Marcas por escrever
Contactos
Pesquisa
Pesquisar
Pesquisa
Partilhar
X
A 9 de outubro, DJ Campira lançou Só na Batucada, um EP de seis faixas em que o DJ e produtor moçambicano reúne aquilo que considera ser a sua identidade atual. O disco chega ao fim de mais de 13 anos de uma carreira que começou em Moçambique, mudou com a ida para Portugal e está cada vez mais virada para um circuito internacional. Ao lado de quatro temas já editados, “Garrafa”, com Iuri Stone, “Dama De Palop”, com MC Tchabaco, “Salva De Palmas”, com Dudu, e “Modo Galinha”, com Dg Batux e MC Pablo, o alinhamento inclui dois inéditos: “Borboleta”, de novo com MC Pablo, e “Modo Loucura”, com STIWANI.
Foi ao rever músicas produzidas em alturas diferentes que Campira percebeu que pertenciam ao mesmo universo, com uma sonoridade, uma energia e uma intenção comuns, e que cada uma contava uma parte da mesma história. “Foi sobretudo uma questão de sentimento e de sonoridade. À medida que fui construindo e ouvindo as músicas, percebi que existia uma ligação entre elas”, explica.
O título vem de uma frase que o DJ ouvia muitas vezes e que associa sobretudo ao público da Guiné-Bissau e à forma como respondia à energia dos seus sets. Com o tempo, “só na batucada” tornou-se uma espécie de assinatura informal do projeto e, sem grande planeamento, acabou por dar nome ao EP. A expressão passou a resumir o que o artista quer levar para a pista: movimento, alegria, festa, convívio e uma relação direta com quem dança. “É muito mais do que uma expressão musical. É uma expressão que me traz um sentimento e várias memórias: alegria, festa, convívio, boa energia e boa vibe”, conta.

DJ Campira | ©BANTUMEN/Nuno Silva
Campira situa o seu trabalho no afro house. Quando fala do género, porém, fala das várias geografias que o compõem, a África do Sul, Angola, Moçambique e o circuito que tem crescido em Portugal, e das formas como cada uma o foi tornando seu. “O meu som acaba por ser uma mistura dessas diferentes referências, sempre adaptada à minha identidade”, diz, a propósito de uma sonoridade que circula entre esses lugares sem se prender a nenhum.
O produtor foi construindo o projeto ao longo de mais de uma década de palcos, experiências e lançamentos. Entre eles destaca “Tatau” e “Platô Plô”, além de “Garrafa” e “Salva De Palmas”, que agora recupera no EP. Durante boa parte desse tempo, acompanhou a indústria sobretudo através da internet, mas sabia que esse acesso à distância não lhe permitia perceber por inteiro como funcionava o meio onde queria crescer. A mudança para Portugal, há cerca de cinco anos, aproximou-o das pistas, dos agentes, do público e das rotinas da profissão e mudou a forma como pensava a carreira. “Vir para Portugal permitiu-me estar no terreno, sentir a energia das pistas, perceber o público e estar diretamente ligado à realidade que queria alcançar”, recorda.
Precisou ainda de um período de observação e adaptação até sentir que tinha uma direção definida. Situa esse momento há cerca de quatro anos, quando começou a reconhecer o que distinguia o seu som e a perceber com mais precisão que caminho queria seguir. “Comecei a perceber verdadeiramente quem era o Campira, qual era a minha sonoridade e que identidade queria seguir. A partir daí, tudo começou a fazer mais sentido”, sublinha.
“Comecei a perceber verdadeiramente quem era o Campira”
DJ Campira
A dança, a celebração e o convívio pertencem, na sua leitura, às próprias culturas de onde vêm as referências com que trabalha. O equilíbrio entre festa e cultura está, segundo diz, no respeito, que passa por compreender os contextos, reconhecer os códigos culturais presentes na música e não construir uma identidade artificial. Moçambique, Portugal, Guiné-Bissau, Angola, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe são para ele mercados, mas também lugares ligados por referências, línguas, ritmos e experiências, e é como ponto de união entre estes territórios que entende a sua música. “A música permite aproximar pessoas que vêm de lugares diferentes, mas que partilham referências culturais, línguas, ritmos e experiências”, defende.
Ao escolher com quem trabalha, como fez no EP, procura sobretudo autenticidade: artistas que tragam uma identidade própria em vez de reproduzirem o que outros já estão a fazer. “Quero trabalhar com artistas que sejam eles próprios, que sejam criativos e que se sintam livres para criar”, afirma.
Fora das plataformas, o projeto soma em 2026 mais de 30 atuações entre África e Europa. Em palco, Campira já esteve ao lado de nomes como Black Coffee, DJ Maphorisa, Shimza, Da Capo e Cairo, e nos próximos meses tem datas marcadas em Portugal, na Suíça, em França e na Guiné-Bissau. A proximidade com artistas com presença internacional consolidada alargou-lhe a noção do que é possível. Vê nessas trajetórias a prova de que carreiras construídas a partir de contextos africanos podem chegar a uma escala global. “Estar próximo dessas realidades dá-me motivação e mostra-me que também é possível chegar mais longe”, diz.
Quando atua noutros mercados, sente uma responsabilidade particular em representar Moçambique e estende esse cuidado a todas as culturas com que se cruza. Gostava que o seu percurso servisse de referência a jovens moçambicanos e de outros países africanos de língua portuguesa e lhes mostrasse que uma carreira se constrói com trabalho, persistência e capacidade de adaptação.
No EP estão os anos de estrada, a mudança para Portugal, o crescimento do público digital, a relação com a pista, as colaborações e a vontade de chegar mais longe. É a partir dele que Campira quer experimentar outros registos dentro da própria identidade e chegar a novos territórios. “Quero explorar outros registos dentro da minha própria arte, experimentar novas possibilidades e continuar a evoluir musicalmente”, acrescenta. “Quero que as pessoas terminem de ouvir o EP com a mesma energia com que eu o criei: vontade de dançar, celebrar, conviver e aproveitar o momento”, conclui.
Relembramos-te que podes ouvir os nossos podcasts através da Apple Podcasts e Spotify e as entrevistas vídeo estão disponíveis no nosso canal de YouTube.
Para sugerir correções ou assuntos que gostarias de ler, ver ou ouvir na BANTUMEN, envia-nos um email para redacao@bantumen.com.
Recomendações
Marcas por escrever
Contactos