“Portugal não é um país racista Mas os parasitas que vão para a sua terra”

O que leste acima é um dos inúmeros comentários que se lêem nas caixas de comentários de notícias de várias entidades de comunicação, programas de televisão, entre outros, e que se repetem cada vez que a comunidade não branca em Portugal dá o ar da sua graça, muitas vezes pelos piores motivos, como o polémico caso do Bairro da Jamaica, do qual já falámos aqui.

O último momento de ira que deu vazão a mais uma avalanche de palavras do género, fruto de um ódio cada vez mais latente numa camada da sociedade e que por muito tempo esteve adormecido ou camuflado envolve o nome Mamadou Ba. O líder do SOS Racismo e assessor do partido Bloco de Esquerda escolheu mostrar o seu descontentamento e raiva perante a brutalidade policial no bairro da Jamaica com duas palavras que, conjugadas na mesma frase, deram azo a vários tipos de interpretação: “bosta” e “bófia”.


Com esse seu desabafo nas redes sociais, Mamadou Ba tornou-se assim num alvo, ainda maior, depois das suas palavras terem sido reproduzidas vezes sem conta sem o seu devido contexto e apenas com o intuito de se disseminar o ódio gratuito e de inverter os papéis da vítima e do prevaricador.

Mamadou passou assim a ser o centro do problema quando deveria ser o facto do racismo português ser uma questão, além de moral, política.

Mamadou Ba foi necessário e tem sido necessário na luta que faz e nos ideais que segue e cumpre. É necessário um Mamadou Ba. Criticou a imperfeição policial e a subcategorização  das comunidades não brancas, e o seu desabafo foi isso mesmo. Um desabafo que não devia ter sido feito da forma inflamada como foi, por razões óbvias, mas que foi associado a todo um conjunto de significados desmerecedores.

“Sobre a violência policial, que um gajo tenha de aguentar a bosta da bofia e da facho esfera é uma coisa é natural, agora levar com sermões idiotas de pseudo radicais iluminados é já um tanto cansativo, carago! Há malta que não percebe que a sua crença ideológica num outro modelo de sociedade, muitas vezes assente no privilégio doutrinário e não só, não salva quem todos os dias é violentado com o racismo. Portanto, fica o aviso que por estas bandas, não pastarão.”

Num país democraticamente livre, Mamadou Ba não tem espaço nem palavra. É tratado como estrangeiro, mas tem nacionalidade portuguesa. É dirigente do SOS Racismo e assessor do Bloco de Esquerda desde a sua fundação e agora pedem a sua destituição, porque este não é o seu país e o que proclama defender não existe. O racismo em Portugal não existe. É só um país tropicalmente paternalista.

Portugal é sim um país desigual e racista. Atenção, a verbalização desta frase não diz que todos os portugueses são racistas. Contudo, de acordo com o sociólogo Rui Pena Pires, “a categoria de raça é racista. Ou seja, o racismo não começa no tratamento desigual das raças mas na classificação das pessoas em termos raciais. Admitir a ideia de raça é admitir que há uma relação entre traços físicos e cultura. É admitir que devemos considerar alguém como outro por causa da cor da sua pele. É admitir que devemos começar por olhar uns para os outros em função de uma categorização subjetiva em termos raciais. Não é possível combater o racismo salvando a categoria de raça.”

É importante aprofundarmos mais o tema que é superior à “questão” Mamadou Ba. É importante falar-se na necessidade da auto-organização da comunidade negra, para nos desviarmos, no sentido figurativo, das balas de borracha e ofensas de integridade física mesmo após uma manifestação pacífica, com o objectivo de exigir mais enquanto parte integrante da sociedade portuguesa.

Na democracia portuguesa, nunca foram usadas balas de borracha contra qualquer manifestação. Em 2012 na greve geral, a polícia foi apedrejada durante mais de meia hora pelos manifestantes, que tentaram “invadir” a escadaria da Assembleia da República, e nenhuma bala foi disparada. O vídeo abaixo comprova o dito:

 

E cada vez mais, enquanto não forem dadas as mesmas oportunidades, existirá necessidade de criar algo que não exclua mas que agregue.

Todos sabem que existe uma coluna racista infiltrada dentro das forças de segurança portuguesa. E isso leva-nos para outra questão: não há negros em posições de destaque em Portugal, diretores de grandes empresas, num alto cargo do parlamento, ou até mesmo nas estações televisivas, se há, contam-se pelos dedos. Os acessos não são distribuídos de igual forma entre um negro e um branco.

Em Portugal, só recentemente nasceram as primeiras associações de afrodescendentes com uma agenda claramente política e antirracista, como se pode ouvir no podcast de Daniel Oliveira com Mamadou Ba. Há uma nova geração mais internacionalizada de conhecimento e mais escolarizada que os seus pais e, que apesar de todas as falhas do Estado, que são muitas, conseguiram usar as poucas ferramentas que lhes foram dadas para qualificar e quantificar a sua vida.

O que acaba por criar uma comunidade africana mais acordada e pronta para lutar pelos seus direitos, uma elite de afrodescendente que já consegue criar a sua própria estrutura e com ela usar a voz para falar mais alto por aqueles que são invisíveis aos olhos da sociedade e do Estado.

O que se pode fazer? O que é que a comunidade negra pode fazer para mudar essa sociedade e outras?

É importante falarmos de raça, categorizarmo-nos de tal forma, eu sou preto e tu és branco, ponto. Há diferenças de tom de pele, o interior é o mesmo, o que tem de mudar é a forma como as pessoas agem e reagem quando se fala de diferença.

Não é novidade que o facto de ser negro num mundo branco dificulta e fecha muitas portas, e temos quase sempre que batalhar duas vezes mais para mostrar o nosso valor e capacidades.

Mas a verdade é: nós temos de pensar mais em comunidade, unirmo-nos e arranjar ferramentas que nos possibilitem de fazer uma luta de igual para igual.

Temos de conseguir mudar mentes, reestruturar ideais de quem vive a mesma realidade que nós, exigir uma restruturação da educação, reeducarmo-nos financeiramente, educar os mais novos e explicar que são capazes de tudo com o esforço certo e que a sua cor não é uma barreira. Quantos mais exemplos de sucesso tivermos, mais se seguirão.

Não é tempo de fugir, é tempo de nos unirmos enquanto jovens, enquanto pessoas que querem lutar para um bem maior, enquanto pessoas livres que somos.

Uma conquista de um irmão é uma vitória para todos.