Naruna Costa vence Kikito em Gramado e chama prémio de “boa vingança”

24 de Agosto de 2026
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Naruna Costa | ©Edison Vara

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"Meus pais foram lavradores e com eles eu aprendi que quando você trata bem a terra, o que a gente planta, dá. E quando conseguimos plantar uma semente, se ninguém for lá destruir, ela vai vingar. E esse prêmio pra mim significa isso, uma boa vingança."


Foi assim que Naruna Costa recebeu, na noite de 22 de agosto, o Kikito de Melhor Atriz Coadjuvante no 54.º Festival de Cinema de Gramado. A distinção chegou pela interpretação em Pele de Rinoceronte, de Marcello Ludwig Maia, mas o discurso levou o prémio para fora da carreira da atriz. "Representa a vingança da memória de mulheres que foram assassinadas nesse país. Milhares de mulheres, mortas por seus companheiros, seus namorados, seus colegas, que não aguentam ver as mulheres livres", acrescentou.


Em Pele de Rinoceronte, Naruna interpreta Maria Thereza, uma advogada criminalista que participa na preparação da acusação de um crime livremente inspirado no assassinato de Ângela Diniz, morta em 1976 pelo então companheiro Doca Street. A narrativa acompanha também Helena, repórter policial interpretada por Débora Falabella, enquanto Camila Lucciola dá corpo à mulher no centro do crime.


O caso Ângela Diniz tornou-se um marco na discussão sobre a violência contra as mulheres no Brasil. No primeiro julgamento de Doca Street, a defesa procurou justificar o crime através da chamada "legítima defesa da honra", numa estratégia que transferia para a vítima parte da responsabilidade pelo próprio assassinato. A reação de movimentos feministas ajudaria a levar o caso a novo julgamento, no qual Street recebeu uma pena de 15 anos de prisão. Décadas depois, o filme regressa àquela história sem a colocar apenas no passado.


Durante a exibição em Gramado, uma das cenas de Maria Thereza foi aplaudida antes mesmo de o filme terminar. A personagem ensaiava a argumentação que seria apresentada em tribunal, procurando desmontar a lógica que transformava a violência masculina numa resposta ao comportamento de uma mulher. Poucos dias depois, Naruna voltou ao palco do Palácio dos Festivais para receber o Kikito pela interpretação.


A atriz foi uma das vencedoras de uma edição em que Nosso Segredo, de Grace Passô, recebeu o Kikito de Melhor Filme. Teca Pereira venceu como Melhor Atriz por Feito Pipa, enquanto José Loreto, por Chorão: Só os Loucos Sabem, e Christian Malheiros, por Justino: Nos Bastidores do Reino, dividiram o prémio de Melhor Ator. Lázaro Ramos recebeu o de Melhor Ator Coadjuvante, também por Feito Pipa.


O nome de Naruna passa ainda a integrar uma história de intérpretes negros premiados em Gramado que atravessa várias gerações. Um dos momentos mais marcantes aconteceu em 2004, com Filhas do Vento, de Joel Zito Araújo. Naquela edição, Milton Gonçalves venceu como Melhor Ator, Ruth de Souza e Léa Garcia partilharam o Kikito de Melhor Atriz, Rocco Pitanga recebeu o de Melhor Ator Coadjuvante e Taís Araújo e Thalma de Freitas dividiram o prémio de Melhor Atriz Coadjuvante. Joel Zito Araújo venceu ainda na realização.


Mais de duas décadas depois, Naruna e Lázaro Ramos saíram premiados da mesma edição. Para Naruna, a presença negra nos espaços de criação e reconhecimento é uma questão que antecede Gramado. Em maio deste ano, numa entrevista à BANTUMEN, a atriz falava sobre a distância entre a composição racial do Brasil e aquilo que ainda aparece nos palcos e ecrãs. "Muitas coisas artísticas, infelizmente, retiraram os nossos corpos da cena. A gente não tem um espelho do Brasil pensando nas mídias, no audiovisual, no teatro, que represente a quantidade de pessoas negras, indígenas, trans. Então esses corpos, só de estarem na cena, já são políticos."


O Kikito chega num percurso que começou no teatro e há muito deixou de caber numa única linguagem. Nascida em Taboão da Serra, na Grande São Paulo, Naruna fundou em 2005, com outros artistas, o Grupo Clariô de Teatro, estrutura que continua ativa no território. No audiovisual, protagonizou "Irmandade", regressou ao universo da série em "Salve Geral: Irmandade" e passou por produções como "Todas as Flores", "Beleza Fatal" e "Falas Negras". Na música, integra As Clarianas, ao lado de Martinha Soares e Luana Lima.


Mais recentemente, participou em Dolores, de Marcelo Gomes e Maria Clara Escobar, e em "Coração Acelerado". A atriz tem ainda no horizonte as séries "Instinto", do Globoplay, e "Habeas Corpus", da Netflix, além dos filmes Amadeo, Delicadeza e Os Demônios da Rua Scarpa. Paralelamente, prepara a estreia na realização de longas-metragens com um documentário sobre o poeta Sérgio Vaz.


Gramado também não foi a primeira vez que um prémio colocou Naruna diante do significado de ser reconhecida num espaço onde mulheres negras chegaram tarde às categorias principais. Em 2018, Buraquinhos ou o Vento é Inimigo do Picumã valeu-lhe o Prémio APCA de Melhor Direção, tornando-a a primeira mulher negra a vencer a categoria. Quando recordou esse momento à BANTUMEN, em maio, preferiu concentrar-se menos no pioneirismo do que no que ele revelava: "Acho importante o anúncio de que nós existimos, e que perante essa realidade de que nunca fomos reconhecidos, algo precisa mudar."


Oito anos depois dessa APCA, Naruna saiu de Gramado com outro prémio nas mãos. Desta vez, regressou aos pais para encontrar as palavras. Falou de lavradores, de terra e de uma semente que vinga quando ninguém consegue destruí-la. E, perante um dos principais palcos do cinema brasileiro, dedicou a "boa vingança" não a si própria, mas à memória das mulheres que já não estavam ali para a ver.

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