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O Grupo Desportivo e Recreativo de Portugal estava em colapso. Os miúdos do bairro estavam na rua às cinco da tarde sem ter onde estar, sem dinheiro para pagar os 40 ou 50 euros que custava jogar à bola. Miller Gama - Shorty Clay para quem o seguiu no Piri-piri na Língua - entrou, reabriu o clube e ficou. Hoje há 165 crianças entre os 4 e os 16 anos com treino, equipamento e acompanhamento psicológico. Ele é o presidente e o treinador clube.
Não é a história que se esperaria de alguém que passou anos a construir uma voz pública a partir da palavra, primeiro no rap, depois no comentário, agora num podcast mas Clay não vê no seu percurso nenhuma contradição. A lógica é a mesma desde o início: identificar o que falta e tentar colmatar. O que mudou foi o sítio onde isso acontece.
O “Piri-piri na Língua” foi, durante anos, um espaço de comentário direto sobre racismo e representação em Portugal, num formato que ele sempre recusou reduzir a entretenimento. Chamava-lhe serviço público. A audiência cresceu, o debate existiu, e houve um momento em que a voz dele chegava a sítios onde este tipo de conversa raramente entrava. Ao mesmo tempo, não esconde algum ressentimento e admite que viu temas que trabalhou tornarem-se notícia durante duas semanas e desaparecer. Viu ideias que desenvolveu aparecerem noutros sítios sem que o seu nome surgisse. Ficou com a sensação, que verbaliza sem dramatismo, de ter estado à frente do tempo sem que isso se traduzisse em nada de concreto. "Se calhar vou ser entendido daqui a uns anos."
“Somos poucos para somar e estamos sempre a dividir”
Clay

Clay | ©BANTUMEN
O PodBANG, projeto mais recente, em que aparece como host, é mais lento e deliberadamente mais aberto: mais interessado no que os outros têm para dizer, menos construído à volta da sua própria voz. Mas a questão que o orienta continua a ser a mesma: o que acontece depois de a conversa terminar? "Se eu tiver que deixar de tocar 50 pessoas como um palhaço, mais vale tocar cinco pessoas como alguém de valor."
É essa pergunta (e resposta) que explica o clube. Os miúdos do bairro não precisavam de mais alguém com teoria sobre o que lhes faltava. Precisavam de um sítio onde estar, de uma rotina que estruturasse a semana, do tipo de pertença que um clube cria quase sem querer: o treino que não se falta, o colega que espera, o treinador que nota quando alguém não aparece. Tudo isso estava a falhar. Clay tratou do assunto da única forma que conhece, foi lá. "Os putos hoje têm um sonho", conta-nos
O clube é também a resposta mais concreta que encontrou para algo que o preocupa há muito mais tempo. Os negros em Portugal, diz, são "poucos para somar e sempre a dividir", dispersos, sem cadeia, sem capacidade de resposta coletiva quando é preciso. Não é falta de talento nem de argumento. É a ausência de estruturas que durem, que acumulem, que passem de uma geração para a seguinte. Clay conhece bem essa ausência porque tentou combatê-la a partir da palavra e percebeu os limites do que a palavra sozinha consegue fazer. O que defende é a ocupação de espaços abertos com qualidade e complexidade suficientes para tornar a caricatura mais difícil de sustentar. A diferença entre as duas coisas é a diferença entre pedir lugar e construir presença. O clube não resolve o problema todo, mas é uma estrutura que existe, que funciona todas as tardes, e que ninguém lhe pode tirar.
No fim da conversa, quando lhe perguntam o que mais o assusta, a resposta não tem nada de político. É não estar cá para os filhos. Não estar presente tempo suficiente para lhes fazer falta. Quando lhe pedem uma última verdade pública, para. "Ainda não estou pronto porque ainda não consegui."
É a constatação de quem sabe que há muito por fazer e que esse muito inclui olhar para as novas gerações (e para os seus respetivos sonhos). Não há respostas fechadas, mas há um clube na Amadora com 165 crianças. É um começo.
Relembramos-te que podes ouvir os nossos podcasts através da Apple Podcasts e Spotify e as entrevistas vídeo estão disponíveis no nosso canal de YouTube.
Para sugerir correções ou assuntos que gostarias de ler, ver ou ouvir na BANTUMEN, envia-nos um email para redacao@bantumen.com.
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