Morreu esta semana Sula (Zula) Karuhimbi, com 106 anos de idade, considerada uma heroína, pela sua luta e os salvamentos que fez durante o genocídio.

Karuhimbi viveu toda a sua vida na aldeia de Musamoin, no centro de Ruanda, era uma viúva hutu nascida numa família de curandeiros no distrito de Gitarama, e é lembrada como uma indakemwa (justa): hutus que salvaram vidas de tutsis durante o genocídio de 1994.

Karuhimbi nasceu em 1912, segundo as investigações da Universidade Católica de Louvain (Bélgica), da Universidade do Texas e do Memorial do Genocídio de Kigali, vivia sozinha,  trabalhava como curandeira e na agricultura, e para pagar as suas despesas alojava trabalhadores.

Quando a violência étnica chegou ao seu distrito pelos “Interahamwe”, a milícia hutu responsável pelo genocídio começou a massacrar os tutsis, Karuhimbi recusou-se a participar do massacre e, em vez disso, segundo o seu testemunho à Vice, escondeu dezenas de pessoas. “Eu pus as pessoas aqui no meu complexo e as cobri com folhas secas de feijões e cestos. Escondi tantas pessoas que nem sei alguns dos seus nomes. Escondi bebés encontrados por mim nas costas das suas mães mortas e os trouxe para aqui”.

“Zula disse à milícia interahamwe que, se entrassem no santuário, cairiam na ira de Nyabingi [culto religioso e um Deus Rastafari]. Eles estavam assustados e as nossas vidas foram salvas,” indicou Hassan Habiyakare, resgatado por Zula Karuhimbi durante o genocídio contra os tutsis.

Karuhimbi lembrou-se de ter visto a violência étnica em toda a sua vida e disse que, tal como ela, a sua família e sogros esconderam tutsis durante episódios anteriores de violência (presumivelmente na década de 1960, quando uma primeira onda de violência contra tutsis começou de repente, forçando muitos a fugir do país).

Como mulher, curandeira e viúva, acreditava-se que Karuhimbi era uma bruxa possuída pelos chamados Nyabingi, poderosos espíritos malignos. A centenária usou a crença contra a milícia: quando foi acusada de esconder tutsis na sua cabana ou no seu jardim, ela sugeriu que a milícia fosse verificasse a casa, mas que o risco de serem atacados pelo espírito maligno era forte.

Karuhimbi lembra-se, na altura, de ir ao quarto fazer barulho com pratos e pedras, e gritar palavras “mágicas” para membros da milícia, que se assustavam o suficiente para deixá-la sozinha. “Eu costumava dizer: Se eu morrer, vocês também morrerão, mas o [Nyabingi] vai-vos comer”.

Graças à sua manipulação das crenças tradicionais – até usou ervas venenosas para causar irritação na pele dos membros da milícia, fazendo-os acreditar que era feiticeira – Karuhimbi salvou até 100 tutsis, muitos Hutus e Twa (o terceiro grupo étnico do Ruanda) e até três homens brancos na sua casa, escondeu-os e alimentou-os com a comida plantada no seu terreno.

A brava mulher continuou a viver na mesma cabana que tinha antes do genocídio, mesmo depois de ter sido reconhecida como uma heróina. Hoje é celebrada como um exemplo de ubumuntu, uma palavra zulu da África do Sul, usada para expressar a luta contra o genocídio: “Eu sou porque tu és e tu és porque eu sou.”

“Se queres amar, começa primeiro com o teu vizinho” é uma frase marcante e lema de vida proferida por Sula Karuhimbi.