Cremilda Medina e as lágrimas que nasceram de dentro para fora

May 10, 2026

Partilhar

Cremilda Medina isolou-se do mundo para fazer o seu terceiro álbum. Fechou a porta, baixou a luz, e deixou entrar sentimentos que não eram sequer seus. Eram os dos compositores que estudou, das cantoras de outrora que pesquisou e das mornas que estavam a cair no esquecimento. O resultado chama-se Lágrima, tem 13 faixas, é feito exclusivamente de cordas, e foi lançado em abril deste ano. Não é uma coincidência que se chame assim: desde as maquetes até aos ensaios de apresentação, as lágrimas nunca pararam de correr. Esta cabo-verdiana de 34 anos, nascida no Mindelo - a mesma ilha que deu Cesária Évora ao mundo -, é hoje uma das vozes mais comprometidas com a preservação da morna, o género musical de Cabo Verde reconhecido pela UNESCO como Património Cultural Imaterial da Humanidade. A BANTUMEN sentou-se com ela para perceber o que custou chegar aqui e o que significa não parar.


O Lágrima começou como uma candidatura a um edital do Ministério da Cultura de Cabo Verde para gravar dois singles. Como é que dois singles se tornaram 13 mornas?


Foi uma necessidade. São músicas que não entraram nos discos anteriores - não entraram no Folclore, não entraram no Nova Aurora - e eu decidi juntar o útil ao agradável. Pensei: porque não trazer essas músicas que não vieram antes para este projecto, para esta lágrima que eu quero tirar de dentro para fora? E foi assim que surgiu. Eram dois temas, e dessa pesquisa que fiz, porque eu não queria algo simplório, evoluiu. No terceiro álbum eu queria explorar ao máximo, tanto a nível artístico como pessoa. E foi isso que aconteceu.

PUBLICIDADE

Universal - Calema xé dama
Cremilda medina lágrima

Cremilda Medina | ©BANTUMEN

Fala-nos dessa pesquisa. Foi um trabalho solitário?


Tive ajuda direta e indiretamente de muitas pessoas. Uma delas é o Humberto Ramos, que me ajudou na pesquisa - qualquer dúvida que eu tinha, recorri a ele: quem é que cantou esta música? Quando é que esta música foi gravada? E ele também fez sugestões. Uma delas é muito especial para mim: o Esperança, de Malaquias Costa. Eu sempre ouvi esta música em versão somente instrumental e sempre quis cantá-la. O Nando Andrade ajudou-me a encontrar a letra quando estávamos a fazer o Nova Aurora, mas eu senti que não estava preparada para cantar este tema. Guardei-o. Está no CD do Djack Monteiro, que se chama Sentimento. Tal como eu, muitas pessoas pensam que esta música só existe em versão instrumental, porque infelizmente em Cabo Verde temos muitos CDs, muitos compositores, muitos cantores que são pouco ouvidos e acabamos por ouvir músicas somente instrumentais sem saber que têm letra. E a Esperança tem. Estou muito feliz porque agora sinto que estou mais madura, e daí ter esperado esse tempo todo para a gravar.


Quantas lágrimas foram precisas para chegar ao resultado final?


Muitas, muitas. Isolei-me praticamente do mundo. Fiquei sozinha, tomei sentimentos que nunca senti, sentimentos que não são meus. Eu entrei no papel do compositor. Tornei esta música, e todas as outras que estão no Lágrima, minhas. Há músicas que tocam imenso. E durante todo o processo - da escolha, do idealizar a música, do sentar com o Paulino para fazer as maquetes, ir para o estúdio e encontrar a Maria Alice, a Ana Firmino, a Nancy Vieira - foram lágrimas do início ao fim. E agora estou a preparar apresentações e os ensaios também são a mesma coisa. É um misto de sentimentos, estou constantemente a lidar com essas emoções.


Antes, quando comecei, cantava por cantar. Não respeitava o compositor. E este tornou-se um dos meus lemas: respeitar o trabalho do outro. Porque hoje, se eu canto, é porque alguém teve aquele momento de luz, de inspiração e compôs. Há que respeitar.


O álbum é exclusivamente de cordas. Num mercado onde a música se tornou fast food, onde o Afrobeat e a Kizomba dominam, este é um projeto assumidamente à contracorrente. Porquê?


Eu já tinha essa vontade de fazer um disco somente de mornas. E juntei o útil ao agradável: as cordas, as noites tradicionais e a morna. Em Cabo Verde, a morna começou com cordas - uma guitarra, um cavaquinho. Com o passar dos anos entrou o baixo, o violino. Mas eu queria trazer, neste projeto, somente cordas. E até torna o álbum mais fácil de levar para o palco: quando já se tem o piano, a bateria, a percussão, já fica uma banda enorme. Antigamente o tradicional não era assim. Era somente cordas, e queríamos voltar a trazer isso.


Daí o convidar uma pessoa muito especial, o Armando Tito. Eu digo sempre: enquanto o Armando Tito estiver vivo, temos a obrigação de fazer o tradicional, principalmente a morna, presente neste trabalho. Quando fui a casa dele mostrar as músicas, ele disse-me: "Lembro de tocar esta música há imenso tempo com os meus colegas, na minha juventude." E ouvir aquilo, ver a delicadeza do Armando a tocar a guitarra, a dedilhar... é fantástico.


E o mercado está preparado para essa ousadia?


Eu acho que sim. É uma questão de dar oportunidade a este álbum. Não sou contra os outros estilos musicais - para lavar os ouvidos de quase quatro anos a trabalhar, eu ouço outras coisas e aprecio outras coisas. Mas este disco eu digo que não é para ouvir: é para sentir. É para entregar, é para deixar-se sentir. Não é somente ouvir, é o trabalho fantástico do Paulino, a participação do Armando Tito, do Kaku Alves, da Maria Alice, da Ana Firmino, da Nancy Vieira. Este álbum é para se sentir. E hoje em dia o mundo está a correr, há muita informação. Precisamos parar e sentir.


Fala-nos do Paulino Vieira. Que critério teve na produção?


Quando convidámos o Paulino para fazer parte deste projeto, ele perguntou: "O que é que vocês querem?" E nós explicámos: "Paulino, queremos viajar no tempo. Vamos fazer de conta que estamos numa noite tradicional cabo-verdiana, a tocar sem aquela pressão de que tem que estar tudo perfeito." Então ele disse: "Querem praticamente uma noite cabo-verdiana num estúdio?" Sim, é exatamente isso. Fizemos as maquetes sentados os dois - ele a tocar, a sentir a música, eu a cantar. Tal como as músicas estão na maquete, a estrutura, a duração, o que está gravado - eu não queria tirar nem acrescentar nada. Disse-lhe: "Paulino, entrego-te este disco para fazeres aquilo que melhor sabes." E ele foi fazendo e enviando. E nós: "É isso mesmo que queremos." Eu digo que de cem por cento, oitenta ou noventa por cento é todo o amor e carinho que o Paulino entregou nos instrumentais e nos arranjos.

Cremilda medina lágrima

Cremilda Medina | ©BANTUMEN

E como é que tu, dentro do estúdio, te remeteste à ideia de que não estás num estúdio mas numa festa?


Eu não gosto de estúdio. Para mim é uma tortura, porque a voz tem que ir mais longe, tem que estar mais perfeita. Mas desta vez fui para o estúdio e disse ao Bobby, que captou o som: "Eu quero gravar este disco de uma forma diferente." Ele dizia que se deve gravar em pé, porque a voz sai melhor, com a luz a pleno. E eu não. Desta vez quis estar relaxada. Baixámos a luz. Peguei numa cadeira. Sentei. Disse a mim mesma: "Estou numa noite cabo-verdiana." Tinha estas músicas que já estudei durante anos, já sei os sentimentos porque os incorporei. É vamos deixar sair. E foi assim.


Não é fácil depois descolar destes sentimentos todos. Eu acredito que é como um ator a quem dão o papel de uma pessoa deprimida, frustrada - tem que tentar chegar perto disso. E muitos atores dizem que depois têm dificuldade em se distanciar do personagem. Eu engulo bem. Fiz estas músicas minhas, estes sentimentos meus. E acho que é daí que surge esta lágrima.


Ana Firmino, Nancy Vieira, Maria Alice - três vozes maiores de Cabo Verde presentes neste álbum. Que peso simbólico têm para a própria afirmação da Cremilda Medina?


É um peso real, porque nos tornámos amigas e elas dão-me feedback positivo não só das músicas em dueto, mas de todas as outras. E esse feedback tem um peso imenso. Ter a Nancy a dizer "fizeste-me lembrar o meu pai". Ter a Ana Firmino a dizer que o trabalho delas ao longo de todos esses anos está a dar bons frutos, que a nova geração está a pegar, e que há geração de qualidade. Ter a Maria Alice - eu gravei um tema que ela também gravou - a dizer "entregaste-te de corpo e alma, eu gostei". Tê-las neste disco, despidas de qualquer "eu tenho cinquenta anos de carreira, sessenta anos de carreira" - não. A humildade delas, acolherem-me e dizerem "estás no bom caminho"... Para mim tem um significado imenso.


Os dois temas inéditos, de Constantino Cardoso e Miguel Silva, que papel desempenham?


O Alma Maguód, do Constantino, ele ofereceu-mo há alguns anos. Eu disse-lhe: "Ainda não estou pronta para cantar esta música. Vamos deixar em stand-by." Ele ficou muito feliz quando soube que viria no Lágrima.


O Nha Coraçom Tá Triste, do Miguel, é uma homenagem a Teresa da Silva, viúva do Baltasar Lopes da Silva. Eu andei anos a pesquisar sobre ela, quem era, como cantava. E estava mais perto de mim do que sabia: era mãe do meu professor de Educação Física, que foi meu baixista durante muito tempo. E eu nunca lhe perguntei se conhecia Dona Teresa. Era bem capaz de ele dizer: "É minha mãe." E eu... Como assim?


Neste disco, eu pesquisei muito sobre as nossas cantoras de outrora - como é que elas cantavam, sem essa pressão do tem-que-estar-perfeito. Pesquisei sobre Hermínia d’Sal, sobre Dona Teresa. Como cantavam? Com aquele arrepiar. Nós, o povo cabo-verdiano, a nossa música não é música técnica. É música para se sentir.


Partilhas a naturalidade de São Vicente com Cesária Évora. Sentes essa pressão?


Normal. É normal. Para mim, ela é a minha estrela maior na música. Mas não sinto pressão de ser da mesma terra que a Cesária. Há quem diga que pode haver até um laço familiar, porque a mãe dela tinha o apelido Medina mas acho que não tem nada a ver. Sem pressão nenhuma. Sou muito grata por tudo o que ela fez, por tudo o que nos deixou. Fico muito feliz por poder cantar a minha terra de forma tradicional, de forma autêntica, de forma genuína, sem pressão do perfeito. Perfeito é o sentir e pôr cá para fora, com todo o amor e toda a responsabilidade do meu país.


Falas em responsabilidade. Já te chamaram embaixadora da morna, guardiã da tradição. Como é que te sentes com esses títulos?


Fico contente. Mas acho que não me enquadro em nenhum desses. A veracidade é o trabalho e o amor. O tradicional tem muitas dificuldades, se não fosse por amor, já não o tinha. Quer mais desafios do que facilidades, entre aspas? Então, é por amor. É por aí que eu vou. Não vou por título nenhum. Se formos por visualizações, números e seguidores, esquece: o tradicional infelizmente não tem. É difícil, mas não é por isso que vou deixar de fazer aquilo que acredito, aquilo que luto para preservar.


E se alguém te dissesse "tens que fazer"?


Jamais. Se eu fizer porque "tenho que", deixa de ser Cremilda. Eu faço porque sinto. No dia em que alguém me disser "Cremilda, tens que" estragou tudo, porque já deixei de sentir. E para mim o sentir vale mais do que qualquer obrigação.


Tens uma nomeação nos Estados Unidos, para os International Portuguese Music Awards, que te marcou profundamente. Porquê?


A minha primeira nomeação para mim é o meu maior prémio. Não trouxe o prémio, mas esta nomeação é a minha primeria. Porque para além de ser independente, não estou com nenhuma grande produtora. Os desafios que encontrámos, principalmente por ser o tradicional, por ser a morna, por eu não ser tão conhecida... Chegar aos Estados Unidos, ter esta nomeação e quando eles chamam o meu nome na sala, "e os nomeados são... Cremilda Medina, Raio de Sol", e são pessoas que eu nunca vi na vida, a aplaudirem e a acolherem Cabo Verde... Uau. Soube muito bem.


Que elementos da tua interpretação permitem que essa emoção crua da saudade seja compreendida em palcos internacionais?


Eu cresci muito agarrada à saia da minha mãe e às calças do meu pai. Lembro do primeiro dia de aulas que fui, chorei baba e ranho do início ao fim, porque sentia saudades de casa. Só queria ir para casa. E eu acho que é essa saudade que é o toque especial que carrego comigo até hoje. Posso ter 34 anos e ainda sinto que tenho cinco ou seis, atrás da minha mãe e do meu pai. E esse sentimento é o que me impulsiona. Um mar de sentimentos que tenho cá dentro e que ponho para fora.

Relembramos-te que podes ouvir os nossos podcasts através da Apple Podcasts e Spotify e as entrevistas vídeo estão disponíveis no nosso canal de YouTube.

Para sugerir correções ou assuntos que gostarias de ler, ver ou ouvir na BANTUMEN, envia-nos um email para redacao@bantumen.com.

bantumen.com desenvolvido por Bondhabits. Agência de marketing digital e desenvolvimento de websites e desenvolvimento de apps mobile