Quanto vale a cultura cabo-verdiana?

April 17, 2026
cabo verde cultura opiniao
©Elzo Rodrigues

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A escassez de recursos naturais, as secas constantes e a fraca industrialização fizeram do turismo e da cultura os maiores ativos de Cabo Verde. Nos últimos dias, estive em Cabo Verde, onde a BANTUMEN esteve a trabalhar na cobertura de dois dos mais internacionais eventos culturais do país: a Atlantic Music Expo - um mercado da música com 12 edições e reconhecido por facilitar a circulação de novos artistas nacionais e internacionais à escala global - e o Kriol Jazz Festival, tido como um dos 25 melhores festivais do mundo da famigerada categoria World Music (onde por norma cabe aquilo a que a cultura ocidental não sabe/quer nomear).


Estes dois festivais são distintos em termos de génese e propósito mas convergem em termos de geografias, línguas, memórias e mercados. O AME apresenta-se precisamente como uma plataforma de trocas transatlânticas e de contactos profissionais, antes de, no mesmo palco, o Kriol Jazz Festival tomar o testemunho e prolongar essa frequência cultural para o espaço do concerto, da fusão e do prestígio artístico.


Quanto mais conheço estes dois eventos, mais redutor me parece falar deles apenas como programação cultural, porque o que ali se constrói todos os anos é, no fundo, uma ideia de país. 


Na abertura do AME 2026, o ministro da Cultura, Augusto Veiga, disse que o festival ajuda a consolidar Cabo Verde como referência atlântica e global para a música. O primeiro-ministro foi ainda mais longe ao afirmar que o AME e o Kriol Jazz Festival são instrumentos fundamentais para promover o turismo cultural, dinamizar a economia criativa, valorizar artistas e projetar o país internacionalmente. Quando um governo usa esta linguagem está a reconhecer, mesmo que nem sempre tire todas as consequências disso, que a cultura é também política externa, economia e posicionamento estratégico.


Para se ter uma ideia, a imprensa especializada internacional - sobretudo francesa e inglesa - já classificou o KJF entre os 25 melhores festivais do mundo. Ao longo das edições, recebeu artistas de renome como Richard Bona, Seu Jorge, Esperanza Spalding, Kenny Garrett, Manu Dibango e Stanley Clarke, entre outros.


No que toca ao AME, os exemplos mais evidentes são Lucibela e Elida Almeida. No caso de Lucibela, foi selecionada em 2017, onde se tornou na grande revelação da edição; a seguir a esse momento, participou no Sfinks Festival, na Bélgica, e gravou o seu primeiro álbum, Laço Umbilical, lançado em 2018, com projeção internacional. Já Elida Almeida, que também passou pelo AME, é hoje um dos nomes cabo-verdianos com maior circulação fora do arquipélago. Outro nome importante é Dino D’Santiago, que aparece em 2016. Hoje, Dino é um artista com prémios como o MTV Europe Music Award e forte presença internacional no circuito da música lusófona e africana.


E é nestes exemplos concretos que começa o problema. Cabo Verde gosta, e com razão, de apresentar-se como hub cultural no Atlântico. Pelo menos, os recentes discursos institucionais têm insistido nesse lugar. Mas um hub não se constrói apenas com retórica, boa vontade e paixão dos agentes culturais. Constrói-se com continuidade, planeamento e, sobretudo, dinheiro. Constrói-se tratando festivais - entre outros eventos e empreendimentos - como estruturas e não como façanhas anuais para divertir alguns. E é aqui que a contradição se impõe: quanto mais o país usa estes eventos como prova da sua relevância cultural, mais fica exposto o desfasamento entre o valor simbólico que lhes atribui e a fragilidade material com que continuam a ser produzidos.


O AME é um bom exemplo dessa tensão. A edição de 2026 foi anunciada com artistas e delegados de cerca de 125 países, numa demonstração clara da sua capacidade de atração internacional. Ao mesmo tempo, a organização voltou a sublinhar que ano após ano continua a penar por financiamento. O orçamento global tinha sido projetado em 24 mil contos (cerca de 217 mil euros), mas acabou reduzido para 19 mil (cerca de 172 mil euros) após a desistência de alguns patrocinadores. Ou seja, um evento que se quer plataforma de internacionalização da música cabo-verdiana, que se relaciona com mercados externos e que produz resultados concretos para artistas nacionais, e até internacionais, continua a operar numa lógica de insuficiência.


É verdade que houve um passo importante em 2024, quando o governo formalizou um protocolo de cinco anos, com um apoio anual do Estado de 20 mil contos (cerca de 181 mil euros) repartido entre o AME e o KJF. O próprio ministro da Cultura, Augusto Veiga - cuja forte ligação à cultura dá-lhe também uma leitura mais próxima das fragilidades do sector - recordou agora que isso garante ao AME praticamente 50 por cento do orçamento até 2029. Não é pouco mas também não chega para resolver o essencial. Porque o que os próprios organizadores continuam a dizer é que os financiamentos não têm sido lineares e que o setor privado ainda não acompanha, de forma consequente, a dimensão do retorno cultural e reputacional deste tipo de eventos. Em bom rigor, o país já percebeu a importância simbólica da cultura, mas ainda não organiza à mesma escala a sua sustentabilidade.


O Kriol Jazz Festival - embora conte mais patrocínios - expõe a mesma contradição de forma talvez ainda mais nítida, porque junta prestígio artístico, identidade cabo-verdiana e vulnerabilidade financeira numa mesma equação. A 15.ª edição arrancou com uma homenagem a Zeca di Nha Reinalda, recebida pela filha Amarilda Fernandes Mendonça, num gesto carregado de significado sobre memória, continuidade e reconhecimento em vida. Logo depois, Nataniel Simas e Ineida Moniz trouxeram o repertório do homenageado para o presente, antes de o projeto Entre Ilhas, idealizado por Adê da Costa, abrir uma travessia entre arquipélagos e sonoridades atlânticas. É difícil imaginar melhor metáfora para Cabo Verde do que esta: um pequeno país insular a produzir centralidade, a partir da sua própria posição de travessia.


Na segunda noite, Ceuzany mostrou porque continua a ser uma força de palco incontornável, o cubano Alfredo Rodríguez trouxe a sofisticação do piano e a intimidade latino-atlântica, a brasileira Margareth Menezes reforçou a ponte entre a Bahia e a herança de Cesária Évora, e o festival confirmou essa vocação rara de pôr continentes a conversar sem perder o sotaque cabo-verdiano. Na última noite, Fattú Djakité, Ismaël Lô, Brooklyn Funk Essentials e Saad Tiouly fecharam o cartaz de uma edição que voltou a provar que a Praia consegue receber o mundo sem se descaracterizar. E isto não é um mero detalhe artístico ou algo circunscrito à programação, porque a partir do momento em que o país cria valor, atrai atenção internacional, gera circulação e constrói uma marca nacional, este evento torna-se num ativo político e económico.


E, no entanto, também aqui a conversa regressa sempre ao mesmo ponto. O orçamento do KJF rondou os 23 mil contos e o diretor José da Silva voltou a admitir dificuldades financeiras, atrasos na mobilização de patrocínios, problemas na aquisição de passagens e constrangimentos nos pagamentos iniciais exigidos pelos contratos com artistas. Estamos, portanto, a falar de um festival com reputação internacional consolidada, com forte adesão do público (a casa esteve sempre cheia ao longo dos três dias, dois deles com bilheteira) e capacidade comprovada de trazer artistas de vários continentes, que continua a viver num regime de esforço permanente. 


Ora, como é que um país que já percebeu o valor diplomático e turístico destes festivais continua a aceitá-los em regime de sobrevivência?


Talvez porque ainda se espera que a cultura prove incessantemente a sua utilidade, mesmo quando essa utilidade já está à vista de todos: emprego, turismo, visibilidade externa, educação, inclusão, autoestima nacional e exportação simbólica. E, curiosamente, mesmo quando faz tudo isso, continua a ser tratada como setor complementar e aplausos não pagam a estrutura.


Por isso, talvez, a pergunta não seja apenas quanto dinheiro vale a cultura em Cabo Verde. Talvez a pergunta mais honesta seja quanto mais terá a cultura de fazer para deixar de ser celebrada como exceção e passar a ser tratada como prioridade?

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