Ao longo dos anos, muitos talentos têm saído dos bairros sociais para os centros urbanos. Dos chamados ghettos dentro das cidades, têm emergido desde atletas, dançarinos e rappers, desmistificando a ideia [errada] que muitos têm acerca dos bairros.

E como sinal de luta e resiliência nasce Mynda Guevara, uma das poucas rappers femininas a cantar em crioulo. Da Cova da Moura para o mundo, a rapper quer mostrar a todos que o seu nome existe “pela essência revolucionária que quer transmitir no seu rap”.

A sua caminhada começou cedo, aos 13 anos, pela influência do seu irmão mais velho, Mynda começou a consumir muito rap. A curiosidade pelo estilo fez com que tivesse o primeiro contacto com a música no estúdio do bairro, na Associação Cultural Moinho da Juventude, onde fez a primeira gravação, apenas porque necessitavam de uma voz feminina. A partir daí, o “bichincho” foi crescendo e deu-se o início de uma carreira.

Mynda Guevara
Foto: BANTUMEN / Pedro Silva

O rap crioulo está diferente do que se ouvia nos anos ’90 ou inícios de 2000. A sonoridade é outra assim como as letras e o conteúdo. Mas ao mesmo tempo, o rap atual tem sido muito bem aceite e consumido, o contrário do que aconteceu naquele tempo. No entanto, Mynda não esconde a sua preferência. “O rap crioulo antes era mais verdadeiro e sentido, era mais real. Antes as letras arrepiavam-me, hoje em dia nem tanto, apesar de ainda existirem rappers com muito conteúdo”, sublinha.

O rap em si, em Portugal, está na sua melhor fase. Já é visto com um outro olhar e menos estigma. As altas taxas de consumo desse estilo de música tem aberto muitas portas a muitos outros novos talentos mas, na sua maioria, os lugares de sucesso continuam quase exclusivos aos homens. Mas Mynda não mede as barreiras sexistas.

“Os homens não têm de aceitar ou deixar de aceitar, têm de respeitar o que eu faço e ponto.”

“Eu sendo mulher e cantando rap, sinto que não me tratam de forma diferente. Pelo contrário dão-me muitos props, sinto mais motivação do lado deles do que delas, explica-nos para a câmera.

“Eu elevo a minha voz – não para gritar, mas para que aquelas sem voz possam ser ouvidas. Não podemos ser bem sucedidas se metade de nós estão contidas.” Está é uma citação de Malala Yousafzai, que dá inicio ao videoclipe de “Ken Ki Fla” de Mynda, e que tem certa importância na vida da rapper. “É uma frase que carrega muita força e incentiva as mulheres para que possam fazer tudo o que queiram”. Yousafzai é uma activista paquistanesa e a pessoa mais nova a receber um prémio Nobel. É conhecida pela sua luta pela defesa dos direitos humanos das mulheres e do acesso à educação na sua terra natal. No vale do Swat, na província de Khyber Pakhtunkhwa, no nordeste do Paquistão, as mulheres estão proibidas de frequentar a escola pelos talibãs e o activismo de Malala tornou-se um movimento internacional.

Mynda tem vindo a preparar o seu “primeiro filho”, como a mesma afirma. O EP terá seis faixas, das quais duas já foram lançadas com videoclipe. Charlie Beats é o produtor por detrás de “Mudjer na Rap”, desde os intrumentais, mixagem e captação das vozes.

Beatoven, Slow J, Gson, Lhast, Valete e Landim, são alguns nomes com quais a rapper gostaria de trabalhar futuramente, uma vez que a sonoridade desses artistas influenciam muito o trabalho que tem feito. Fora de Portugal, ouve e tem como referência outras rappers com muita presença como: Cardi B, Young M.A, Nadia Rose e IAMDDB.

“Teresona (Tzona), Juana na Rap, são algumas das rappers que tocam na minha playlist.

Apesar da presença feminina no rap tuga ainda estar meio apagado, há nomes que não ficam esquecidos na sua playlist. Entre eles a luso-angolana Teresona (Tzona) e a portuguesa Juana na Rap. “O estado do rap feminino em Portugal, ainda está muito apagado apesar das oportunidades pontuais que vamos tendo.”

Vê abaixo a entrevista de Mynda Guevara à BANTUMEN e lembra-te que o rap não é feito só de homens: