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Há trinta anos, em 1996, Ramiro Naka - músico emblemático da Guiné-Bissau e pai do ator Calixte Broisin-Doutaz - subiu o tapete vermelho do Festival de Cannes com Po de Sangue, filme do realizador guineense Flora Gomes. Este ano, em 2026, o destino fez matemática simples. Precisamente trinta anos depois, Calixte, filho do casal que celebrou em Cannes a coragem de contar histórias da Guiné-Bissau, sobe pela primeira vez as mesmas escadas, como ator protagonista do Émoi, da realizadora francesa Louise Coldefy.
"Penso que a simbologia é bonita", disse o artista à BANTUMEN. "Os meus pais falaram-nos muito de Po di Sangui às minhas irmãs e a mim. Das filmagens, depois da ida deles ao Festival de Cannes em 96, das pessoas que conheceram lá e do orgulho que sentiram ao apresentar um filme guineense. Então, quando soube que ia subir as escadas este ano, exatamente trinta anos depois, pensei comigo mesmo que tinha sorte e que o destino faz bem as coisas."
Este momento não é apenas sobre um jovem ator que conseguiu um papel importante. É também sobre continuidade, sobre uma geração de criadores guineenses que abriu portas, e uma geração nova que atravessa essas portas com a sua própria voz.
Calixte, ou "Cali", como é conhecido pelo lado guineense da família, é filho de mãe francesa e pai guineense refugiado político. Nasceu em Montreuil, França, em 2003, e cresceu entre duas culturas que só recentemente começaram a conversar de forma mais intencional na sua vida. A sua descoberta das raízes guineenses foi um processo gradual, musical no princípio, depois consciente.

Ramiro Naka no Festival de Cannes com "Po de Sangue", filme do realizador guineense Flora Gomes | DR
Quando fez a primeira viagem à Guiné-Bissau, aos 17 anos, foi como se a dimensão do legado do seu pai subitamente ganhasse profundidade. "Fez-me sentir estranho. Sobretudo porque, como acontece com muita gente, os pais não costumam falar muito - não se alongam em conversas, nem partilham muito sobre o passado", recorda. Mas aquela viagem mudou tudo: compreendeu a magnitude de Ramiro Naka como figura pública, como criador que atravessou continentes e carregou a música guineense para onde quer que fosse.
Émoi, o primeiro encontro amoroso, perturbado
O filme que o leva a Cannes é francês, da realizadora Louise Coldefy, e é exatamente sobre isto que Calixte fala de forma clara: pode-se estar em Cannes, pode-se ter identidade multifacetada, mas o cinema é o que é, universal, sem fronteiras.
"Émoi fala do primeiro deslumbramento amoroso", explica Calixte. "É um encontro entre uma jovem mulher (Milla Agid) e um jovem homem, personagem que eu interpreto. Mas esse encontro amoroso é perturbado por um terceiro protagonista (Thomas Gioria)."
O filme funciona como um retrato psicológico delicado, "já que um primeiro encontro amoroso é algo stressante e delicado, quando uma pessoa inconveniente estraga o momento, isso não ajuda em nada! O que tentámos mostrar é a multiplicidade de coisas que passam pela nossa cabeça durante um primeiro encontro amoroso, sobretudo nessa idade. O stress, o embaraço, a vontade de fazer tudo bem, entre muitas outras coisas."
Cannes e a representação africana, uma conversa necessária
A questão da representação africana em festivais europeus é legítima e Calixte não a evita. "Esses festivais europeus dão tanta visibilidade a um projeto. Do ponto de vista artístico e financeiro, é mais do que atrativo. Por isso compreendo que cineastas africanos queiram ser selecionados."
Mas a sua perspetiva é mais ampla: "Eu próprio estou muito feliz por estar aqui, e compreendo que fiquemos surpreendidos com o pequeno número de filmes africanos em seleção. Mas penso simplesmente que, com tudo o que o continente africano e os seus descendentes têm para contar, os festivais pan-africanos vão inevitavelmente ganhar importância nos próximos anos."
Ainda assim, Calixte nota e celebra a presença africana este ano. "Tive a sorte de ver Congo Boy, excelente filme de Rafiki Fariala. No caso da Guiné-Bissau, as coisas estão a avançar. Welket Bungué, também presente em Cannes, é um belo representante do país."
Quando perguntamos o que isto representa para si enquanto artista, tanto como filho de Ramiro Naka quanto como criador com voz própria, a resposta é honesta e sem dramatismo. "Do ponto de vista artístico, é um belo incentivo", começa. "Nesta profissão há poucas coisas concretas. Quando preparas um casting, não sabes se vais consegui-lo; quando entras num filme, tens de esperar um ano para ver o resultado. Quando escreves uma história, não sabes se ela vai ver a luz do dia. Na verdade, há muitas vezes em que a tua paciência e a tua força de abnegação são postas à prova, em que tens a impressão de estar a pedalar no vazio."
E é aqui que Cannes entra. "Mas neste festival encontro pessoas vindas de todo o lado: atores, profissionais da indústria, público dos meus projetos anteriores, e recebo muitos bons retornos sobre o meu trabalho. Isso é concreto; permite-me pensar que estou no caminho certo e que devo continuar a trabalhar." O que lhe lembra um velho ditado guineense: "Si kanua ka nkadja, no na tciga" [se a canoa não encalhar, lá chegaremos].
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