Como chegar aos festivais internacionais. A Why Portugal explica o caminho

October 6, 2026
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Fidju Kitxora no festival Les Trans Musicales de Rennes

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Para quem faz música em Portugal e procura oportunidades no estrangeiro, conseguir um lugar num festival internacional pode implicar pagar para trabalhar. Muitos dos eventos onde se encontram agentes, editoras e programadores oferecem apenas uma ajuda de custos aos músicos convidados. A viagem, o alojamento e a alimentação podem exigir financiamento adicional. O concerto dura entre 30 e 45 minutos e decorre enquanto outros artistas atuam noutras salas. Perante estas condições, uma banda e a sua equipa têm de decidir onde investir, quem querem encontrar e o que estão em condições de fazer com o interesse que conseguirem despertar.


Guilherme Dourado, coordenador internacional da Why Portugal, acompanha esse processo e reconhece que o acesso depende também da capacidade de suportar a participação. "Sem os apoios existentes, muitos projetos provavelmente não conseguiriam participar ou teriam de suportar esse investimento do próprio bolso", diz à BANTUMEN. Dez anos depois da criação do gabinete de exportação da música portuguesa, o responsável aponta a falta de financiamento para managers e agentes como uma das dificuldades de um sector que precisa dessas equipas para preparar as deslocações, negociar novas datas e manter relações com profissionais de outros países.


A Why Portugal foi criada em 2016 pela AMAEI, a Associação de Músicos, Artistas e Editoras Independentes, para organizar a ligação entre o sector português e os mercados internacionais. "Sentia-se que havia muitos artistas e profissionais portugueses com vontade e capacidade para trabalhar lá fora, mas faltava uma estrutura que ajudasse a fazer essa ligação de uma forma mais organizada", recorda Guilherme. Portugal preparava-se então para ser o país em destaque no Eurosonic Noorderslag de 2017, em Groningen, nos Países Baixos. A perspetiva de levar cerca de uma dúzia de projetos ao encontro europeu precipitou a criação de um gabinete de exportação que pudesse acompanhar aquela participação e continuar a trabalhar depois dela. Desde então, a associação prepara deslocações com artistas e representantes, desenvolve relações com festivais e recebe profissionais estrangeiros em Portugal, pondo-os em contacto com músicos e estruturas que poderão vir a contratar ou representar.

"Sem os apoios existentes, muitos projetos provavelmente não conseguiriam participar ou teriam de suportar esse investimento do próprio bolso"

Guilherme Dourado

Para o Eurosonic de 2024, a Why Portugal reuniu os participantes portugueses para trabalharem a utilização da base de dados profissional do evento e definirem prioridades. Manteve também uma reunião com a equipa de programação sobre o percurso internacional dos artistas e a preparação das suas equipas. Ao identificarem com antecedência os profissionais presentes e os contactos que interessam a cada projeto, os participantes conseguem preparar os encontros antes de chegarem ao festival.


Habitualmente, uma candidatura aberta recebe propostas dos artistas ou dos seus representantes e são os programadores que escolhem os projetos. "Primeiro tem de existir uma seleção por parte do festival e, a partir daí, vemos de que forma podemos ajudar", esclarece o coordenador. A Why Portugal pode então preparar a participação e acompanhar a equipa no terreno, apresentando-a a profissionais com interesse para o seu percurso. A identidade da programação, o país onde o evento acontece e o momento do projeto condicionam as hipóteses de seleção e aquilo que pode resultar da viagem. Guilherme refere a edição de um disco, o início de uma digressão ou a existência de um agente no território de destino como fatores que podem pesar. Um representante local já tem relações naquele mercado, e uma equipa de gestão pode responder às propostas e manter o contacto quando o evento terminar. "Ter um manager ou um agente por trás do projeto é importante, porque mostra que existe uma estrutura capaz de dar continuidade ao trabalho depois do showcase", sublinha.


O conselho aos artistas é planear a dois ou três anos, escolhendo os territórios onde querem encontrar um agente ou uma editora e construir uma presença regular. "Não vale a pena candidatar-se a todos os showcases só porque sim. Primeiro é importante perceber quais são os mercados que fazem sentido para o projeto e, depois, escolher os festivais onde realmente pode haver uma oportunidade", defende. Pela proximidade geográfica e cultural, Espanha surge entre os primeiros destinos que aponta. França, Alemanha, Países Baixos e Reino Unido também fazem parte do trabalho da associação, através de encontros como o Eurosonic, o Reeperbahn e o The Great Escape. Concentrar as participações em determinados territórios permite voltar a encontrar os profissionais com quem já se começou uma conversa e procurar parceiros que acompanhem o projeto localmente.


No Focus Wales, no País de Gales, a Why Portugal investiu em atuações e numa receção para pôr profissionais em contacto em 2023. No ano seguinte, Travo e Unsafe Space Garden foram selecionados para o festival, e o relatório de atividades de 2024 da Fundação GDA associa esses convites à missão do ano anterior.


Durante o showcase, os músicos apresentam o projeto num concerto curto, perante um público maioritariamente profissional que pode circular entre várias atuações. Para eles, Guilherme reserva uma tarefa precisa: "É tocar e tentar agarrar o público durante o pouco tempo que tem." À equipa cabe preparar os encontros e acompanhar as conversas. "Principalmente no contexto dos showcases, quem deve fazer os contactos e as reuniões são os agentes e os managers", explica, antes de acrescentar: "Toda a preparação que não implica estar em cima de um palco não deve ser responsabilidade dos músicos."

"Toda a preparação que não implica estar em cima de um palco não deve ser responsabilidade dos músicos"

Guilherme Dourado

Além das despesas dos músicos, a deslocação exige viagens e estadias para quem os representa, sem que a participação traga necessariamente a receita de um concerto contratado nos termos habituais. A própria Why Portugal depende de apoios públicos e de entidades do sector para garantir a sua presença nos mercados, entre elas a Audiogest, ligada aos produtores fonográficos, e a Fundação GDA, ligada aos direitos dos artistas intérpretes e executantes. Os músicos convidados podem recorrer ao programa de Showcases Internacionais da Fundação GDA, que em 2026 tem uma dotação prevista de 130 mil euros, com comparticipações entre 500 e 5 mil euros por projeto, calculadas em função do número de artistas em palco e da localização do festival. A candidatura exige um convite, um orçamento e a identificação dos objetivos da deslocação, e tem de ser apresentada com pelo menos 30 dias de antecedência. O programa comparticipa despesas dos músicos, incluindo deslocação, estadia e alimentação.


"Deslocações, alojamento, alimentação ou outros custos de produção podem continuar a ser suportados pelo artista ou pela sua equipa", ressalva o coordenador. É frequente procurar outras datas à volta do showcase, montando uma pequena digressão que distribua os custos da viagem por vários concertos. A equipa procura salas e promotores e o artista ganha a possibilidade de se apresentar a outros públicos, prolongando a passagem por um mercado onde já decidiu investir.


Noiserv, Ana de Lor, Ana Lua Caiano e MÁQUINA estão entre os projetos referidos na entrevista como participantes neste circuito de apoio. Quando lhe perguntámos o que tinham em comum e o que mudou depois, Guilherme distingue os percursos: "Às vezes já existe uma estratégia pensada, outras vezes aparece uma proposta ou uma oportunidade que faz com que um mercado que nunca tinha sido muito equacionado passe a fazer sentido." As novas datas podem trazer público e contactos, mas também mais trabalho e responsabilidades para as equipas.


Ao longo de uma década, a Why Portugal contabiliza presença em mais de 60 festivais profissionais e cerca de 150 showcases. Questionado sobre resultados, o coordenador refere convites para sessões da rádio norte-americana KEXP, digressões na Coreia do Sul, aproximações a agências internacionais e novas participações em festivais, mas reconhece que é difícil isolar o efeito de uma atuação. "É difícil medir tudo e dizer que determinada tour aconteceu exclusivamente por causa de um showcase, porque há sempre muito trabalho a acontecer antes e depois", afirma. Nalguns casos passam meses entre conhecer um programador ou uma agência e concretizar uma digressão. Noutros, acrescenta, "é uma sessão ou uma reunião que abre uma porta que o artista nem sequer estava a explorar naquele momento".


O relatório de 2024 da Fundação GDA regista a participação de Ana Lua Caiano no Eurosonic, no MENT, na Eslovénia, e no Reeperbahn, na Alemanha, no âmbito da Why Portugal. Inclui também Throes + The Shine no Zandari Festa, na Coreia do Sul, e Bicho Carpinteiro, Sopa de Pedra, Sús e Tó Trips no Mercat de Música Viva de Vic, em Espanha. Neste último, a presença portuguesa juntou quatro projetos em palco e uma delegação de 23 profissionais.


Guilherme admite interesse em explorar mais o Brasil, mas quando lhe perguntámos o que gostaria de ver mudar nos próximos anos, é nas condições para sustentar o trabalho internacional que se demora. "Neste momento há muito pouco apoio para managers e agentes acompanharem este trabalho, e o financiamento para showcases também é bastante limitado", diz. Os representantes que os festivais podem valorizar na seleção precisam de recursos para viajar, participar nos encontros e acompanhar as negociações de uma edição para a seguinte. Sem financiamento para essas funções, parte do investimento continua a depender da capacidade financeira do artista e da sua estrutura. "Muitas vezes não basta pagar a viagem de uma banda: é preciso estar presente, fazer contactos, preparar o mercado, fazer follow-up e continuar o trabalho depois", conclui.

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