"Temos mais famosos do que artistas", Bonga

Bonga Festival MED entrevista
Bonga | ©BANTUMEN

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Aos 83 anos, com mais de 400 composições, dezenas de álbuns, prémios de governos de vários continentes acumulados numa casa em Lisboa e uma longa-metragem já feita sobre a carreira, Bonga reserva-se o direito que o estatuto e a idade agora permitem: o de dizer “não” e de decidir o que, como e com quem quer fazer. Tem filhos gémeos pequenos que precisam do pai em casa e a música hoje, embora importante, é menos urgente que o tempo que escolhe reservar para si e para os seus.


No Festival MED, em Loulé, onde o encontrámos poucas horas antes de subir ao Palco Cerca, a 27 de junho, o balanço de mais de cinquenta anos de trabalho surge e some depressa, substituído por outra urgência. "Para não se perder nada," repete ao longo de uma tarde em que o que falta pesa mais do que o que já foi. Num homem que nunca programou nada, que deixou a carreira acontecer disco a disco e solicitação a solicitação, a única coisa que parece incomodar é a ideia de que o rastro se apague. "Estou a tratar de uma personalidade de todo um povo que já existiu mas que deixou rastro. Este rastro é o canto." Mas tratar desse rastro pressupõe uma certeza sobre o que a música é, e sobre o que é, de facto, ser artista.


São essas convicções que percorremos, ao longo de toda a entrevista. Tanto reconhecimento, afirma, não se traduz em liberdade sem mais e exige, antes, disciplina. "Temos que ter um temperamento compatível com as reivindicações que fazemos." É esse temperamento, mais do que o estatuto, que o autoriza a falar do que vê.

O artista vai-se fazendo, não nasce do dia para a noite”

Bonga

Bonga Festival MED entrevista

Bonga e Marisa Mendes, em entrevista à BANTUMEN no MED | ©BANTUMEN 

"Temos mais famosos do que artistas. O artista vai-se fazendo, não nasce do dia para a noite”, começa por dizer-nos. Ao longo de décadas, Bonga construiu uma definição muito precisa, de prática e de observação, ancoradas no olhar e na escuta dos “cotas” com os quais foi convivendo e que, sem saber, asfaltaram parte do caminho. Dos nove irmãos, o músico era o único que acompanhava o pai com o reco-reco enquanto ele tocava concertina em casa. "Tomei o gosto aí." E faz questão de corrigir quem assume que tudo começou no desporto: por incrível que pareça, a música chegou primeiro. Foram os grupos folclóricos nos bairros de Luanda, os Kimbandas do Ritmo, os Kissueia, e a aprendizagem de que cantar tinha de começar pelos instrumentos típicos tradicionais, pelo batuque, por apurar o que se fazia enquanto se observavam os mais velhos. O Carnaval de Luanda foi nesse sentido uma escola particular e ao desfilar nos bairros, percebeu que aquilo era simultaneamente festa e manifestação sociopolítica, músicas cantadas contra o colono onde o colono não chegava. A criatividade que nasce disso exige “princípio, meio e fim.” E é desse património que nasce a relação com o género que viria a definir-lhe a obra: o semba foi reconhecimento, muito antes de ser uma escolha. "Era a nossa música, era o nosso fado, se quisermos. As nossas lamentações, as nossas alegrias, tudo passa pelo semba."


O desporto entrou depois, e Bonga fala dele com um orgulho que ainda hoje não esconde. Foram “Gloriosos anos, ao serviço do (nosso) glorioso," diz, a sorrir, sobre os anos de atletismo pelo Benfica, onde se tornou recordista nos 200 e nos 400 metros. Foi precisamente esse estatuto de estrela desportiva que lhe deu uma mobilidade que a maioria dos angolanos não tinha, e que usou para circular mensagens entre combatentes pela independência exilados e compatriotas em Angola. Quando em 1972 a polícia política portuguesa descobriu que Bonga Kwenda e José Adelino Barceló de Carvalho, o nome com que tinha nascido em Porto do Kipiri, no Bengo, a norte de Luanda, a fuga para Roterdão foi inevitável, e com ela o fim definitivo da carreira de atleta.


Foi aí, com o angolano Mário Rui Silva e o cabo-verdiano Humberto Bettencourt, que gravou o primeiro álbum em oito horas de estúdio. "A gente faz e atira. Sabia que aquilo tinha importância, mas importância para mim”, conta a propósito do álbum de estreia, que viria a tornar-se um clássico da música angolana. A voz rouca que em criança lhe valera ser dispensado do coro da igreja, "aqui só voz lírica" como lhe tinham dito, chegou aos ouvidos de um povo que se reconheceu nela imediatamente e o disco circulou clandestinamente por Angola com capas de outros fonogramas, chegou através de embarcadiços cabo-verdianos que foram presos por isso, e valeu-lhe um mandado de prisão pelas letras sediciosas. Bonga passou anos a mover-se entre a Alemanha, a Bélgica e a França até à independência em 1975.


"O disco deu um boom fantástico que fez de mim aquilo que sou na verdade." E tem consciência de que Angola 72 "continua a ter esse efeito.” Sobretudo porque a Angola que o disco cantou ainda não se resolveu. "Ainda estamos presentes, muitos de nós, com muita mágoa de termos mais sobrevivido do que vivido. Mas vivemos sempre com o recado presente, para que estas coisas mais não se repitam. Isso são coisas que nós dizemos a cantar, outros dizem a pintar, outros dizem a escrever, outros dizem a bailar. A arte africana é algo tão importante quanto viver." Angola tem petróleo e diamantes, tem uma terra rica em tudo, e tem gente que vive abaixo do necessário. "Isso é inadmissível”, afirma. A guerra criou o desentendimento, o desentendimento criou as feridas, "nós fomos divididos de várias formas," e o neocolonialismo que veio a seguir "entrou pela força, ganhou dinheiro com isso e degenerou." A certa altura, conta, teve de "dar a volta por cima" e recusar confiar em quem tinha maltratado muita gente, em quem tinha permitido situações que não tinham que existir. "Nós somos ingratos," diz, com a firmeza de quem transformou a mágoa em diagnóstico. Há, porém, um contrapeso que não ignora: hoje, há "muito mais gente mobilizada que não está a consentir determinados abusos," e a música que isso vai gerando, a que vem "lá de baixo, da tristeza" feita de quem retrata o quotidiano com verdade, não o deixa indiferente. "A gente não mente”, afirma, e a música "tem um papel preponderante.”

“A arte africana é algo tão importante quanto viver”

Bonga

É nesse terreno ambivalente que a sua relação com a nova geração de músicos se situa, e aqui Bonga não suaviza nada. "Há um lado positivo, mas é uma minoria que está a fazer uma música em atenção ao que os mais velhos já fizeram. Infelizmente, é uma minoria." Confrontado com a observação de que há cada vez mais cantores e cada vez menos instrumentistas, menos compositores, e mais gente que não aprende a tocar, Bonga concorda sem hesitar, e aponta a inexistência de uma mensagem clara como causa possível: “fala-se tudo e mais alguma coisa, principalmente no sentido da pornografia. Não é por aí. Não se está a avançar em nada, não se está a dizer nada. Pelo contrário, está-se a degenerar com toda uma classe artística." E vai mais longe ao assumi-lo como o “entusiasmo fácil” de quem faz uma música sem ter aprendido a tocar um instrumento, sem ter um caminho próprio.


As consequências, diz, transbordam para a sociedade, com uma juventude que "ficou carregada de tudo isso", que cede às facilidades em vez de fazer um percurso mais elaborado. Falta estudar, observar, absorver e compreender. É a mesma régua que aplicou a si próprio desde criança e, por isso, a reaproximação que faz aos mais novos não é condescendência. Quando alguém sugere que a geração mais nova perdeu o hábito de ouvir os mais velhos, corrige que “não se perdeu, porque eles ainda não tiveram." O hábito nunca chegou a existir para quem cresceu com outras distrações. Bonga não é, faz questão de dizer, o tipo de cota que tem medo de se pronunciar. Pronuncia-se. Fala "quando é aproximação e não violência", e é por isso que participa num álbum com dezassete jovens artistas, pela mesma lógica que o levou a fundar grupos folclóricos nos bairros de Luanda com 16 anos. "Mona Ki Ngi Xica”, uma das suas obras mais reconhecidas, é, nessa linha de pensamento, a prova de que a mensagem importa e de que a substância viaja, mesmo quando a língua não é entendida. Gravada em kimbundu, em Roterdão, em 1972, a canção entrou na banda sonora do filme de Cédric Klapisch Chacun Cherche Son Chat em 1996, foi cantada por Bonga no lendário Apollo Theater de Nova Iorque, foi revelada por Will Smith num programa de televisão francês em 2019 como a música do despertador, catapultando a faixa de 1972 para o topo do iTunes, e apareceu no ano passado a embalar uma campanha internacional da Maison Bugatti.


Quando perguntamos como é possível que o kimbundu chegue a públicos que não entendem uma palavra, responde sem hesitar: "Tenham a mesma fórmula que vocês têm quando ouvem a música anglófona. Foram comprar esses discos, ouvir a Aretha Franklin, a Whitney Houston, a Tina Turner, sem saber inglês. Então eu canto o meu kimbundu e tenho o mesmo impacto." Importa-lhe manter o ritmo, a africanidade, o envolvimento emocional que prescinde da compreensão literal como um elo de ligação que a língua não desmancha. A música sente-se para lá do idioma cantado, não fosse ele próprio a representação do homem que, pertencendo a vários lugares, nunca deixa de pertencer a um só: o país que o viu nascer, que cantou e continua a cantar, com todos os dissabores e prémios que daí advieram. São anos a rodar o mundo e na sua casa, em Lisboa, Bonga guarda os troféus e as menções honrosas de todas essas viagens.


O que falta, então, a um homem que já fez isto tudo? A pergunta devolve-se sempre à mesma resposta: garantir que o rastro não desaparece. "Cada ano era um disco, uma bomba pela positiva." A carreira aconteceu sem plano, sustentada pelas solicitações que chegam ainda hoje de vários cantos do mundo, e a continuidade é agora mais devagar, mais seletiva, mais próxima de Lisboa e dos filhos gémeos que crescem com o pai em casa. Mas ainda há coisas por registar. As mais de 400 composições continuam a ser trabalhadas e preservadas, para que de facto "não se perca nada." E Bonga continua a ser a mascote de uma geração que tem ensinamentos para dar a quem souber ouvir, mesmo que ouvir seja, como sempre foi, o passo que mais demora. "Carrego essa responsabilidade com muito gosto, com muita alegria e com muito apego”, conclui.

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