As redes sociais servem para falar de tudo e um pouco. Entre assuntos menos sérios, desafios perigosos e futilidades vão aparecendo movimentos inspiradores, cujo propósito é consciencializar. É com este último objetivo que falamos sobre a hashtag #SobrinhaTasGrande, que tem aumentado de popularidade no Twitter, nos últimos dias.

O movimento surgiu através de utilizadores angolanos que pretendem denunciar o assédio e abuso sexual sofrido por crianças, adolescentes e mulheres por membros da família, amigos ou desconhecidos. As denúncias fizeram-se chegar sem grandes demoras, através de quem sofreu na pele situações constrangedoras ou mesmo agressões sexuais e que, por medo ou vergonha, nunca chegaram a ser verbalizadas.

O abuso acontece, em grande parte, quando a pré-adolescente começa a desenvolver os seus atributos físicos. Começa com um elogio dúbio, uma mão “trapalhona”, uma carícia constrangedora, um abuso disfarçado de amor. Por vezes, ganha-se coragem e denuncia-se o abusador à pessoa mais chegada, que muitas vezes é a própria mãe. Contudo, em vez de proteção recebe-se descrédito ou faz-se “vista grossa” à situação, com medo de criar um caos no seio familiar.

No Twitter, a hashtag foi criada por um grupo de utilizadoras feministas, no dia 10 de novembro, e desde então vítimas têm publicado os seus testemunhos. Entre os vários tweets, há também homens incrédulos com o comportamento dos seus pares e que encorajam a atitude das mulheres que denunciam e pedem maior educação sexual, dentro e fora de casa, para que crianças, jovens e adultos possam identificar os sinais de alarme e travar ou prevenir um possível abuso sexual.

Há também quem ainda acredite, erradamente, que a roupa é a arma certa para impedir um abusador de levar as suas intenções avante e que cabe à mulher instruir as meninas sobre o potencial perigo a que incorrem quando usam uma peça de roupa mais curta. Contudo, a este tipo de mensagens, depressa chega a resposta de que o correcto é educar-se todo o indivíduo a respeitar o outro e que um adulto jamais poderá ter uma aproximação sexualmente inadequada sob uma criança.

Apesar de o tema ter surgido entre angolanos, este é transversal a toda a sociedade onde seres humanos coabitam. É necessário derrubar o tabu para se falar abertamente de sexualidade e prevenir situações que podem causar traumas profundos e irreversíveis.

Foi também com esse intuito que surgiu o polémico movimento #metoo, nos Estados Unidos, e que denunciou abusos sexuais, muitos ocorridos há vários anos, de magnatas da indústria cinematográfica. Quando dizemos “polémico” é em consideração ao descrédito dado às vítimas, que hoje são na sua maioria mulheres conhecidas do grande público, que só após vários anos decorridos e a fama alcançada decidiram revelar as situações a que foram submetidas por homens, na maioria das vezes, mais velhos e com poder económico e social.

Polémicas à parte, este tipo de movimentos são precisos porque o pecado não mora ao lado. O pecado mora na nossa casa e não vemos, ou não queremos ver. É necessário instigar a conversa. Instigar a denúncia. Instigar a educação sexual. Instigar o empoderamento feminino (porque enquanto uma mulher se sentir inferior a um homem, haverá todo um grupo de mulheres que terá medo de dizer “não” e de denunciar). É necessário ensinar que a vítima não é culpada. É urgente educar o homem, o jovem adolescente, o menino. #EducaOteuHomem. A educação é a maior arma para combater este mal. O nosso corpo, o corpo de qualquer pessoa, tem de ser respeitado.

Escrevo aqui e ali. Gosto de estórias que marcam histórias. Sou de Portugal, com veia cabo-verdiana, dois pés em Angola e coração em França. Africanidade, estilos de vida e música são os temas que me prendem a atenção, mas gosto de me distrair com politiquices e bizarrices.