Positive Africa, como um fotógrafo cabo-verdiano está a devolver a África a narrativa sobre si própria

vadu rodrigues entrevista
Vadu Rodrigues | DR

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Em 2016, Vadu Rodrigues estava no primeiro ano como fotógrafo profissional quando um conhecido lhe fez uma pergunta simples: em quantos países africanos já tinha estado? Rodrigues foi listando destinos, cerca de 13 países, todos europeus, fruto do Erasmus e de uma curiosidade que o levara a percorrer o continente de mochila às costas. A pergunta de volta deixou-o surpreso: e África, quando é que conheceu? Na altura, só conhecia Cabo Verde, a ilha onde nasceu e cresceu numa família de pescadores da cidade da Praia.


Sem saber, aquela pergunta foi a base para o que viria a ser o Positive Africa, projeto que coordena e que o levou aos Estados Unidos. Mas antes de lá chegarmos, há que recuar a história uns anos e situá-la numa formação que não foi concluída porque, entretanto, surgiu uma paixão maior.


O facto de Vadu Rodrigues estar naquele momento a trabalhar como fotógrafo era, em si, improvável. A mãe tinha-o enviado para Portugal para estudar Engenharia Informática, um percurso previsível e com estabilidade profissional. A fotografia apareceu no último ano da licenciatura, quase por acaso, e a sensação foi suficientemente forte para decidir ali mesmo que era aquilo que queria fazer pelo resto da vida. “É estranho dizer”, recorda, “mas pensei: é isto que quero fazer.”


Ainda iniciou um mestrado em Engenharia Informática, mas a fotografia começou rapidamente a ocupar o espaço das aulas. As viagens sobrepunham-se às disciplinas, os trabalhos fotográficos substituíam os prazos académicos. O mestrado acabaria por ficar incompleto.

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“O objetivo é criar um movimento artístico que conta a nossa história pelas nossas lentes”

Vadu Rodrigues

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Vadu Rodrigues durante exposição | “Can We All Stop Pretending?” (2024 | DR

A fotografia tinha ganho, mas impunha as suas próprias condições: fotografar a sério exige equipamento, e Rodrigues era estudante imigrante, sem autorização de trabalho, dependente de uma bolsa de estudos. Para contornar a situação, aproveitou aquilo que ainda lhe restava do percurso académico: candidatou-se a dois programas de mobilidade europeia - Erasmus e Leonardo da Vinci - e utilizou os subsídios para comprar objetivas, flashes e um corpo de câmara.


Levaria cinco anos até conseguir o primeiro trabalho remunerado como fotógrafo profissional. Nesse intervalo, partilhava imagens nas redes sociais e vivia dos comentários de quem as via. Havia também uma frase que ficou, dita por alguém que, ao saber das suas ambições, declarou que nunca conseguiria ser fotógrafo profissional porque era pobre. Cita-a até hoje como ponto de referência: foi essa ideia que o obrigou a procurar alternativas quando os caminhos convencionais pareciam bloqueados. A formação em Engenharia Informática deixou-lhe precisamente isso, uma forma de pensar orientada para resolver problemas e construir soluções.


Foi então que a pergunta de 2016 começou a ganhar outro peso. Em vez de continuar a ignorar o continente africano, como percebeu que acontecia com frequência, decidiu fazer o contrário. Começou a pesquisar e encontrou quase sempre as mesmas narrativas: crises humanitárias ou safaris de luxo inacessíveis para quem viajava com orçamento limitado. 


Partiu sozinho. Fez uma rota pelo Senegal, Guiné-Bissau e Cabo Verde, viajou de mochila às costas, ficou em casa de conhecidos, circulou à noite sem incidentes. A experiência foi discordante de tudo o que havia lido. Mais do que isso, as conversas com residentes locais revelaram-lhe um desconforto recorrente em relação aos fotógrafos estrangeiros que chegavam ao continente, fotografavam sem pedir autorização e partiam sem qualquer responsabilidade sobre o destino das imagens. Foi a partir dessa viagem que criou o movimento Positive Africa.


Criado em 2016, em Portugal, o projeto assenta na contradição entre o continente vivido e o continente representado, levantando questões sobre quem produz as narrativas visuais sobre África e a partir de que lugar o faz. Conta-nos, a título de exemplo que durante o período colonial, os poderes europeus usaram a câmara fotográfica como instrumento de dominação e as fotografias serviam não só para documentar, mas também para afirmar autoridade e justificar o domínio colonial. 


Num ensaio publicado na New York Times Magazine em 2019, Teju Cole, escritor e crítico nigeriano-americano, argumentava que a afinidade entre a fotografia e a violência é visível no papel que a câmara desempenhou no colonialismo, no racismo científico e na vigilância, e nos duplos critérios que determinam o valor noticioso das imagens de corpos de diferentes raças. O que Rodrigues viu durante a viagem de 2016 era essa herança em funcionamento.


O Positive Africa parte da ideia de que as histórias do continente continuam a ser narradas sobretudo de fora para dentro, através do olhar de quem chega e parte. Rodrigues propõe o contrário: que sejam os próprios africanos a narrar as suas realidades. “O objetivo é criar um movimento artístico que conta a nossa história pelas nossas lentes.” Não se trata, sublinha, de construir uma visão idealizada de África. Contar histórias positivas não significa apagar dificuldades, mas questionar quem produz as imagens e quais os enquadramentos que se tornam dominantes.


O projeto financia-se com a fotografia comercial que desenvolve em paralelo, o que lhe permitiu durante mais de cinco anos percorrer o continente como freelancer, sem depender de um empregador ou de uma bolsa externa, replicando, de certa forma, o modelo de sobrevivência criativa que tinha aprendido ainda estudante em Lisboa.


Em 2022, foi selecionado para o Mandela Washington Fellowship, o programa de referência da Young African Leaders Initiative, que capacita jovens líderes africanos através de formação académica, treino de liderança e redes de contacto. A estadia levou-o ao campus da Michigan State University, onde encontrou uma comunidade académica que acolheu o seu projeto e lhe forneceu recursos para o expandir. 


Inscreveu-se num MFA em Studio Art, que concluiu na primavera de 2026. Em 2025, como parte desse percurso, viajou até à Universidade de Port Harcourt, na Nigéria, para ensinar fotografia pela primeira vez num contexto universitário. Trabalhou sobretudo com telemóveis, uma escolha deliberada desde o início. Era o equipamento que os jovens já tinham, eliminava a barreira do custo inicial e obrigava a concentrar a atenção na linguagem, na intenção, no enquadramento. “O telefone é um meio muito acessível para comunicar”, dizia aos alunos, “mas tens que saber comunicar.” 


Os estudantes do departamento de Artes eram já artistas; o trabalho de Rodrigues foi orientá-los para a responsabilidade da narrativa, o que significa fotografar a própria comunidade, o que se inclui e o que se exclui, como se constrói uma história sem distorcer a realidade. Transmitiu também o modelo económico que conhecia por experiência própria, que é possível profissionalizar uma prática criativa e criar autonomia a partir dela.


A exposição Can We All Stop Pretending?, estreada no outono de 2024 na Kresge Art Gallery da MSU, é a expressão mais direta do projeto até hoje. A mostra surgiu a partir de uma fotografia tirada no Gana, onde se deparou com uma criança de costas, a olhar para dois barcos atracados num rio, numa aldeia de pescadores onde havia passado tempo considerável. Para ele, a imagem dizia sonho, liberdade, infância, mas um visitante disse que lhe lembrava a pobreza. 


Percebeu, na altura, que se fosse uma criança branca, numa margem de rio europeia, talvez a mensagem fosse outra e que o estereótipo estava no espectador, não na fotografia.


"E se eu removesse a pele negra, mantendo a identidade?", perguntou a si mesmo. Decidiu fazê-lo, mantendo os gestos, as roupas e o cabelo, este último preservado como marcador de identidade. O objetivo? Mostrar que a ausência da pele não apaga as pessoas, mas expõe os mecanismos que a transformam no único elemento de leitura.  


Na mostra, as imagens coexistem com textos de Frantz Fanon e Amílcar Cabral, entre outros escritores africanos e da diáspora, que interrogam a identidade negra e a história colonial. O título resume a premissa do projeto: questionar o acordo tácito de fingir que o racismo não existe. “Toda a gente sabe que o racismo existe, mas toda a gente finge.” 


Em 2024, a cidade francesa de Parthenay convidou-o para co-curar A Photographic Journey to Cape Verde, organizada em associação com o Comité Olímpico de Cabo Verde em preparação para os Jogos Olímpicos de Paris. No mesmo ano, recebeu o Prémio Varg-Sullivan de Excelência nas Artes da MSU.


Agora, prestes a concluir o MFA, prepara uma viagem pela África Oriental e procura condições para fazer circular a exposição. Na Europa, se possível. Em África, necessariamente. É esta última ambição que Rodrigues articula com mais clareza e que dá coerência a todo o percurso: a necessidade de fazer uma arte que exista dentro do continente, que seja vista pelo povo africano, que alimente uma consciencialização que começa de dentro. 


“O meu compromisso é com o continente africano”, afirma. O trabalho, diz, só faz sentido completo se as histórias que conta não forem desligadas da sua origem.

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