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APOCALIPTO, novo álbum do rapper Djimetta, é apresentado como o encerramento de um capítulo que começou em 2020 com Falsos Profetas e que, desde então, foi sendo prolongado por projetos, dúvidas, combates internos e uma afirmação cada vez mais clara dentro do hip hop moçambicano.
Para Djimetta, este é “o fim do início”. A frase podia soar a conceito fabricado, mas ganha outro peso quando o próprio a explica como o encerramento de um “capítulo embrionário” da sua carreira, marcado por “dor e tribulação”, aprendizagem, incerteza, medo, fragilidade e treino. A imagem que escolhe é certeira: “a penúltima fase da metamorfose de uma borboleta”. Ou seja, APOCALIPTO não é ainda o voo plenamente aberto, mas o momento em que a transformação já não pode ser evitada.
Nascido Edmilson Matavele, em Maputo, Djimetta cresceu ligado às artes antes de se entregar por completo à música. O seu primeiro sonho era ser artista plástico, pintar telas como Da Vinci ou Van Gogh, desenhar imagens que ficassem na memória. Essa relação com o visual não desapareceu. Apenas mudou de superfície. Hoje, em vez da tela, Djimetta trabalha a canção, a imagem, a personagem e o imaginário. O álbum vem acompanhado de uma curta-metragem, assumindo a música como parte de um universo maior, onde som e imagem se contaminam.
A sua primeira experiência em estúdio aconteceu em 2008. Mais tarde, integrou Sameblood, um dos movimentos centrais do hip hop moçambicano, também conhecido como Os Primos. Em 2012, lançou Payback Time Mixtape, o seu primeiro projeto a solo enquanto membro do coletivo, trabalho que ajudou a espalhar o seu nome nas ruas de Maputo. Depois viriam Djimmy Hendrixxx Mixtape, em 2017, Tempestade EP e Rainbow Monkey Mixtape, em 2018, até chegar a Falsos Profetas, em 2020, o projeto que o consolidou junto de uma nova geração de ouvintes.

DR
Esse disco é essencial para entender APOCALIPTO. Djimetta vê o novo álbum como continuação direta da série iniciada ali, depois prolongada por capítulos como Salavrados e Ketqueze. Mas também o encara como a sua conclusão. A partir daqui, diz, começa “uma nova viagem”. A ideia interessa porque retira APOCALIPTO do lugar de álbum isolado. Este é um ponto de chegada, mas também um corte. O rapper destrói uma versão anterior de si para tentar fazer nascer outra.
O próprio título trabalha nessa tensão. APOCALIPTO aponta para destruição, revelação e renascimento. Destruição de antigos paradigmas e “falsas profecias”. Revelação da verdade e da profecia do fim do início. Renascimento depois do caos provocado pela dor de conhecer essa verdade. O álbum vive nesse espaço escuro, onde a queda não é apenas tragédia, mas também ferramenta de reconstrução.
Esse peso não nasceu em abstração. O disco foi feito ao longo de três anos, período em que Djimetta atravessou mudanças pessoais, perdas, afastamentos, frustrações e uma aprendizagem difícil da paciência. Ao mesmo tempo, Moçambique enfrentou uma das suas fases políticas mais turbulentas dos últimos anos, com impacto direto na economia, no quotidiano e, inevitavelmente, na classe artística. A criação do álbum decorreu também durante um processo de recuperação física, depois de problemas de saúde cardiorrespiratórios que lhe trouxeram limitações respiratórias. A isso somaram-se ansiedade e depressão. “Ter melhorado em todos os sentidos no meio dessa tempestade foi uma grande conquista para mim”, assume.
É aqui que APOCALIPTO ganha densidade. Não estamos apenas perante um disco sobre superação, palavra já demasiado gasta para explicar quase tudo e quase nada. O que Djimetta descreve é mais concreto: um artista a tentar manter a voz quando o corpo falha, a confiança treme, o país aperta e as expectativas se desfazem. O álbum nasce dessa fricção entre colapso e disciplina.
Musicalmente, Djimetta fala de uma caneta “mais madura e objetiva”, de maior confiança na voz, na articulação das palavras e no delivery. A ambição também mudou. O rapper diz sentir que o projeto tem “um padrão de expansão global”, sem abandonar a raiz moçambicana. Essa tensão atravessa a sua carreira. Depois de viver vários anos na África do Sul e de fazer música em inglês, percebeu que a língua não precisa de ser uma barreira para a internacionalização. O exemplo de artistas africanos e latino-americanos reforçou essa convicção. Hoje, continua a usar o inglês em algumas músicas, mas de forma “moçambicanizada”, acreditando no potencial global da cultura do seu país.
Nesse equilíbrio entre expansão e origem, “Awena Bebé” surge como uma das chaves do álbum. Com Helio Beatz e Badjero, o tema tornou-se o ponto mais visível deste ciclo e caminha para números expressivos no YouTube. Djimetta admite que não esperava a reação, precisamente por a música se afastar do seu registo habitual. Talvez seja aí que esteja a força: “Awena Bebé” junta a pulsação dançável, a identidade moçambicana do Pandza e o seu universo trap, criando uma faixa mais aberta, sedutora e popular, sem cortar totalmente com a persona que construiu.
A arquitetura sonora do álbum tem ainda uma figura central: SENSEII. Mais do que produtor, surge aqui como diretor criativo da obra. Djimetta diz que ambos já tinham trabalhado em projetos anteriores, mas desta vez decidiram criar e dirigir um projeto em conjunto. O resultado procurava um “drama cinematográfico”, “um som meio escuro e vermelho”, capaz de dar mais vida ao alter ego “Djimmy Hendrixxx”. A descrição é visual, quase pictórica, e ajuda a perceber que APOCALIPTO não quer ser apenas uma sequência de faixas. Quer impor ambiente.
Os créditos de produção reforçam essa construção coletiva. SENSEII assina ou participa na produção de temas como “Minha Mala”, “Problemas”, “Vermelho” e “Bruno M Flow”, este último com Laylizzy, King Cizzy e Hyuta Cezar. Helio Beatz aparece na produção de “Awena Bebé” e também em “Na Minha Feat”, com Prince Chone. Há ainda nomes como Pinkocean, Diaxh, Marvinii, Mark Exodus, Daniel Riahh, Shalom Beatz, MFK, Fly4Real, Lucwhatscookin, Aiden Lair e Abtheproducer, numa ficha técnica que confirma a escala colaborativa do projeto.
As participações seguem a mesma lógica orgânica. Djimetta não fala de uma escolha feita a régua e esquadro. Diz que os convidados surgiram de relações reais, encontros e afinidades. T-Rex e Black Spygo já eram amigos de longa data. LilMac e Lil Boy aparecem num contexto mais recente, fruto de uma ligação rápida e de uma química que, segundo o rapper, funcionou de imediato. Do lado moçambicano, o elenco é vasto e expressivo: Mark Exodus, Laylizzy, Helio Beatz, Badjero, Hyuta Cezar, Stefania Leonel, King Cizzy, Prince Chone, Akon G, DJ Supaman, Cefa, entre outros. O disco torna-se, assim, não só uma afirmação individual, mas também um retrato de uma rede artística em movimento.
A curta-metragem APOCALIPTO prolonga essa ambição. Produzida pela Create Studio e realizada por Melchior Ferreira, surge como extensão audiovisual do álbum, inspirada nos temas, reflexões e enigmas das canções. A premissa centra-se nas lutas internas que acompanham qualquer processo de evolução, sobretudo quando o passado resiste e tenta sufocar um futuro de maior potencial. É uma ideia que dialoga diretamente com o discurso do próprio Djimetta. O álbum fala de transformação; o filme tenta dar corpo a essa guerra invisível.
Naturalmente, há aqui uma narrativa de grandeza que precisa de ser lida com cuidado. Quando se diz que APOCALIPTO eleva o padrão audiovisual em Moçambique ou que é a melhor obra de Djimetta, essas afirmações não devem ser aceites como factos fechados. São parte da ambição do projeto e da forma como a equipa o posiciona. O que se pode dizer, com mais segurança, é que o álbum mostra um artista interessado em expandir a escala da sua linguagem: mais conceito, mais imagem, mais colaborações, mais consciência de carreira.
No fim, talvez a frase que melhor resume este momento seja a mais dividida. Djimetta diz que o seu ego quer ser visto como “o maior super-herói” da sua geração em Moçambique, mas que o seu “eu superior” quer apenas que as gerações vindouras se inspirem nesses passos e façam um trabalho incrível pelo país. Entre uma coisa e outra vive APOCALIPTO: um disco que carrega ambição, ferida, pose, fé, vaidade, medo e vontade de deixar marca.
Não é pouco. Sobretudo num tempo em que muitos projetos se contentam em existir durante o ciclo curto de uma semana de lançamento. Djimetta parece querer outra coisa. Quer transformar o fim de uma fase numa declaração de permanência. E em APOCALIPTO, mesmo quando tudo soa a queda, o movimento principal é de ascensão.
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