Yuran Tinta e Nicoly França chegam ao MIA para falar de dinheiro, influência e responsabilidade

November 5, 2026
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Yuran Tinta e Nicoly França | DR

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“Somos criadores de conteúdo e empreendedores, as duas coisas andam juntas”, responde Yuran Tinta quando lhe perguntamos como se apresenta hoje. A resposta no plural inclui Nicoly França, com quem fundou a Yuni Cria, a empresa através da qual o casal produz conteúdo para marcas e dá workshops, palestras e formações a outros criadores. Nas redes sociais, partilham também parte do quotidiano da Família Angozuca, que formam com o filho, Lui. Antes de chegarem aqui, fizeram percursos diferentes que passaram pelo mesmo sítio, as agências de publicidade, onde trabalharam como redatores e gestores de redes sociais.


É essa experiência que trazem a Lisboa para abrir a 5.ª edição do MIA, o Mês da Identidade Africana. Organizado pela BANTUMEN, o MIA celebra as múltiplas expressões da identidade africana e afro-lusófona. Começou como um projeto editorial digital, passou a evento físico em 2023 e chega à 5.ª edição no ano em que a BANTUMEN faz 11 anos, com um programa gratuito que decorre de 11 a 21 de novembro. A sessão inaugural, “Conteúdo não é brincadeira”, parte de uma ideia simples: criar conteúdo parece um gesto leve, mas tem o peso de uma voz pública. A conversa vai tratar do que se faz com a atenção dos outros e do caminho entre publicar por gosto e fazer disso uma profissão.


Yuran chegou ao Brasil aos 16 anos com a mãe, que escolhera o país para fazer uma especialização em cardiologia. Ela viveu lá dois anos e deixou-o a terminar a faculdade, com o regresso a Angola no horizonte. “No início era pra voltar e morar em Angola, mas a vida foi me levando pra outro destino”, conta. Gostava de Relações Internacionais, o curso que escolheu, mas, já perto do fim, percebeu como seria difícil arranjar emprego num mercado que descreve como “morno”, numa altura em que o digital dava os primeiros passos no Brasil. Numas férias, a mãe visitou-o e ofereceu-lhe 100 dólares para gastar no que quisesse. Yuran trocou o dinheiro por reais e pagou um curso de três semanas sobre redes sociais no Senac, o Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial, que, diz, o ajudou muito. A partir daí, começou a ligar-se a profissionais da publicidade através do LinkedIn.


Pelo caminho, conciliou vários trabalhos. Em 2017, ainda estudante, era empregado de mesa e modelo ocasional, gravava vídeos e estagiava numa organização não governamental da área das relações internacionais. Depois de terminar a licenciatura e de fazer formação em publicidade, entrou em 2021 na Mynd, a primeira agência onde trabalhou. Durante o dia atendia os clientes como social media e, em casa, gravava vídeos para os próprios canais. A agência, fundada por Fátima Pissarra, Preta Gil e Carlos Scappini, trabalhava com muitos influenciadores saídos do Big Brother Brasil, e Yuran via de perto como funcionavam essas carreiras. “Eu observava aquilo e me dava um gás pra um dia viver do que eu via lá dentro. E foi isso que aconteceu”, recorda.

“Estamos em um mercado em que a autenticidade é algo raro, então quem tem, vai vender”

Yuran Tinta

Da agência trouxe uma disciplina que aplica a tudo o que faz, “desde a parte do prazo, briefing, roteiro, a agenda de modo geral”, e uma forma de se ver a si próprio. “Ter trabalhado em agência de publicidade me ensinou a ter responsabilidade e consciência que a criação de conteúdo é um trabalho e eu sou uma empresa”, afirma. Percebeu cedo que precisava de ser consistente, de se posicionar como empresa, de organizar a forma como conta as suas histórias e de construir uma comunidade sólida, num mercado em que, defende, as marcas “pagam pela estrutura, pela narrativa e pelo posicionamento” e os números ficam em segundo plano. “Estamos em um mercado em que a autenticidade é algo raro, então quem tem, vai vender”, resume.


Nicoly passou pelas mesmas funções, de redatora e social media, mas chegou a elas pelo jornalismo. Licenciou-se em 2014, fez uma pós-graduação em Marketing e trabalhou em assessoria de imprensa e produção de televisão antes das agências. Quatro anos antes de acabar o curso, já mantinha um blogue de humor e curiosidades, “Mas não me diga”, com página no Facebook. “Já fui uma blogueira de verdade, com um blog”, conta. Mais tarde abriu um canal no YouTube sobre moda consciente, como contou em 2025 ao portal brasileiro aRede, e foi alargando os temas à vida em São Paulo e ao estilo de vida. Reconhece que a formação a ajudou, mas atribui o caminho que fez às experiências em agência, à vontade de criar e à consistência com que nunca deixou de produzir. Tal como Yuran, vê em cada publicação o resultado de “um roteiro, uma ideia elaborada, uma estratégia” e de uma mensagem que chega a alguém.


Os primeiros trabalhos pagos como criadora mostraram-lhe que aquilo podia ser uma profissão, mas durante anos não conseguiu viver só disso e manteve outro emprego. Conheceu Yuran em contexto de trabalho e, depois de alguns anos juntos, ambos a produzir conteúdo, decidiram concentrar a produção numa empresa em que fossem sócios. Com a maternidade, a acumulação de trabalho tornou-se pesada e Nicoly teve de escolher. “Se quisesse trabalhar de verdade com conteúdo, precisava sair do meu outro emprego, então isso que eu fiz”, explica, e considera essa decisão o maior desafio do seu percurso. O filho chama-se Lui, que em umbundu, a língua materna de Yuran, falada no sul de Angola, quer dizer “rio”. Os três são a Família Angozuca, um nome que junta “ango”, de angolano, a “zuca”, como são chamados os brasileiros fora do Brasil, e que escolheram por soar “leve e tranquilo”. Depois do nascimento de Lui, trocaram São Paulo por Ponta Grossa, no Paraná, a cidade natal de Nicoly, à procura de um ritmo de vida mais calmo e da proximidade da família.


“Funciona como uma empresa mesmo”, diz Nicoly sobre a Yuni Cria. O casal trabalha com parceiros na área comercial, na edição e na captação de vídeo, tem um contabilista e uma advogada e reúne-se todas as semanas para organizar o trabalho. Os guiões ficam com quem estiver menos atarefado nessa semana e as ideias surgem dos dois. A quem quer seguir o mesmo caminho, Yuran aconselha separar as contas pessoais das da empresa, o que no Brasil significa distinguir o Cadastro de Pessoas Físicas (CPF) do Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ). “O dinheiro que você ganha com publicidade não é seu, é da empresa. Separar isso vai fazer a empresa ir longe”, garante. Em casa, as tarefas e os cuidados com Lui também se repartem, “para que não fique pesado para nenhum dos dois”, e Yuran guarda o trabalho para as horas em que o filho está na escola, de modo a estar com ele quando volta. “Não é tão simples, até porque somos empreendedores e donos dos nossos negócios, mas o tempo pra família é família, são momentos que não voltam”, diz. Nicoly calcula que chegue às redes “apenas 1%” do que vivem em família, e há experiências e detalhes que ficam “no off”. Em 2025, ao aRede, explicava que incluem Lui na rotina com limites, para que seja ele a decidir, no futuro, se quer continuar nesse universo.


A quem está a começar, os dois dão conselhos que se completam. Yuran sugere falar de temas de que se gosta, definir uma agenda semanal de gravação e cumpri-la, sem comparações e com a certeza de que muitos vídeos vão falhar. “De 10 vídeos que fores gravar, 7 vão flopar, e está tudo bem, porque nas redes sociais é melhor gravar e flopar do que não gravar nada”, afirma. Nicoly recomenda começar com as ferramentas que se tem, estudar o mercado do marketing de influência e da economia dos criadores e manter a consistência. “Nunca ter parado de produzir conteúdo foi uma das coisas que me trouxe aqui”, sublinha.


Nos últimos anos, as casas de apostas online tornaram-se anunciantes frequentes junto dos influenciadores brasileiros e, em 2025, a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) das Bets, no Senado, chamou vários criadores de conteúdo a explicar os contratos com estas plataformas. O relatório final, que pedia mais restrições à publicidade do setor e a responsabilização de quem a faz, acabou rejeitado pela comissão. Yuran, para quem trabalhar “com marcas e com pessoas que eu só assistia na TV em Angola” é “um sonho que hoje é realidade”, só aceita marcas que acreditem na sua narrativa e façam sentido para a comunidade que o segue, e exclui as plataformas de jogo. “Não é algo que acredito, então não aceito fechar esses tipos de trabalho”, explica. Nicoly segue um critério próximo. Trabalha com marcas que usaria mesmo fora de um contexto publicitário, recusa produtos ou serviços “que possam prejudicar as pessoas de alguma forma”, dando as casas de apostas como exemplo, e afasta propostas que não valorizem o trabalho do casal. As colaborações com a Meta, a Netflix, a Nestlé, o Nubank, a Amazon e O Boticário estão entre as conquistas de que mais se orgulha.


Quando pensa no que o Brasil lhe ensinou, Yuran fala em criar conteúdo com responsabilidade, sem desinformação, discurso de ódio ou humor duvidoso “só pra ganhar likes e não mudar pensamento de ninguém”. Para Nicoly, ter responsabilidade é saber que o conteúdo tem impacto, positivo ou negativo, e que o público pode ser afetado por ele. Yuran leva a questão para o futuro da profissão. “Quando criadores de conteúdo deixarem de encarar o nosso trabalho como uma atividade apenas pra busca de atenção momentânea, o jogo muda”, defende. Nessa altura, diz, cada um terá de escolher entre “o ego dos likes e números” e um legado feito de entregas cumpridas, narrativas mais humanizadas e, com o tempo, marca própria e ativos que não dependam só da publicidade de terceiros.


Nicoly lembra que o Brasil lidera o número de criadores de conteúdo no mundo, e os dados apontam nesse sentido. Um estudo da Nielsen divulgado em 2022 colocava o país em primeiro lugar no Instagram, com 10,5 milhões de perfis de influenciadores acima dos mil seguidores. Ela explica a força do conteúdo brasileiro pela diversidade do país, onde há mercado para muitos nichos. Yuran encontra a explicação na história. “O Brasil tem uma história muito parecida com outros países de língua portuguesa do continente africano, e as coisas por aqui também demoraram pra chegar”, diz. Para ele, o crescimento recente resulta de os brasileiros terem aproveitado a internet e se terem posto na conversa cultural, e de as marcas locais terem percebido que havia ali uma comunidade que participa e “vários Brasis dentro do Brasil”.

“Nunca ter parado de produzir conteúdo foi uma das coisas que me trouxe aqui”

Nicoly França

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Yuran Tinta | DR

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Nicoly França | DR

Em setembro, no YPX Summit, o encontro da YOUPIX sobre a economia dos criadores, em São Paulo, Yuran participou num painel intitulado “O algoritmo tem passaporte?”, pergunta a que responde pela negativa. “As pessoas não se conectam ao seu mapa, elas se conectam à sua narrativa”, afirma. Na sua experiência, a receção do público brasileiro a criadores estrangeiros é quase sempre calorosa, e há espaço para angolanos e outros lusófonos, desde que acompanhem o mercado de perto, porque “aqui tudo muda muito rápido, e alguém novo aparece todos os dias”. O bloqueio mais comum aparece depois de o vídeo correr bem. “Hoje todo mundo quer viralizar no mercado brasileiro, mas e quando você viralizar, quais são os próximos passos? O algoritmo te dá espaço, mas as pessoas travam no passo da monetização”, aponta.


Os restantes países lusófonos, defende Yuran, precisam de “acreditar no que têm e investir nisso, culturalmente falando”. Nicoly vê na língua uma porta para o público brasileiro e sugere explorar as diferenças e semelhanças entre países, porque “o público ama isso, e as marcas também”, e mostrar o que cada um tem de único e o resto do mundo ainda não conhece. Yuran tem levado esse conhecimento para Angola. Esteve no Luanda Creative Summit e tem dado workshops e palestras no país, onde percebeu o quanto os jovens se impressionam com o que conta do mercado brasileiro. “Mas infelizmente sozinho consigo levar ainda muito pouco”, lamenta. A ponte entre os países de língua portuguesa, acredita, constrói-se com projetos de conexão cultural e com narrativas descentralizadas, que permitam trocas em várias direções. “Existem pessoas muito curiosas sobre nós, mas não existem facilitadores pra isso”, diz.


O casal prepara agora uma formação para empreendedores que querem tornar-se influenciadores do próprio negócio, tem viagens planeadas para o canal de YouTube da família e lançou o e-book Viver de Criar, para quem quer fazer da criação de conteúdo uma profissão. Em Lisboa, Nicoly quer partilhar o que viveu e casos concretos que deram resultado, e espera que o público saia motivado a criar e convencido de que é possível trabalhar nesta área de forma séria e saudável, num mercado que, diz, tem ainda muito por explorar e onde “vale a pena investir energia”.


Nos dias seguintes, o programa do MIA continua na redação no Bairro dos Alfinetes. A 13 de novembro inaugura Ba Da Bu Mind Bentu, uma exposição que reúne quinze anos de fotografia de música de Janeth Tavares, com curadoria de Ivanova Araújo. A 14, a terapeuta capilar Súh Varela, fundadora da Criola More Than Beauty, ensina crianças a partir dos 8 anos a cuidar do próprio cabelo no workshop “Do meu cabelo, cuido eu”, e ao fim da tarde é exibida “Lisboa Africana”, a série em videocast da BANTUMEN, seguida de uma conversa moderada por Marisa Mendes Rodrigues. A 20, o documentário Batida de Lisboa, de Rita Maia e Vasco Viana, sobre a música afro-portuguesa dos arredores da capital, é exibido com uma conversa entre a realizadora e Janeth Tavares. O último dia, 21, começa com Wilds Gomes a ler às crianças o seu livro A Girafa do Noah e termina com a Block Party que a BANTUMEN e a Kriativu organizam no Bairro do Armador, das 15h às 23h, com Wilds Gomes em B2B com Carlos Pereira, Fvbrícia, Will100Smith e Único Nuni.


“Conteúdo não é brincadeira”, com Yuran Tinta e Nicoly França, decorre na quarta-feira, 11 de novembro, às 19h, na na Rua António Gedeão, 8 R/C Direito (Loja Bloco B3), no âmbito do Mês da Identidade Africana. As inscrições podem ser feitas aqui.

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