Johnny Ramos esperou mais de 30 anos por esta noite no Coliseu e teve casa cheia

July 7, 2026
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Johnny Ramos | ©Fátima Djaló

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Ainda antes das portas do Coliseu dos Recreios abrirem a 4 de julho, já se ouviam os primeiros gritos do lado de fora. O calor fazia-se sentir e os leques tornaram-se indispensáveis entre as centenas de pessoas que aguardavam pelo início da noite.


Enquanto o público ocupava lentamente a sala, DJ Porron foi preparando o ambiente com uma seleção de temas internacionais, desde Rema a The Weekend, que colocou os primeiros espetadores a dançar. A noite tinha um significado grande para quem ali se encontrava. Depois de mais de três décadas de carreira, Johnny Ramos apresentava-se, pela primeira vez em nome próprio, no Coliseu. A estreia naquele palco histórico representava também um reconhecimento  do percurso feito desde os anos 90 e da ligação que continua a manter com a comunidade cabo-verdiana e com os fãs de diferentes países.


Quando as luzes se apagaram, quatro bailarinas ocuparam o palco e fizeram crescer a expetativa dentro da sala. A entrada de Johnny foi recebida com uma ovação e bastaram os primeiros acordes para perceber que o concerto seria construído por duas vozes: a do artista e a da plateia. Ao longo de cerca de três horas, o alinhamento percorreu diferentes momentos da sua carreira. “Tu e EU”, “Só Nos Dos”, “ A Minha Dama”, “A Mulher tem força” e “Bo Amor Ta Completam” foram alguns dos temas escolhidos para revisitar o repertório que o público conhecia de cor. Em vários momentos, Johnny aproximava o microfone da plateia e eram os próprios fãs que assumiam os refrões, do início ao fim num coro que nunca se calou.


O espetáculo foi também pensado para ser uma celebração partilhada. William Araujo, Hilar, Gil Semedo, Lisandro Cuxi e Nelson Freitas juntaram-se ao artista ao longo da noite. Cada convidado teve a oportunidade de interpretar um tema ao lado de Johnny e outro do seu próprio repertório, transformando o concerto num encontro entre várias vozes de diferentes gerações que se complementam. Foi na reta final do concerto que aconteceu um dos momentos mais marcantes da noite. Dois casais tornaram-se noivos em palco e receberam o tema “Bo amor Ta Completam” como dedicatória. O tema, que é considerado um dos seus maiores êxitos, incluído no primeiro álbum intitulado Só Jota, parou o Coliseu e reagiram todos em uníssono do início ao fim da música.


Falar de Johnny Ramos é percorrer uma parte significativa da evolução da música cabo-verdiana contemporânea. Nascido em Roterdão, nos Países Baixos, encontrou desde cedo na música um espaço de afirmação identitária e criativa. Foi, contudo, na década de 1990, que integrou o grupo Splash que marcou o início da sua trajetória artística. A experiência acumulada nesse período revelou-se decisiva para a afirmação de uma identidade musical própria e abriu caminho para a carreira a solo, iniciada poucos anos depois, em 2004, com o lançamento do seu primeiro álbum Só Jota. Entre a kizomba, o zouk e sonoridades afro-pop, Johnny construiu um universo musical marcado pelo romantismo, pela proximidade com as raízes cabo-verdianas e por uma constante abertura à inovação. 


Paralelamente à atividade como cantor e compositor, afirmou-se também como produtor musical e impulsionador de novos talentos, o que contribuiu para a internacionalização de artistas e repertórios oriundos do espaço lusófono africano. A sua discografia, que inclui álbuns como The Best of Johnny Ramos – 15 Anos de Sucesso (2011) e Angelina (2018), e The Future (2024), testemunham uma carreira destacada pela consistência e pela capacidade de dialogar com diferentes gerações de ouvintes. Mais do que um intérprete de sucessos, Johnny tornou-se uma figura incontornável na renovação da música cabo-verdiana contemporânea.


Quando as últimas músicas chegaram, poucos pareciam ter vontade de abandonar o Coliseu. As vozes continuavam afinadas com a dos artistas, como tinham estado desde o primeiro tema, e muitos saíram ainda a cantar os refrões que marcaram a noite. A estreia de Johnny Ramos no Coliseu dos Recreios acabou por ser mais do que um concerto comemorativo. Foi um encontro entre diferentes gerações de fãs, artistas e canções que marcaram um percurso de mais de três décadas. Uma noite em que a música serviu de ponto de encontro e em que, por momentos, também abriu espaço para novas histórias começarem.

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