Em "Jacaré", ninguém salva a Reboleira, ela salva-se a si própria

July 21, 2026
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Still do filme "Jacaré"

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Um assalto que corre mal. Um saco de dinheiro que desaparece sem explicação. É desta ausência que nasce Jacaré, o filme de Basil da Cunha que estreou na 79ª edição do Festival de Locarno e que fecha, segundo o próprio realizador, um ciclo de dezoito anos e oito obras rodadas na Reboleira. Entre a comédia de ação e a blaxploitation, o filme reúne quatro curtas e quatro longas de uma mesma geografia afetiva, e junta, numa última dança, atores que Basil da Cunha foi filmando ao longo de duas décadas.


Basil da Cunha chegou à Reboleira em 2008, filho de pai português e mãe suíça, com uma vida dividida entre Genebra, onde continua a dar aulas de cinema, e a Amadora, onde escolheu viver. Começou por filmar telediscos de hip hop com rapazes do bairro e, a partir daí, o cinema foi-se impondo como consequência natural de uma proximidade que já existia. Essa lógica manteve-se firme em todos os filmes seguintes: sem atores profissionais, sem elenco de fora, sempre com quem já vive ali.


Foi assim em Até Ver a Luz (2013), a primeira longa-metragem, e voltou a acontecer em O Fim do Mundo (2019), exibido também em Locarno, e mais tarde em Manga d'Terra. Ao longo destes filmes, os mesmos rostos foram regressando ao ecrã, envelhecendo com as personagens e com o próprio realizador. Basil da Cunha explica que essa recorrência deixou de ser opção estética para se tornar identidade de trabalho: "o filme só fica completo quando eles o tornam deles", diz, referindo-se aos atores. "Muitas vezes basta uma frase improvisada, um silêncio ou um gesto para uma cena ganhar uma verdade que eu nunca conseguiria escrever sozinho."


Em Jacaré, essa relação atinge o ponto mais coral de toda a trajetória. Em vez de seguir um único protagonista, o realizador optou por distribuir a história por um conjunto alargado de personagens, cada uma delas representando uma face diferente do bairro. A escolha, justifica, acompanha uma mudança na própria forma como o público consome narrativas hoje. "Acho que hoje o espectador já está habituado, graças às séries, a seguir histórias corais", nota. "Ganha-se outra coisa: a sensação de viver dentro de uma comunidade inteira, onde todas as vidas se cruzam e todas têm a mesma importância."


Basil da Cunha situa esta escolha estética numa reação ao modo como os bairros costumam ser filmados de fora. "Quem olha para os bairros de fora olha quase sempre com condescendência", constata, acrescentando que mesmo as melhores intenções acabam por produzir histórias que enfraquecem quem ali vive. Para si, "o cinema não pode olhar para o bairro com pena. Tem de celebrar a força, a beleza e o orgulho de quem mora ali." É essa recusa que o leva a querer transformar os moradores da Reboleira em heróis de cinema, filmados com um olhar de dentro. Em Jacaré, essa vontade ganha a sua forma mais radical: abraçar "um cinema mais popular, onde a ação, a comédia e a música convivem naturalmente", foi como descreveu, indo buscar à blaxploitation o mesmo mecanismo que o género aplicou às comunidades negras nos Estados Unidos, transformando o homem negro de vítima em protagonista. Achou que era "a forma mais bonita de escrever este último capítulo da nossa história: não através da nostalgia, mas da celebração."


O dinheiro desaparecido que desencadeia a trama funciona menos como enigma a resolver e mais como superfície onde cada personagem projeta o que já trazia consigo. Basil da Cunha descreve-o como "um espelho": revela mais sobre quem o procura do que sobre quem o roubou. Aplicado à Reboleira, o gesto da blaxploitation não pretende importar uma estética alheia. Segundo o realizador, a música cabo-verdiana, o humor e o policial americano dos anos 90 já conviviam naturalmente no quotidiano do bairro muito antes de qualquer câmara os filmar; o filme limita-se a dar forma a algo que já existia.


Nesse conjunto coral, a atriz Verónica Lii ocupa um lugar que se foi construindo desde a primeira aparição, ainda como figurante, em Até Ver a Luz. Cresceu depois em Manga d'Terra, onde, na descrição do realizador, "explodiu" e "trouxe ao filme uma força cómica que poucas pessoas têm". Em Jacaré, sem ser a protagonista principal, interpreta a mulher de um dos personagens centrais, uma figura ambiciosa e de personalidade forte que complica constantemente a vida do marido. A própria atriz prefere não avançar mais pormenores da personagem, para não comprometer o enredo, mas reconhece nela uma ambição e uma cobiça que, nas suas palavras, "cansam a cabeça" ao marido ao longo da história.


Da sua parte, Basil da Cunha relativiza a diferença entre papel principal e secundário. No cinema que faz, argumenta, todas as personagens têm direito ao seu momento de palco, e é frequente que sejam justamente as figuras secundárias a ficar na memória do espectador. Verónica Lii, por seu lado, associa essa continuidade a uma relação que ultrapassa o plano profissional. Descreve o realizador como alguém que "faz parte do bairro" e que, aos olhos de quem lá vive, já não é apenas quem vem filmar, mas alguém com quem se cresceu. Essa proximidade, diz, muda a forma como é dirigida em cena: não como intérprete contratada para uma função, mas como alguém que o realizador conhece e respeita há anos.


Da sua própria vida, Verónica Lii diz ter levado para a personagem sobretudo a leveza e o amor com que encara a profissão. Poder representar e ainda ter a oportunidade de levar os filhos para a verem trabalhar foi, nas suas palavras, "algo muito especial", uma experiência que já antecipa contar um dia aos netos.


Apesar do anúncio de que Jacaré fecha um ciclo, Basil da Cunha recusa a palavra despedida. "Continuo a viver lá e todos os que fazem parte desta família de atores vão continuar comigo nos próximos projetos", garante, descrevendo o momento antes como o fim de uma fase em que o coletivo trabalhou sempre como outsider e pode agora reclamar um lugar diferente, com filmes de super-heróis, terror ou séries policiais feitos a outra escala, mas sem perder a identidade construída ao longo destes anos. Verónica Lii, por seu turno, sente essa passagem de forma diferente, mais próxima do luto. Muitos dos lugares onde Basil da Cunha filmou ao longo destes anos já não existem, e há também pessoas que fizeram parte dessa história e que já partiram, o que traz, admite, "uma certa tristeza". Ainda assim, encontra consolo na ideia de que, graças aos filmes, "esses lugares e essas pessoas ficam eternizados" nas imagens e na memória de quem as vê.


Jacaré é já a quarta presença do realizador em Locarno, depois de O Fim do Mundo ter competido no festival em 2019 e de Manga d'Terra ter feito o mesmo em 2023, ano em que a curta "2720" somava ainda o Grande Prémio de Oberhausen a uma dezena de outras distinções. Sobre o que essa presença recorrente já mudou na vida de quem vive na Reboleira, Basil reconhece que viu moradores descobrirem talento para representar, viajarem para festivais e olharem para si próprios de outra maneira, algo que considera "mais real que muita treta que os políticos dizem fazer". É nesse ponto de encontro, entre o fim anunciado e a recusa de o aceitar como fim, que Jacaré chega a Locarno como o oitavo capítulo de uma história que a Reboleira e Basil da Cunha continuam a escrever juntos.

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