Leonardo Wawuti, um nome que dispensa apresentações no seio da comunidade Hip-Hop em Angola, lança neste dia 14 de fevereiro o seu novo álbum Noites, Cantos… Madrugada. Este trabalho é uma ousada sequência do EP Saia Rodada e Missangas, lançado em Novembro de 2017. Noites, Cantos… Madrugada viu a produção ser dividida entre o próprio Wawuti e o seu irmão 7Xagas.

Com agora 20 anos de carreira, Leonardo Wawuti tem habituado o seu público com projetos variados, que surpreendem sempre pela maturidade sonora. Nesse nível, este novo trabalho deverá ser diferente. O artista promete-nos uma obra surpreendente para quem ouve e gosta de música com instrumentais  bastante criativos, letras profundas com spoken word à mistura, deixando sempre presente a sua marca e autenticidade.

Para além dos créditos de produção, música e letra de Leonardo, o projecto NCM conta com parcerias na produção, de Coca o FSM, e letras dos escritores Ondjaki e Massalo. Este último também autor da pintura usada na capa do projecto. O projeto, que o artista categoriza como sendo de Soul e RnB, conta igualmente com a participação de Damani Van Dunem, que faz parte da mesma label de Wawuti, a Okwami.

O projecto está disponível neste Dia dos Namorados em todas as plataformas de streaming
e aproveitamos para lançar uma entrevista com o artista a propósito deste seu novo “filho”.

leonardo wawuti
Fotos : Keita Mayanda

BANTUMEN: Como resumes estes 20 anos de carreira e como achas que a tua discografia influenciou as nova gerações do rap?

Leonardo Wawuti: 20 e poucos anos de percurso. Não sei se posso chamar de carreira, pois nunca mergulhei inteiramente nela. Fazer música é só uma parte que se exige e essa foi a única parte que sempre estive disponível para fazer. Sinto-me satisfeito com o meu catálogo. Algumas coisas poderiam ter sido feitas de forma melhor mas fazem parte do crescimento. Outras até hoje me dão um enorme orgulho.

Não consigo saber o quanto influenciei como artista a solo. Sei que a minha qualidade atraiu pessoas a quem me associei que depois como colectivo sim, tivemos um maior impacto e influenciamos uma franja de rappers que vieram a seguir.

A nova geração no geral, pouco ouve o que foi produzido 20 anos atrás mas acho que tudo funciona em ondas. Isso porque, chega a uma altura em que todo o ouvinte de música sente a necessidade de voltar no tempo para entender melhor o que ele ouve, ou mesmo até por outras razões, mas este chamado de “rebuscar obras antigas” acontece sempre. Aconteceu comigo e vejo acontecer regularmente com outras pessoas e eventualmente chegará aos fazedores de rap de agora.

BM: Temos rapperes da nova geração com 1/4 do tempo da tua carreira e com discografias maiores que a tua. Achas que, hoje, com a rapidez com que se faz música tira-se toda a sua qualidade e reduz-se o seu tempo de vida?

LW: Eu acho que não. Lembro-me que no início do meu percurso eu produzia muito. Muitas letras, muitos beats mas infelizmente o processo de gravação não era tão facilitado como agora. Hoje em dia tenho a possibilidade de gravar quantas músicas quiser sempre que quiser, não o faço porque o meu tempo para a música agora é mais escasso.

A grande quantidade de música produzida é uma faca de dois gumes. Da mesma maneira que saem músicas menos boas, existe sempre a possibilidade de grandes clássicos.

Todas a gerações produziram músicas imediatistas e músicas intemporais.

BM: Achas que o rap e todas as suas influências, a nível de novos subgéneros, é a evolução normal da cultura ou apenas o declino?

LW: O que mais se aponta de negativo na música feita atualmente é a temática fugaz e desprendida de valores que a sociedade supostamente tem. No entanto, esta mesma sociedade, na sua maioria, dá a importância e valor a esta música. Acho esta análise muito simplista.

A história mostra que, de forma geral, as gerações anteriores são as maiores críticas das gerações que vêm a seguir. E recuso-me a seguir este paradigma. Vejo-me muito perto do que é feito atualmente e mesmo do que foi feito na minha época, para ter uma apreciação real do valor que cada geração teve. O tempo ensina-nos melhor que ninguém. Acho que talvez os próximos dez anos tenhamos uma ideia mais clara do verdadeiro valor do que foi feito e, aí sim, vamos poder saber se foi declínio ou não. O rap dá o que recebe da sociedade.

BM: Como estão as relações humanas na tua observação social na música que se faz hoje?

LW: A relações humanas nunca testemunharam nada como nesta era da Internet. As relações sempre foram um bocado limitadas pelo espaço geográfico, que por sua vez limitava pessoas a interagir com outras da mesma cultura. Hoje, um adolescente em Angola facilmente consegue ter como o seu melhor amigo um adolescente chinês que nem conhece pessoalmente. Esta abertura traz consigo os prós e os contras. O contra que mais se destaca é o facto de culturas menos valorizadas e cuidadas nos seus lugares nativos acabarão por se diluir em outras culturas maiores. A maior vantagem é a quebra das barreiras culturais. Somos influenciados e influenciamos também.

A música beneficia dessa abertura por causa do acesso a culturas que, até então, só com  muito esforço se conseguia ter. World Music, embora seja um termo antigo, encaixa-se perfeitamente no ambiente atual e, possivelmente, se tornará na categoria com mais música.

BM: O que é o colectivo Okwami?

LW: Okwami é basicamente um aglomerado de artistas amigos que nutrem admiração uns pelos outros. Temos uma linguagem musical muito parecida, que de forma orgânica nos aproximou. Começou em ambientes descontraídos de conversas sem compromisso que evoluíram para sessões espontâneas de gravação.

A necessidade de criar um colectivo está associada ao compromisso de maximizar o nosso output como artistas individuais. Somos claramente musicalmente estimulados uns pelos outros e faz todo o sentido manter a união.

Não existem processos para integrar a Okwami, ou acontece ou não. Tão simples quanto isso. Tem de haver uma empatia consensual no colectivo para a entrada de novos membros.

BM: Sobre o teu novo trabalho, como nasce a ideia de preparar um projeto de Soul/R&B?

LW: Na verdade os projectos não são concebidos como sendo soul ou rap. Estou constantemente a criar e depois de ter um número de músicas, agrupo-as em pequenos projetos. Uso o género como um dos critérios para a escolha dos singles para cada projeto. Acho mais “arrumado” não ter muitos géneros num só álbum.

BM: É uma evolução natural começar com o rap e, com o avançar da idade, por culpa da maturidade, passar-se para o soul ou músicas mais cantadas?

LW: Eu acho que em arte tudo é possível e a evolução de cada artista é um caso à parte. No meu caso, e comecei a cantar antes do rap mas só me senti mais confortável em fazê-lo mais tarde.

 

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BM: O lado artista complementa-se com a obra de Massalo para a capa do EP. Como surgiu a ideia de trabalharem juntos?

LW: O Massalo é um artista multidisciplinar, com um output criativo fantástico. Muito do que ele produz não vê a luz do dia. Felizmente tenho uma posição privilegiada e costumo ter acesso ao material.

Tenho “cunha na cozinha” e pedi-lhe um quadro para a capa. Ele disponibilizou perto de 50 quadros para escolher.

BM: Ondjaki, um dos maiores escritores angolanos da atualidade, e Damani Van Dunem, que tem dos melhores álbuns do ano de 2018, fazem parte de NCM. Como se processou a escolha destes nomes para este trabalho?

LW: Pois é, o Ondjaki. Conheço a “figura” desde os meus cinco anos. Fomos colegas da primária e secundária. Sempre houve a insinuação de fazermos alguma coisa juntos. Eu fui mais assanhado e pedi um poema para musicar. Ele enviou dois mas para o projecto ficou o “Todas Madrugadas”.

O Damani é Okwami e pronto… é aquela base. Depois de ter o “Beleza” pronto, ouvia a voz e flow leve do Damz na cena. Foi só uma chamada e o “brada” entregou.

BM: Fugindo do teu EP, como vês a música feita em Angola?

LW: A produção de música está cada vez mais acessível. Os artistas brotam de todos os sítios. A música em Angola vai bem. Entretanto, existem os problemas estruturais que nos impedem de ter uma indústria de fato.

Não temos fábrica de CDs, não temos uma associação de autores sustentada por artistas para proteger os direitos dos mesmos. Existe a necessidade de se criar formas alternativas do artista ganhar com a sua arte. Estamos em campo aberto totalmente “desregularizado”.

BM: Os serviços de streaming nacionais e a novas labels que têm surgido, que contribuição estão a dar para a música em Angola ?

LW: Eu acho que as grandes labels contribuíram muito para carreiras individuais mas não para a música no seu geral. Já os serviços de streaming são o oposto. São muito mais democráticos e totalmente dependentes do que o utilizador quer ouvir e não do que uma terceira entidade impinge. Embora haja ainda muito pouca adesão por parte dos ouvintes, estes serviços são o futuro e cedo ou tarde se tornarão uma das principais formas de ouvir música.

BM: Deixar de vender em formato físico e investir no digital é a solução para o progresso da música em Angola, a par do que já acontece no resto do mundo ocidental?

LW: Não sei dizer neste momento. Mas posso dizer que em Angola a adesão ao físico é ainda muito elevada. No entanto, tem ficado cada vez mais oneroso e mantém-se até hoje o mesmo preço de venda do produto final. Não faz sentido, para mim, enveredar pelo formato físico. Não agora.

BM: O NCM é um dos cinco projetos que tens pronto para sair. 

LW: É verdade! Tenho muitos projectos em carteira para este ano e espero que consiga lançá-los todos este ano. No forno tenho o terceiro do Conjunto Ngonguenha, o EP Mbundu, totalmente produzido pelo Henrique Jonas (produtor brasileiro), um EP de rap sem nome ainda e o EP do colectivo Okwami. Será um bom ano.