As redes sociais, passando por cima de todas as suas consequências nefastas para o comportamento humano, permitem que nos aproximemos uns dos outros. Permite que partilhemos as nossas vidas, ideologias e saberes, possibilitando a transferência de conhecimento e, consequentemente, alargar o campo de visão de verdades tidas como fechadas.

É desse mundo virtual utópico, mas tangível, que faz parte Marinela Mendes. Na Internet conhecemo-la como Lurine ou Lurinela. Descrita por ela própria, tem 36 anos, é “angolana, mulher inquieta, crítica e politicamente consciente, gestora de profissão, empresária, empreendedora e mãe de um menino de quatro anos”.

Já foi gestora, no sector bancário, e esteve por trás da criação da Oluchi, que confecciona e comercializa roupa com base em tecido de padrões africanos, e o seu novo projeto é a Mbawa, igualmente uma marca de roupa mas com um conceito mais vasto que inclui lifestyle. Neste texto, falamos sobre a marca e o que representa.

Mas não é sobre as suas atividades profissionais que nos vamos debruçar neste artigo. Vamos antes falar de INcontruz. O que é? Um abalroamento de saboderia professado por Lurinela e os seus convidados de honra. Onde? No Instagram.

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“O INcontruz é uma plataforma que combina encontros reais com virtuais. É uma sentada [uma reunião] entre amigos que pretendem debater sobre assuntos diversos mas que pela linha editorial de empoderamento, emancipação e controlo, por parte das mulheres, da sua própria narrativa e agenda, é considerado ou apontado como feminista.”

O objetivo principal é abrir mentalidades, forçar a reflexão e revogar verdades tomadas como absolutas, construídas com base em tradições ou subjeções patriarcais. “Na realidade o que pretendemos é abrir a porta e provocar a discussão livre e orgânica sobre a base do nosso sistema de crenças coletivo”, explica-nos.

A roda de convidados varia conforme o tema de cada episódio. “Depois de definido o tema, eu e a trincheira firme do #INcontruzTruz começamos a pesquisar o nome ideal para desenvolver aquela discussão com propósito e eficácia. Naturalmente fazemos isso dentro do nosso grupo de amigos porque, na realidade, o #INcontruz é apenas e só a parte televisionada ou instagramada de algo que já faz e sempre fez parte do nosso lifestyle: conversar, discutir e debater entre amigos o mundo em que vivemos.”

Um pouco à volta destes INcontros de luz, decidimos conduzir a entrevista a Marinela sobre  o feminismo e o que este representa para si.

O que é ser-se feminista?
Acho que a definição do feminismo está por todo lado. O feminismo é um movimento social e político organizado que procura construir condições de igualdade de direitos e oportunidades para homens e mulheres. Portanto, as pessoas feministas serão aquelas que lutam por essa igualdade.

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O que é ser-se feminista em Angola?
Em Angola, o que é ter noção de que somos indivíduos com direitos, e não apenas seres humanos que respiram e agradecem o oxigénio como ganho da paz? É por aí… [Para quem não conhece a realidade angolana, muitos não se permitem questionar a sua existência enquanto indivíduos pensantes, limitando-se a seguir ordens “superiores”, tradicionais ou familiares. A título de exemplo, ainda é de certa forma comum atribuir à mulher o papel de serviçal do homem em geral, seja marido, irmão, pai, colega ou patrão.]

Não conheço nenhuma luta que obteve sucesso por se entoarem músicas de embalar

Somos todas feministas? Mesmo aquelas que não sabem que o são?
Hummm… Penso que ser feminista é aceitar rever as bases da nossa educação patriarcal e advogar no dia a dia, agindo de forma consciente, buscando mudanças concretas que alterem o paradigma actual e confiram às pessoas nascidas mulheres, maior liberdade para entenderem o mundo como seu. A estória única de noção de sucesso pessoal que se contam às meninas angolanas, pode e deve ser revisitada, discutida, para que como indivíduos possamos crescer com a noção de que temos outras  opções e está certo usar ou exercer esse poder. Nós podemos ser mais do que as perfeitas filhas, esposas e mães.

E aquelas que dizem que não são feministas, o que são?
O nível de consciência política de cada um faz parte do próprio processo de crescimento e amadurecimento. Por outro lado, existem outras ideologias ou movimentos sociais que podem defender essa ou outras formas de emancipação sem ser sob o teto do feminismo. Eu pessoalmente, não costumo reclamar a etiqueta de feminista, pelo suposto contexto histórico do movimento (mulheres brancas que até hoje não conseguem entender o abismo que existe entre a forma como uma mulher branca experiencia o mundo e uma mulher preta) mas, se essa é a forma como sou definida, é porque aquilo que defendo e acredito cabe também nessa caixinha e está tudo certo. Não sou obcecada pelas etiquetas. Dou muito mais valor à mensagem por trás do chavão.

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Está a sociedade africana preparada para ter mulheres líderes?
Historicamente as sociedades africanas sempre incluíram as mulheres na liderança das comunidades.
A presença violenta e aviltante do homem branco, o holocausto que foi a escravatura, desempenhou um papel determinante no limbo em que vivemos hoje em que não sabemos quem somos, no que acreditamos, que Deuses devemos adorar… Um povo com a sua espiritualidade capturada nunca conseguirá encontrar o seu verdadeiro equilíbrio e propósito.

Mulheres e homens africanos, deverão recuperar primeiro a sua própria narrativa, encontrar as suas próprias soluções, se quisermos evoluir como pessoas e ser respeitados como colectivo.

Porque é que o “O diabo tem Pila”? 
(Risos) Esse foi o título de um dos #INcontruz que pretendia discutir a masculinidade tóxica com algumas das figuras (homens) que mais admiramos dentro da nossa comunidade.

Que problema é esse da mulher e dos seus pêlos?
O problema dos pêlos terem uma conotação de porquice e sujeira quando estão em corpos femininos e serem invisíveis quando estão em corpos masculinos. É um problema de objetificação dos nossos corpos que se entende que devam servir pra embelezar e agradar e por isso são descartáveis. A Mel Gamboa foi atacada nas redes sociais por estar tranquila numa foto e por se notarem pêlos nas suas axilas o que originou um vídeo depositado no meu IGTV analisando o assunto. Foi uma forma de eu contribuir para a discussão que estava entalada e teve um feedback muito positivo por parte dos internautas.

Por que é que precisamos de feministas com um discurso inflamado como o da Mel Gamboa? A agressividade é um método válido nesta luta?
Não conheço nenhuma luta que obteve sucesso por se entoarem músicas de embalar.

Onde queres levar os INcontruz?
Essa é a pergunta que me tem tirado o sono ultimamente e me causado alguma angústia. Eu terei que incluir o INcontruz na minha agenda pessoal e encontrar uma fórmula que seja interessante para a audiência mas que não me consuma tanta energia. Eu me envolvo em demasia com tudo que faço e sou algo perfeccionista pelo que levo tudo a sério. Estou a pensar sobre o assunto.

Fala-me dos teus planos a curto e longo prazo. O que queres desta vida a nível pessoal e a nível profissional… O que te faz – ou faria – sentir um ser humano completo?
Não sei se alguma coisa me fará sentir um ser humano completo. Eu sou por definição uma pessoa inquieta e em constante evolução.

Escrevo aqui e ali. Gosto de estórias que marcam histórias. Sou de Portugal, com veia cabo-verdiana, dois pés em Angola e coração em França. Africanidade, estilos de vida e música são os temas que me prendem a atenção, mas gosto de me distrair com politiquices e bizarrices.