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Num mercado gourmet de Lisboa ou Paris, alguém paga dez euros por uma barra de chocolate com cacau de origem africana. A embalagem é sofisticada, a narrativa é de autenticidade. O lucro fica na Europa. O agricultor que colheu o cacau recebeu uma fração mínima desse valor. Esta cena repete-se em dezenas de mercados europeus e representa uma oportunidade que a lusofonia africana ainda está a deixar escapar.
O agrobusiness é muito mais do que agricultura. É o conjunto de atividades que vão da produção ao consumidor final: processamento, embalagem, logística, marketing e exportação. É onde a matéria-prima se transforma em produto com identidade e margem. Durante décadas, os países africanos lusófonos ocuparam os segmentos menos rentáveis das cadeias globais de valor. Produziram matérias-primas, enquanto a transformação industrial, a construção de marcas e a comercialização internacional ficaram concentradas noutros mercados. O resultado é conhecido: exporta-se volume, mas importa-se valor acrescentado.
Para lá do café, cacau e caju, existe um universo de produtos subaproveitados. A moringa de Moçambique tem procura crescente no mercado global dos superalimentos. O mel da Guiné-Bissau tem condições para aceder ao segmento premium europeu. As especiarias de São Tomé - pimenta, baunilha e canela - possuem características difíceis de replicar em sistemas industriais. A mandioca angolana já demonstrou o seu potencial ao servir de base à produção industrial de cerveja, reduzindo importações e apoiando agricultores locais.
A maior parte do valor económico é gerada nas etapas de transformação, certificação, distribuição e comercialização. Quando estas funções permanecem fora dos países produtores, a riqueza criada pelos recursos locais tende a beneficiar sobretudo empresas e mercados externos. É aqui que entra o agrobusiness como disciplina de gestão - e onde a formação de profissionais que entendam tanto de solos como de cadeias de valor se torna decisiva.
A lusofonia é também uma vantagem competitiva. Uma língua partilhada por 260 milhões de pessoas cria redes, mercados e canais que poucos espaços económicos africanos possuem. O mercado brasileiro, a diáspora em Portugal e a porta de entrada para a União Europeia continuam subaproveitados.
A questão não é apenas produzir mais. É decidir quem captura o valor criado pelos recursos africanos. Enquanto a transformação, a certificação e a comercialização permanecerem fora do continente, a maior parte da riqueza continuará a ser gerada noutros lugares. O desafio da próxima década passa por transformar produtos locais em marcas globais, conhecimento tradicional em inovação e recursos naturais em prosperidade partilhada.
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