Filmado com um iPhone na Guiné-Bissau, “Piroceno” leva Welket Bungué ao FICAA 2026

August 18, 2026
Welket Bungué ao FICAA 2026 filme iPhone Guiné-Bissau
Stil do filme "Piroceno"

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Um iPhone 13, uma viagem à Guiné-Bissau e uma pergunta sobre aquilo que poderá restar da humanidade dentro de 100 anos. É desta combinação que nasce Piroceno, a nova curta-metragem de Welket Bungué, selecionada para o Festival Internacional de Cine Africano en Argentina, FICAA 2026.


Produzido pela KUSSA Productions, o filme integra a sessão de curtas marcada para 30 de agosto, às 16h, na Sala Lúcida, em Buenos Aires. Na programação oficial, o festival apresenta Piroceno como uma ficção experimental imersiva de Portugal e da Guiné-Bissau, situada no ano de 2126 e construída em torno de um planeta afetado pelo colapso ecológico.


A seleção representa também um regresso de Bungué a um festival com o qual já mantém uma relação. Em 2021, Mudança, realizado por Welket, venceu a competição de curtas do FICAA. O júri escolheu a obra por unanimidade, destacando então a dimensão filosófica e política do filme e a forma como abordava mecanismos de opressão.


Cinco anos depois, Piroceno desloca a discussão para uma crise de outra escala.


O título recupera o conceito de Pyrocene, desenvolvido pelo historiador ambiental norte-americano Stephen J. Pyne para pensar a atual relação da humanidade com o fogo. Pyne propõe olhar para o presente como uma “Era do Fogo”, comparável, na capacidade de transformar o planeta, às eras glaciais, mas marcada pela utilização humana do fogo e, sobretudo, pela combustão em escala industrial. Não se trata de uma era geológica formalmente estabelecida, mas de uma estrutura conceptual para pensar a transformação ambiental contemporânea.


Welket transporta a ideia para uma ficção passada em 2126. O futuro imaginado no filme já sofre as consequências extremas dessa transformação ecológica. Perante o desastre, a possibilidade de sobrevivência não aparece associada a uma nova tecnologia, mas ao reencontro com conhecimentos, rituais e formas de relação com a natureza provenientes da Guiné-Bissau.


É aqui que o filme se afasta de uma abordagem convencional sobre alterações climáticas.


Segundo o realizador, as imagens foram captadas em 2025 durante uma viagem à Guiné-Bissau, utilizando apenas um iPhone 13. A curta reúne planos feitos em Bubaque, no arquipélago dos Bijagós, no bairro de Bandim, em Bissau, e durante a ligação aérea entre Lisboa e a capital guineense.


Entre essas imagens está uma roda de mulheres ligada à tradição das mandjuandadi, uma prática cultural guineense estudada, entre outros investigadores, por Odete Costa Semedo. As mandjuandadi têm historicamente uma forte presença feminina e funcionam como espaços de música, oralidade, sociabilidade e comentário sobre a vida comunitária.


No filme surge também a tina, instrumento de percussão tradicional constituído por uma cabaça colocada sobre água. Mais do que elemento musical, torna-se parte da resposta simbólica à catástrofe imaginada por Bungué: perante um futuro dominado pelo fogo, o filme regressa à água, à comunidade e à memória.


A ancestralidade aparece ainda através da evocação de Okinka Pampa, figura histórica associada aos Bijagós e à resistência à presença colonial portuguesa no arquipélago. No universo de Piroceno, estas referências não são usadas apenas como documentação etnográfica. Fazem parte de uma especulação sobre aquilo que o conhecimento ancestral pode dizer a uma humanidade tecnologicamente avançada, mas incapaz de impedir a degradação do planeta.


Essa abordagem mantém uma linha reconhecível no cinema de Welket Bungué.


A BANTUMEN tem acompanhado essa trajetória. Em 2021, “Cacheu Cuntum” já colocava passado, escravatura, juventude e futuro da Guiné-Bissau dentro do mesmo campo cinematográfico. Mais recentemente, “Contemplação Impasse Tentativa” voltou a utilizar o país como espaço de reflexão política e de autorrepresentação.


O próprio percurso recente de Welket tem oscilado entre grandes produções internacionais e um cinema realizado de forma mais autónoma. Depois do reconhecimento internacional conseguido com “Berlin Alexanderplatz”, o ator e realizador continuou a desenvolver curtas através da KUSSA, enquanto participa em produções europeias e brasileiras. Em 2025, Prima ku Lebsi venceu o Grande Prémio de curtas do Afrobrix Film Festival.


Piroceno acrescenta outra camada a esse percurso: a defesa do telemóvel enquanto ferramenta cinematográfica.


Para Bungué, esta escolha tem também uma dimensão política. O realizador tem defendido a formação de jovens dos PALOP na utilização dos dispositivos móveis não apenas para conteúdos rápidos destinados às redes sociais, mas para ficção, documentário, jornalismo e denúncia social.


Num contexto em que vários países africanos de língua portuguesa continuam sem estruturas industriais de cinema comparáveis às dos grandes mercados audiovisuais, a proposta desloca a discussão da falta de equipamento para a possibilidade de controlar a própria narrativa.


O FICAA parece um território particularmente adequado para essa discussão. A edição de 2026 reúne mais de 30 filmes provenientes de 25 países e assume como lema “Desde as raízes, imaginar outros futuros”, colocando memória, território, migração, identidades e justiça ambiental entre os temas centrais da programação.

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