Ele conta estórias de amor para meninos de cor, é O Angolano Que Comprou Lisboa (por metade do preço) e diz que os Brancos Também Sabem Dançar. Kalaf Epalanga não é só angolano, é benguelense (da província de Benguela, em Angola), é português, é do povo. É também da fábrica de açúcar do Cassequel ao Caminho de Ferro de Benguela, da Restinga do Lobito à rua Jacob de Paiva, onde aprendeu a equilibrar-se numa bicicleta, e com essa firmeza partiu rumo ao descobrimento do mundo.

Memórias de criança na banda guardadas na muxima (coração) de um artista que escreve e canta o que pensa. Fomos atrás dessas lembranças numa entrevista em plena baixa lisboeta, que acabou por se tornar numa conversa sobre ser angolano em Angola e em Portugal.

No relógio batiam 11 horas e Lisboa transpirava o corre-corre típico de uma capital europeia. Para Kalaf, “Lisboa está mais bonita, não há discussão”. Parte dessa beleza que abraça a baixa lisboeta é o próprio artista que nesse dia usava um fato preto e sob a cabeça um gorro vermelho dobrado. Nos olhos, os seus habituais óculos que já viram de tudo e um pouco, desde Angola à cidade onde o rio Tejo desagua, passando por Oslo e Berlim.

Foto @Fábio Teixeira|BANTUMEN

Populi Caffé & Restaurant foi o local certo para esta conversa, não tanto pela sua decoração interior com algum requinte mas pelo pluralismo cultural que se podia testemunhar da esplanada e que tão bem Epalanga incorpora, sendo ele filho da imigração, e como o mesmo afirma: “uma vez imigrante, para sempre imigrante.”

A sua adolescência foi passada em Portugal, onde estudou Gestão, mas o seu escape foi a música e a escrita, onde encontrou a sua verdadeira essência. É escritor, poeta, produtor e músico mas não sabe tão bem dançar. Os ouvidos que tem e o conhecimento que foi absorvendo do mundo e das comunidades que vai conhecendo [sobretudo africanos à volta do hemisfério] fez com que editasse juntamente com o grupo fundado pelo mesmo, Buraka Som Sistema, quatro discos e um EP que misturam a dança dos bairros de lata em Angola com a transmissão de mensagens através das vivências do seu quotidiano, o Kuduro.

E é com esse “arrasta-pé” que o escritor faz a sua arte chegar a toda a gente, entre crónicas e romances musicais, onde firma a sua africanidade e a sua identidade como cidadão angolano e do mundo.

É sobre essa mesma globalização que arrancamos com a nossa entrevista. Lisboa é atualmente o epicentro da mixegenação cultural da lusofonia. Dino d’Santiago chama-a de   “Nova Lisboa”, que cheira a morna, a kuduro, a afro beat e a tantos outros sons vindos dos quatro cantos do mundo, mas principalmente do hemisfério sul.

“Lisboa está mais bonita, não há discussão. E está muito melhor mas continuo a perguntar se a cidade está a ser inclusiva. Não podemos projetar uma cidade do futuro, uma cidade globalizada sem incluir os locais. Acho que, por exemplo, e aí tem de haver intervenção governamental de alguma forma, as leis que se praticam são proibitivas. Há uma pornografia no exagero, na busca do lucro por causa do que o turismo está a trazer.

Amanhã podes ir para a Croácia, podes ir para Valência e nós ficamos aqui agarrados com uma inflação terrível, com um peso desajustado com a renda, que o jovem não consegue pagar mesmo trabalhando das 8h às 17h mais o part-time em cima, ou seja, é impossível. Isto não é sustentável.”

Kalaf Epalanga
Foto @ Fábio Teixeira|BANTUMEN

“Quando digo que não é inclusiva é nesse sentido, a cidade está a afastar essas pessoas que dinamizam, que oferecem outra coisa para além do café bonito ou da salada com rúcula. Isso é muito fixe mas não temos os locais a dizer qual a melhor maneira de estar, de sobreviver e de viver isso. Isto é o primeiro ponto. O segundo ponto é o facto de nos estarmos a acomodar aos turistas de uma forma muito exagerada – e nenhum turista gosta disso.

Por exemplo, quando eu olho para cidades como Paris ou Londres, o turista que vai lá vai consumir o que os locais consumem também. Existe uma oferta que é feita para os locais e que o turista também consome. E em Lisboa ainda não conseguimos criar ou potenciar isso. Existem alguns rasgos na música, e sente-se. Lisboa está cada vez menos invisível, essa Lisboa negra, essa Lisboa dos subúrbios e quem chega aqui procura onde estão os locais e consomem a sua cultura, exatamente como com a dança, a kizomba…

Há sempre um turista que vem à procura disso, mas se isso é potencializado no voo da TAP… se abro a revista e essa Lisboa está lá representada… Eu acho que essa Lisboa não está bem representada, pelo menos o suficiente.”

O que é certo é que, se nos pedissem para escolher alguém para representar este conceito de pluralidade cultural, que se está disseminar, e que transforma Portugal na capital de uma lusofonia artisticamente homogénea, essa pessoa seria Kalaf. Viveu na pele o estereótipo da imigração, desde a clandestinidade aos trabalhos precários nas obras e na restauração, e agora é o novo tipo de imigrante, que na verdade já não é visto como forasteiro, é talentoso e acrescenta um novo sabor à cultura urbana local.

“Se eu venho em função de imigrante? Não, não de todo! Uma vez imigrante, para sempre emigrante. O que está a acontecer aqui, e é uma coisa que acho natural nas sociedades que tiveram fluxos imigratórios intensos como Portugal, é: quando uma pessoa chega aqui com uma mão à frente e outra atrás, tendo começado no lugar mais baixo da sociedade – com aqueles empregos que mais ninguém queria aceitar, depois de 20 anos com essa experiência vivida,- conseguiu meter os filhos na escola, na faculdade, vê-los concluírem a faculdade e inserirem-se no mercado de trabalho com muito mais ferramentas do que ele [o emigrante] quando chegou aqui, aí sim iremos ver a diferença e a evolução.”

Kalaf
Foto @Fábio Teixeira|BANTUMEN

O artista explica-nos que falar de si como referência obrigaria a falar de muitos outros nomes que acabam por ficar na sombra do mediatismo das artes do entretenimento. As mulheres por trás do INMUNE (Instituto da Mulher Negra em Portugal) são alguns desses nomes. “Não trabalham algo que seja tão visível ou celebrado internacionalmente. Mas o trabalho que fazem para aumentar a auto-estima dos negros, das mulheres negras… dêem-lhes uma medalha! Eu pergunto quais são os outlets em Portugal que dão uma hora de conversa a uma Joacine Katar? É um começo viável e por isso é que discuto a atenção que lhes deviam dar. E é injusto dizer que cheguei aqui de pára-quedas e que não construí algo em cima dos ombros de alguém.

Quando cheguei aqui já existiam outras pessoas a fazer algo, já o José Mussaili [primeiro negro a apresentar o telejornal em horário nobre em Portugal] era pivô da TVI… Eu construí em cima dos ombros dessas pessoas, construí em cima dos resultados deles. Eu sou resultado do facto de ter existido um Mussuaili. Eu sou o resultado de existirem negócios de negros.”

E nessa construção houve e continua a haver um ‘bater o pé’ contra o ‘não é possível’, ‘não te aceitamos’. “Nós somos o negócio que nós queremos. São os cabeleireiros, os restaurantes, as discotecas… o facto é que esses lugares deram-me legitimidade para fazer aquilo que eu fazia. Quando alguém me pergunta ‘existe mercado para a música que tu fazes?’, se eu tiver esta discussão com diretores de várias editoras – onde a visão deles sobre África é: Cesária Évora, Bonga e etc. – eles diriam-me “é impossível fazer dinheiro com essa música”, eu responderia “é possível porque eu estou a ir a sítios onde estão essas pessoas. A partir do momento que tu tens um miúdo branco que vive na Amadora que conhece tão bem como eu o que a cultura africana produz, como é que não há mercado para essa cultura? Hoje em dia já há, mas falo do início – antes do Anselmo Ralph, do C4Pedro, do Nelson Freitas – já está estabelecido que há mercado mas houve muita resistência no início. As minhas certezas, escolhas e apostas foram baseadas no facto de que existia algo que já estava a ser construído.”

E será que esta mestiçagem, esta ‘nova Lisboa’, está a traduzir-se num novo estereótipo ou pode ser considerada um novo normal? Kalaf responde-nos que se trata de uma romantização. “E porquê romantizado? Todo o mundo celebra a mestiçagem enquanto ela estiver a uma certa distância… Porque quando ela chega perto, a conversa é outra. Eu garanto-te que se num bairro a renda de uma casa custar 2.500 euros, e se estiver lá uma família negra que não seja com aquele sobrenome que nós conhecemos ou que esteja a comprar algum banco ou qualquer coisa do género, que a mestiçagem já não é assim tão romântica.

É romântica quando ela não nos toca. O Nelson Évora tem de ganhar a medalha de ouro! Têm [os negros] de estar muito destacados.

Existem doutores negros, advogados negros… Para falar de racismo não tens de chamar o Kalaf ou indivíduos ‘xpto’. Chama alguém especialista, que estude isso, que trabalhe todos os dias nisso. Não vou chamar uma celebridade como se fosse o dono da verdade, porque não sou. Eu também estou aqui a tentar ouvir sobre uma matéria na qual não sou especialista. Confesso aqui que não sei tudo sobre políticas de imigração, sobre a própria constituição portuguesa. Mas eles estão ali e conhecem o que estão a fazer de trás para a frente.

Acho que nós, negros, estamos a viver aquela coisa que é interessante, que é a América negra que começa a ganhar mais protagonismo. Nesse sentido, começa a contaminar outros grupos, outras comunidades à volta do mundo. Basta olharmos, por exemplo, para o efeito Wakanda, esse acordar para uma ideia afrocentrista, acordar com um cabelo natural, as nossas coisas, que já é bom vestir o dashiki e sair à rua. Este poder está a crescer muito graças ao posicionamento afro-americano. Contudo, estou um pouco cético com essa ideia que eu adoro e celebro. Cresci com jazz, mas não construo e defino a minha afrocentricidade baseada no posicionamento, na visão, na estética afro-americana. Eu tento basear-me na minha estética, no lugar de onde venho, tenho de agarrar-me às minhas coisas porque eu acho que essas é que merecem ter exposição.”

Sobre afro-americanos, cai bem a questão do afro-europeu, que é um termo que começa a ganhar forma. Será este um termo legítimo? Já existe uma identidade afro-europeia?

“O termo afro-europeu faz sentido para mim. O projeto europeu não nos inclui porque só agora é que a diáspora africana na Europa se preocupou com o que o que a diáspora dos outros países está a fazer. Todas essas relações estão a ser articuladas de uma forma visível agora. A identidade afro-europeia faz sentido, sim… Mas ela não tem uma forma ainda. Ela não tem uma identidade concreta, há várias.

Se essa identidade afro-europeia é baseada em cor da pele ou o facto de virmos todos do mesmo continente? Ainda não chegamos a um espaço de discussão nesse sentido. A ideia é muito fragmentada… Os teus filhos vão nascer aqui e vão ter uma identidade afro-europeia. Eu acredito que sim [existe uma identidade afro-europeia], mas ainda fragmentada e por isso há o perigo de nos classificarem como afro-europeus apenas pela cor da pele ou pela proveniência geográfica.

Há brancos e mestiços em Angola e a sociedade europeia não os classifica como africanos. O grande perigo da nossa sociedade é que nos agarramos nesses valores e achamos que eles são a verdade e que temos de construir assim as nossas sociedades quando nós não somos monólitos. Nós comemos sushi, nós gostamos de rap, nós gostamos de passar férias na Tailândia… E isso também constrói a nossa identidade. Não estou a dizer que isso nos diminui.

A globalização é isto, não há volta a dar. Todos nós somos muito o reflexo dessa própria mistura. Por isso é que digo que a comunidade afro-europeia tem de ser debatida de forma ampla e nós ainda não começamos esse debate.”

Quem está a dar poder a esta “Nova Lisboa”?

“Os africanos continuam a ser o grande tabu da sociedade ocidentalizada, continuamos a ser o fruto proibido e durante anos nós fomos a cultura da margem. E a cultura da margem tende a ser mais apetecida porque não é mainstream. A kizomba, da forma que nós conhecemos desde o início dos anos ’90, está a entrar na casa dos 30. Quando tens uma mancha cultural marginalizada há 30 anos, aquele indivíduo que estava exposto a isso, hoje, tem mais poder de compra.

Quando começa a ter poder de compra ele diz “eu não vou querer ouvir Rui Veloso, quero é ouvir Nelson Freitas”, porque o meu poder de compra permite-me escolher. E quando tu começas a ter poder de escolha não há cultura que seja catalisada. É impossível catalisar porque isto é fruto do poder de escolha, poder de compra, poder de aquisição.”

Foto @ Fábio Teixeira|BANTUMEN

“A cultura africana hoje é tão sexy como é, porque está a conseguir comunicar com pessoas que cresceram com ela e que neste momento têm poder de aquisição. Ou seja, não há forma de colocar isto, não foi um projeto político, porque não existe um poder político de divulgação, de implementação da cultura africana, ou como não existe poder político de implementação da cultura e ponto final!

Os miúdos não têm mais aulas de música na escola porque não existe uma política do trabalho pós escola, muitas das vezes acontecem em associações muito pouco financiadas que tentam fazer esse trabalho acontecer e é fruto do poder de compra. Das pessoas que cresceram e vivem nos subúrbios e estão expostas a essa cultura quando saiem à noite dizem “eu quero divertir-me e não vou ouvir Mafalda Veiga, quero ouvir Kataleya”. Isto é poder de compra.”

A nível da cultura angolana, a kizomba é, sem sombra de dúvida, a primeira palavra que surge na cabeça de muitos portugueses. Culpa de quem apenas vê o que quer ou dos angolanos que só mostram o que lhes é pedido?

“Eu acho que a cultura angolana em Portugal ainda não chegou, não acho que o português médio ou até o português intelectual conheça o grupo Kituxi.

Tirando as manifestações dos agentes culturais que têm uma afinidade ou aproximação a Angola, quando olhamos, de facto, para onde a cultura urbana chegou, não chegou. Nem acho que esteja a chegar. Nós vamos tendo essas ilusões de que parece uma multidão mas não é uma multidão. Porque nós, enquanto nação, não temos uma política cultural.

Choca-me ter visto a LS – produtora de música angolana – assumir o papel do ministério da Cultura angolana… Aquilo que fizeram de chegar aqui e “fechar” o Pavilhão Atlântico e meter o Team de Sonho todo, esse tipo de coisas foram muito mais impactantes em termos de mostrar a cultura urbana angolana com força. Desde que Angola é independente conto as vezes que houve um posicionamento que fosse claro da nossa cultura [fora de Angola].”

Foto @ Fábio Teixeira|BANTUMEN

Será que este interesse surgiu por causa do interesse no El Dorado que Angola foi até há pouco tempo, e que se alargou à africanidade no geral?

“Acho inevitável, ou seja, Portugal continua a ser o exportador para Angola. Temos que lidar… A maior parte dos quadros angolanos formados fora de Angola são formados em Portugal. Não há como não.

Faço parte de um grupo de pessoas que começa a achar que temos de fazer um bypass em Lisboa, ou seja, nós para interagirmos com os nossos vizinhos dos PALOP não precisamos de Lisboa para nos colocar na mesa. Começa a ser uma das minhas preocupações.

Enquanto indivíduo e agente cultural procuro soluções de troca que não precisem do aval de Lisboa, ou até da solidariedade lisboeta, que é bem-vinda até certo ponto. Acho que nós precisamos estabelecer relações diretas com os nossos parceiros de língua e parceiros regionais e isso, para mim, só nos irá fazer melhorar em todos os aspetos económicos e sociais.

Angola tem organismos em Portugal onde estamos todos inscritos no consulado e nós nunca nos perguntamos para que é que isso serve… Não é só para o país saber quantos somos cá, também é para nós chegarmos à nossa embaixada, que é o único organismo que nos representa, e pedir mais intervenção. Também somos nós que não estamos habituados a usar a nossa voz.

Os angolanos vivem numa sociedade democrática, mas comportam-se como se ainda vivessem na época do mono [partido único]… nós achamos que o político não está aqui para nos servir e a maior parte dos angolanos pensa assim. Parece que pensam ao contrário. Que somos nós que estamos cá para os servir a eles.”