A vida depois da mulher forte

June 15, 2026
A vida depois da mulher forte opiniao summit business school
Isabel Portugal | DR

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Um dia olhei para mim e percebi uma coisa desconfortável: continuava competente em tudo… menos em sentir-me viva. 


E talvez tenha sido precisamente essa procura incessante por algo que eu nem sabia nomear que me manteve à tona durante tanto tempo. 


Há uma fase da vida em que tudo acontece sem aviso. Quase como aquelas trends em que alguém muda de visual com um estalar de dedos. Só que aqui não há filtro, nem música de fundo, nem cortes ou edições. Um dia quase não pestanejamos e, quando olhamos ao espelho, a mulher que vemos parece-nos uma estranha. 


É verdade que a questão hormonal tem um peso enorme, mas nem tudo pode ser entregue ao acaso das hormonas. Existe também uma transformação silenciosa, emocional e identitária sobre a qual ainda se fala pouco. 


Um estudo publicado no Journal of Women & Aging refere que muitas mulheres na meia-idade relatam sentimentos de perda de identidade, invisibilidade social e desconexão pessoal, especialmente depois de anos a viver em função das responsabilidades, do trabalho e das expectativas externas.


Curiosamente, o mesmo estudo mostra que esta fase pode também tornar-se um poderoso ponto de reconstrução pessoal e redefinição de propósito e talvez seja exatamente isso. 


Passamos demasiado tempo agarradas a realidades construídas para sobreviver, quando na verdade o que queríamos era viver. São as responsabilidades, o trabalho que temos de manter. Os infinitos papéis que acumulamos, muitos deles sem guião. 


As expetativas dos outros que raramente correspondem às nossas. A necessidade constante de sermos funcionais, porque aprendemos que só assim somos validadas. E durante muito tempo somos até elogiadas por isso. Chamam-nos mulheres fortes. Resilientes. Mulheres que aguentam tudo. E muitas vezes até empunhamos isso como um Óscar invisível. “Quero agradecer este prémio à minha extraordinária capacidade de sobreviver enquanto perdia lentamente partes de mim.” 


E às vezes perdemos mesmo. Mas chega um dia em que percebemos uma coisa inquietante: quando deixarmos de ser úteis, produtivas e funcionais… quem sobra dentro de nós? 


Durante anos construí a minha identidade à volta do que fazia. E, sinceramente, o preço que paguei por isso foi alto demais. Porque depois a reinvenção é sempre muito mais bonita no papel. 


Na prática, reinventarmo-nos implica desconstruir verdades que durante anos tomámos como absolutas. Implica desapegarmo-nos do estatuto, dos papéis, das certezas e até da imagem que construímos sobre nós próprias. E isso pode ser assustador. Já vi pessoas mudarem de vida e voltarem atrás. 


Já vi outras permanecerem exatamente no mesmo lugar durante décadas por medo de perderem uma versão de si que, no fundo, já não existia. Hoje acredito menos em fórmulas e mais em experiência. 


Não há caminhos maiores nem menores. Há apenas caminhos que nos ensinam coisas diferentes. E curiosamente algumas das maiores lições chegam-nos através da simplicidade. Essa foi a maior aprendizagem dos últimos tempos. Se disser que a única coisa que quero aprender agora é contemplar, pode parecer pouco. Mas para mim talvez seja o desafio mais difícil de todos.


Cada vez acredito mais que a felicidade vive nas pequenas coisas. Mas não da forma romantizada que aprendemos nas redes sociais. Não é apenas tomar café numa esplanada em frente ao mar. A verdadeira beleza está em conseguir fazê-lo sem querer estar noutro lugar. Existe uma inquietação contemporânea quase silenciosa. Estamos sempre entre o sítio onde estamos e o sítio onde achamos que devíamos estar. Há um cantor que diz: “Estou bem onde não estou porque eu só quero ir aonde não vou.” Talvez a felicidade seja conseguir, um dia, reconciliar as duas coisas.


Ainda não cheguei lá. Mas foi precisamente essa inquietação que me trouxe até aqui.


Um caminho feito de avanços e recuos, coragem e dúvida, encontros e perdas. Um caminho onde me fui despindo de versões antigas para dar espaço a uma mulher mais inteira. E tem sido precisamente dessa reconstrução que nasce o C’alma Viva.


Um projeto que fala de autoestima, identidade, reinvenção e pertença. Porque acredito profundamente que autoestima veste bem. Muito melhor do que qualquer tendência passageira.


O C’alma Viva nasce também da necessidade de dar voz e espaço a mulheres que começam a sentir-se invisíveis para o mercado, para a sociedade e até para elas próprias. Mulheres com experiência, história, inteligência emocional e uma enorme capacidade de transformação, mas que continuam demasiadas vezes excluídas das conversas sobre futuro, inovação e crescimento.


Este caminho cruza-se também com a minha colaboração com a Summit, uma escola com a qual me identifico profundamente pelos valores, pela visão e pela forma como acredita que o conhecimento deve chegar às pessoas. Numa altura em que o ensino continua distante da realidade, encontrei aqui uma abordagem mais humana, próxima e consciente.


Porque quando o ensino é feito por pessoas que vivem verdadeiramente o terreno, deixa de ser apenas teoria e transforma-se em experiência. Uma experiência real, vivida, única, mas ao mesmo tempo transmissível.


E talvez seja precisamente aí que nasce a aprendizagem que verdadeiramente nos transforma. Talvez esteja na altura de olharmos para a maturidade feminina não como um fim, mas como uma integração. Uma fase onde já não precisamos provar tanto e podemos finalmente começar a construir-nos de dentro para fora. Hoje sei que reinventarmo-nos não significa apagar quem fomos e sim termos coragem para integrar todas as mulheres que já habitamos.


Creio convictamente que a minha maior verdade neste momento seja que ainda sou uma mulher em construção.

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