Como é sabido, a Europa colonizou quase o mundo inteiro durante uma época dourada, de cinco séculos dos seus “descobrimentos”. África foi, sem qualquer dúvida, o continente mais lesado por essa ação, tendo sido explorada e dada como algo que pertencia aos europeus, desde o século XIV e que se intensificou no final do século XIX.

Mas o domínio de África não foi total: dois países, Etiópia e Libéria, conseguiram demarcar-se da colonização. Um deles conseguiu expulsar os colonos e o outro tinha acabado de ser formado por ex-escravos levados para os Estados Unidos da América.

A Etiópia foi por inúmeras vezes alvo do neocolonialismo, todas elas falhadas. Em 1880, a Itália era um dos países mais subdesenvolvidos da Europa ocidental, muito agrário, pobre e recém-unificado. Nessa mesma altura, devido à mendicância de uma grande parte da população do país, mais de 25 milhões de italianos migraram para vários outros países, em busca de melhores condições de vida.

Numa situação quase sem retorno, a Itália tentou desenrascar uma colónia em África, seguindo os passos dos vizinhos Portugal, Bélgica, França, Holanda, entre outros. A porta de entrada foi a Eritreia. O país que viu Leonardo Da Vinci nascer queria mais, a Etiópia. Um dos países mais antigos do mundo, governado por Menelik II, que se dizia descender do rei Salomão e da rainha de Sabá. Menelik fez um acordo de amizade com os italianos: cedia totalmente a região da Eritreia, em troca de reconhecimento e do fornecimento de armas.

De acordo com a versão em amárico (língua da Etiópia) desse acordo, os etíopes podiam usufruir dos serviços diplomáticos da Itália, já a versão em italiano obrigava que a Etiópia dependesse apenas da Itália, o que tornava o país submisso, pouco diferente de uma colónia.

Tendo em conta o [mau] acordo do país italiano, Menelik recusou o tratado, pois este não tinha valor. O que levou Itália a declarar guerra ao país de forma a conseguir o seu objetivo sob qualquer pretexto. 18 mil soldados italianos partiram assim para a batalha.

Mas para surpresa dos soldados, mais de 100 mil etíopes, 80% com armas modernas, aguardavam a chegada dos italianos. Tornando-se num dos ataques a África mais fracassados da história: pelo menos sete mil italianos morreram no confronto, 1.500 foram feridos e três mil capturados. A guerra terminou mesmo antes de ter começado.

A história da Libéria é também curiosa. Foi fundada em 1824 com o intuito de albergar escravos libertos dos EUA, em 1824, com o propósito de levar escravos libertos e negros nascidos livres de volta para África – a American Society for Colonizing the Free People of Color of the United States – em tradução livre, Sociedade Americana de Colonização dos Negros Livres dos Estados Unidos – e com a sigla ACS.

A organização americana foi fundada para se dedicar ao transporte de negros nascidos livres e escravos emancipados para a África. O núcleo da organização era maioritariamente branca – com alguns clérigos e abolicionistas, mas também um grande número de proprietários de escravos – e todos concordavam com a facto de que os negros livres não poderiam ser integrados na América branca.

Os americanos não queriam que os seus escravos fizessem parte da sua sociedade, e a única solução encontrada para que isso não acontecesse, era levar a população negra de volta para o seu continente. O objetivo da ACS era única e exclusivamente impedir o aumento da criminalidade ou os casamentos inter-raciais, sugestão bastante apoiada pelos americanos, que financiaram a organização através da arrecadação de fundos em vários estados e do próprio presidente James Monroe.

Os primeiros migrantes começaram a chegar à Libéria em 1821, depois do seu território já ter sido definido. Em 1822, foi criada a capital, Monróvia (nomeada em homenagem ao presidente Monroe). Mas só em 1824 foi oficialmente fundada sob o nome Libéria, com o significado “país da liberdade”, que na verdade só se tornou livre em 1847, devido à proximidade com o país americano, o que acabou por deixar de fora os colonizadores europeus.