Rui Tati é provavelmente um nome que não te passa ao lado. Além do apelido ser já bastante conhecido no mercado internacional da moda por conta da sua irmã e designer Nadir, Rui é um empresário preparado para o sucesso. Há cerca de quase três anos, adquiriu 40% da marca portuguesa Pelcor, cuja base de negócio são acessórios de moda produzidos com cortiça. Hoje detém 100% da marca que está em ascensão.

No currículo, Tati acumula cargos e funções de relevo em diversas áreas. É piloto de formação, mas nos últimos anos esteve envolvido na gestão estratégica de marcas como a Coca-Cola, Heineken e Amstel, fundou uma empresa de obras públicas angolana e esteve também envolvido na fundação da GE-GLS Oil & Gás Angola.

Rui Tati
Foto: Miguel Roque para BANTUMEN

Com 42 anos, “sou um africano, de Angola e de Cabo Verde, que gosta de desenvolver e fazer as coisas acontecerem. Profissionalmente já passei por várias indústrias e descobri que o que gosto é de desenvolver coisas e pô-las a andar”, explicou-nos sem rodeios durante uma entrevista em Lisboa, a cidade onde vive atualmente.

Considero-me um cidadão do mundo porque me consigo adaptar com facilidade

Antes de se mudar para terras lusas, Tati viveu em Angola até aos 12 anos e depois em Colónia, na Alemanha, até aos 21 anos, altura em que foi pai pela primeira vez, e em seguida viveu mais uns quantos anos na África do Sul e em Angola.

Sobre a “nova” casa, “sem sombra de dúvida Lisboa é dos melhores sítios para se viver, em termos de qualidade e custo de vida.” Tati tomou a decisão de mudar-se quando assumiu o controlo da marca Pelcor, mas em termos operacionais vai-se dividindo entre a capital portuguesa e a angolana.

“Considero-me um cidadão do mundo porque me consigo adaptar com facilidade aos pontos por onde vou passando. Acredito que devemos estar preparados para isso”.

A sua aptidão para os negócios foi-lhe transmitida pela família. Primeiro pelo pai, ligado à indústria automóvel, mas que já se encontra reformado, e depois pela sua irmã que já referimos e que Rui considera “uma referência e uma mulher dinâmica”.

Rui Tati
Foto: Miguel Roque para BANTUMEN

Contudo, o seu percurso, atual como CEO da Pelcor não é uma corrida em busca de uma meta inatingível.

“Estamos a construir uma marca, e, apesar da Pelcor já existir há mais de dez anos como uma marca portuguesa, não tinha o peso internacional que tem hoje. Estamos a fugir um bocado do conceito dos produtos apenas em cortiça para uma marca que é inspirada na sustentabilidade da cortiça. Nós somos hoje “inspired by Cork”, o que nos dá abertura para atuarmos em outros segmentos, pois se usarmos só a cortiça, acabaremos por ficar limitados. É importante criar produtos dentro das tendências da moda e que sejam ao mesmo tempo produtos sustentáveis, mas, temos que em paralelo ser ‘’business wise’’ sustentáveis também, por isto, hoje estamos com outras linhas que dão outro rosto à Pelcor. Os últimos dois anos têm sido de experiência para ver de facto até onde podemos chegar, e o que temos estado a descobrir é extraordinário.”

Abracei a oportunidade acreditando na sustentabilidade.

Com uma mudança de fundo, a empresa começou a atingir o mercado angolano. “O continente africano é o continente do futuro e está dentro da nossa estratégia de crescimento. Angola é-me muito especial e temos tido a aceitação do mercado angolano no que diz respeito aos produtos Pelcor.

Rui Tati
Foto: Miguel Roque para BANTUMEN

Neste momento estamos a desenvolver uma linha de produtos mais acessível. A cortiça é uma matéria-prima cara e portanto vamos apresentar alguns produtos com uma redução da quantidade de cortiça para torná-los mais acessíveis, pelo menos no que se refere ao artigo que mais circula no mercado angolano, o nosso chapéu. A cortiça embora seja uma matéria prima sustentável é nobre e cara, assim, com a nova geração dos Pelcor cap que apresentarão uma diminuição na quantidade de cortiça, irá fazer com que de facto mais pessoas possam ter acesso a este produto a um preço mais competitivo”, explica-nos o empresário.

O factor sustentabilidade é o estandarte da sua marca e é algo em que mesmo em casa sempre foi tido em conta. “Entro para este negócio por ter identificado uma oportunidade e abracei a oportunidade porque acredito que a sustentabilidade é o único caminho a seguir. A nível familiar, somos rigorosos e atentos ao que comemos, gostamos de praticar exercícios físicos e de adotar hábitos que nos permitam viver de forma mais saudável possível, isto é viver de forma sustentável”.

Sustentabilidade nem sempre é um sector que os negócios africanos privilegiam, mas para Tati é importante: “Já faz parte da nossa comunicação. Temos embaixadores oficiais da marca Pelcor e por essa via acabamos por comunicar a importância da sustentabilidade. Obviamente que faz parte das nossas ações alargar o impacto direto da sustentabilidade da marca no país, e já estamos a dar alguns passos nesse sentido.” No leque de celebridades que dão a cara pela Pelcor, estão Benvindo Magalhães, Stela Magalhães, casados e ambos apresentadores de televisão, e Gilmário Vemba que é um dos mais famosos homoristas do país, entre outros que podem ser vistos a representarem a marca no perfil de Instagram e outras redes sociais.

Rui Tati
Foto: Miguel Roque para BANTUMEN

A recente mudança na liderança governativa do país, é seguida de muito perto pelo empresário, seja por motivos profissionais como pessoais. “Eu acredito em Angola. Os governos são os governos, implementam políticas, mas acredito no meu país e acredito na boa vontade desta nova administração em querer fazer melhor. Acredito que não seja tarefa fácil mas é possível.”

Rui Tati
Foto: Miguel Roque para BANTUMEN

O crescimento das empresas angolanas dependem da estabilidade em vários sectores da sociedade. “Como empresário gostaria de ver, independentemente de tudo, um sistema judicial mais credível, mais sério e célere, e um sistema financeiro credível e estável, porque hoje em dia com as novas tecnologias e oportunidades que existem no mundo, se de facto acreditarmos que sozinhos sobrevivemos, nós, não vamos a lado nenhum.

Portanto, para a distribuição dos produtos Pelcor ou qualquer outra marca, o sistema financeiro e seus serviços, refiro-me aos cartões de débito e crédito, devem funcionar para que as compras online / e-commerce, seja uma realidade sem limitações. A outra questão são os custos da nossa Internet que continuam a ser um absurdo de tão cara. É um absurdo o que se gasta em comunicações em Angola. Não é viável, Ninguém que queira crescer consegue comportar com custos tão elevados de operação. Sendo a Internet hoje em dia considerada parte integral da infraestrutura básica de qualquer operação.

Temos jovens com apetite e fome de desenvolver…

Mas uma empresa não se constitui apenas entre quatro paredes. “Quanto à justiça, é um direito, é uma obrigação [do Estado] e neste momento eu tenho provas pessoais de que isso continua a ser um entrave muito grande, o que afasta qualquer tipo de negócio sério de entrar [no país). Um dos projetos em que estou a trabalhar em consultoria, no sector da energia e que, se for aceite, poderá ser determinante para que haja alguma redução a nível das despesas que temos neste sector, faz parte de entidades que exigem que esses pontos estejam salvaguardados e eu olho particularmente com alguma expectativa que haja algum desenvolvimento no sistema judicial e financeiro.”

Apesar do ceticismo, Rui acredita na mudança de paradigma governativo, depois de 34 anos de liderança Dos Santos. “Há sinais de que haverão mudanças. Olho para esses sinais mas contudo, não considero que seja de facto o suficiente para provarmos que vão haver mudanças. Continuo a ver situações que já deveriam ser diferentes e isso continua a colocar-nos na situação de sermos duvidosos. E como angolano, gostaria de ver que não há ninguém acima da lei.”

Rui Tati
Foto: Miguel Roque para BANTUMEN

Sobre o empreendedorismo africano, “lamentavelmente, somos os últimos a dar o valor que o nosso continente de facto tem. Estive na Semana Global do Empreendedorismo em Luanda e de facto nós temos um nível de criatividade e de plataformas muito grande. Temos jovens com apetite e fome de desenvolver coisas, mas aí está, voltamos à base. O básico de infraestruturas tem de estar criado para que esses projetos possam ser desenvolvidos e para que sejam sustentáveis.”