É a mesma lógica que o levou até AD antes de haver qualquer som gravado entre os dois e que remete para uma frase que alguém lhe disse aos treze anos e que nunca mais largou, "tu vais ser o futuro". Vinte anos depois, continua a ser essa frase, mais do que qualquer cálculo, que explica por que vale a pena ir atrás de quem ainda não foi visto. Já o tinha feito anteriormente com Ivandro. A colaboração com o rapper guineense reforça essa visão.


A tradução do encontro, agora materializado em som, coube a Lazuli, a quem Bispo enviou duas faixas do parceiro para que percebesse o mundo de onde vinha AD antes de tocar no que quer que fosse. Partindo apenas de uma guitarra, a preocupação do rapper de Algueirão era encaixar os dois universos sem apagar nenhum deles, de forma a que, quando a voz de AD entrasse, a sua parte "explodisse" e trouxesse uma mudança que fizesse a música crescer. Lazuli respeitou o pedido, e o resultado ouve-se logo a seguir ao refrão, quando a produção muda de registo "de uma forma bela", nas palavras de Bispo. É a esse espaço sem regras definidas à priori que o rapper chama "Mentalidade Free", nome que deu também à editora que fundou, lugar onde cabe tanto uma carta de amor como um verso sobre algo errado na própria rua e onde, defende, a introspecção de uma guitarra continua a caber dentro de um género tantas vezes reduzido à fama, ao dinheiro ou aos "manos". Canções antigas como "Aviola", "Lembrei-me" ou "Lembra-te" corroboram a tese e mostram, sobretudo, que esse lado mais recolhido nunca esteve, de facto, ausente do seu percurso.


Para o vídeo, gravado num único dia na Ericeira, nenhum dos dois quis ocupar o centro da imagem. Responsável pela direção criativa, Bispo escolheu contar a história através de um pescador e de um barco, símbolos que associa à solidão de quem enfrenta sozinho as próprias lutas, e entregou os papéis principais aos atores Sofia Cerveira e Marcantónio Del Carlo. O fio condutor da narrativa visual é o vício e a possibilidade de lhe escapar, acompanhado por uma mulher que espera sem desistir, mas que só sorri e abraça o protagonista quando este finalmente o larga. A ideia de incluir a pesca, que Bispo liga ao sermão aos peixes, foi mudando ao longo do processo, mas serviu sempre o mesmo propósito, o de chegar a mais gente sem transformar a canção na vida de outra pessoa, mantendo os dois artistas apenas como narradores. Compara o resultado aos vídeos que fez para duas das canções mais confessionais de Entre Nós. Admite hoje que ambas mereciam ter tido mais atenção para que a mensagem chegasse ao destino. Foi em parte esse arrependimento que o levou a querer, desta vez, algo maior e mais forte. A rodagem, com início às cinco da manhã, apanhou chuva, sol, frio e calor no mesmo dia, "todas as estações", e foi resultado de um briefing que Bispo classifica como particularmente bom. Chama-lhe a experiência mais diferente de todas as que já teve ao filmar um vídeo, e leva consigo, sobretudo, a capacidade técnica de Marcantónio Del Carlo, um dos momentos que classifica como mais enriquecedores de todo o processo.


A dias do lançamento, data em que ocorreu a entrevista, a expectativa pairava num misto de convicção e distância, cientes do que gostariam para o tema, ainda que o resto, dizem, só Deus saiba. "Ninguém recusa bons conselhos", acredita Bispo, que garante já ter ouvido o tema umas quantas vezes. AD insiste que esta não é uma canção para se levar de ânimo leve: "só estamos a falar a sério", sublinha. Bispo concorda que, independentemente de como a música circule lá fora, os dois já alcançaram algo extraordinário só por se terem encontrado um ao outro. Mais do que qualquer número de streams, o que Bispo deseja é que a pessoa que o levou a escrever a canção a ouça sempre que precisar, até mudar.


"E se a vida fossem mesmo só dois dias", o que mudariam e o que fariam de novo? Bispo prefere guardar para si o que mudaria, admitindo apenas que, mesmo depois de escrever esta canção, ainda não conseguiu mudá-las. AD não hesita. Diz que deixaria tudo de lado para estar ao pé da mãe, da família, do filho e da mulher. É, de resto, o que os dois pedem com esta canção: "mais vida", mesmo que só um bocado.


O single está disponível em todas as plataformas digitais.

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