Os leões contam as suas histórias, agora na Gulbenkian

Novas Narrativas de Caça Jardim de Verão da Gulbenkian

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Entre 27 de junho e 12 de julho, os sete episódios da Novas Narrativas de Caça são exibidos no Estúdio do CAM, no âmbito do Jardim de Verão da Gulbenkian. Cada sessão é seguida de conversa. Luís Almeida, criador da série e curador do ciclo, fala sobre o que está em causa.


"Tanto aperto a mão a um branco como o pescoço a um preto." Quem o diz é Albano, o sogro, a meio do jantar em que conhece o namorado negro da filha. A cena é de Moamba, o episódio que abre a série Novas Narrativas de Caça, mas Luís Almeida ouviu a frase primeiro na vida real, aos dezanove anos, à mesa de casa de alguém. Levou anos a saber o que fazer com ela. "Lembrei-me desta história e pensei: o que é que passou na cabeça deste homem, para olhar na cara de alguém e dizer-lhe isto?" Em vez de devolver o golpe, perguntou-se o que havia de absurdo na situação e escreveu.


“Moamba” estreou na RTP Play a 14 de maio, junto com os outros seis episódios da série. Agora regressa à Gulbenkian, onde fez a antestreia, integrado no Jardim de Verão, evento que Almeida co-cura desde 2022 com Alexandra Oliveira Matos, sua sócia na produtora Many Takes. Ao longo de três fins de semana, cada episódio é exibido no Estúdio do CAM e seguido de uma conversa com atores, realizadores e convidados sobre os temas que levanta. É uma série que, como o próprio diz, procura o absurdo para aliviar o peso.


Leandro, o protagonista do Moamba, atravessa o jantar de família sem nunca baixar a cabeça. "Ele está sempre acima dos outros, porque na verdade é a única pessoa com alguma postura. Tipo: estou a observar-vos, vocês são todos doidos nesta mesa." A violência está lá, dita, sentida, inegável, mas as personagens de Almeida não se deixam definir por ela, e a ferramenta para isso é quase sempre o riso. "Acho engraçado o absurdo da vida” e a comédia serve para apontar sem solenizar. Na antestreia da Gulbenkian viu o efeito funcionar em direto: as pessoas reconheciam de onde vinha cada piada e riam-se na mesma, porque há situações em que, conclui, só dá para rir. Que seja ele a fazê-lo, e não alguém a quem encomendaram uma história sobre racismo, justifica-se pelo próprio percurso: Almeida é editor de formação e chegou à realização por uma falta, mais do que por vocação. "Houve uma fase na minha vida em que eu não tinha nada para editar, ninguém me dava nada. Então comecei a realizar porque precisava de coisas para editar." A câmara era o meio e isso deixou-o livre para escrever o que conhecia em vez de imaginar o que se esperava.


O cinema vinha de longe, por via de um primo mais velho que o levava à sala todas as semanas e lhe trazia cassetes e DVDs. "Sempre me fascinou imenso a sala de cinema, o negro, e durante aquelas duas horas eu vivia naquele mundinho." A ambição, contudo, era modesta e passava, na altura, por tornar-se editor, cortar filmes para outros. A Many Takes nasceu do mesmo pragmatismo: a pandemia chegou, o trabalho parou, e criar a própria produtora foi a saída possível. Com Alexandra Oliveira Matos, o que era freelancing ganhou nome e estrutura. Do documental De Sol a Sol, sobre a cultura hip hop, ao documentário Filhos do Meio, sobre o hip hop de Almada, a produtora foi sempre alternando encomenda comercial, "precisamos todos de pôr comida na mesa", com um propósito que Almeida enuncia sem rodeios: "É uma produtora de ficção que conta histórias negras e tenta dar oportunidade a realizadores, realizadoras e argumentistas que tenham essas histórias e que tenham vontade de as contar."


Novas Narrativas de Caça é onde esse propósito se torna mais explícito e mais exigente. Almeida chegou a pensar numa série inteiramente escrita por si, e foi a honestidade que o demoveu: "A minha experiência por si só era muito curta para a quantidade de histórias possíveis que a comunidade afrodescendente representa." A forma antológica resolve o problema da escala, sete universos, do Recursos Humanos ao distópico Sobrevivente, do Once You Go Black ao Codé, ao preço da profundidade que cada um poderia ter ganho com mais tempo. "As histórias ficam contidas ali naquele tempo", reconhece, e não descarta episódios mais longos numa eventual segunda temporada. Para encontrar os autores, fez aquilo que quem diz não haver criadores negros nunca faz: foi à procura. "Está imensa gente por aí, é uma questão de realmente pesquisar." Andou pelo Instagram, por curtas no YouTube, perguntou a amigos, e reuniu Gisela Casimiro, Lara Mesquita, Fábio Silva, Diogo Gazella Carvalho, Dércio Tomás Ferreira, Cláudia Semedo e Ana Lúcia Carvalho.


Que a série tenha chegado à televisão pública com apoio da iniciativa "Cinema pela Democracia", ligada às comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, através do ICA, deu-lhe a credibilidade para entrar num circuito que de outra forma se fecharia. "Conseguimos entrar no meio e dizer: temos a capacidade, conseguimos pensar projetos, estruturá-los, realizá-los e pô-los cá fora." A liberdade que a RTP lhe deu, da escrita ao corte final, foi total. O risco que o preocupa é outro, e está dentro: "Pode haver uma vontade geral de evitar assuntos incómodos. E quando digo isto, falo do pensamento geral dos criadores, não de obras minhas em específico." Por isso reivindica o direito a histórias negras que não vivam em permanente estado de exceção. "Há espaço para criarmos histórias negras em que é um romance entre duas pessoas negras e está tudo certo. Merecemos ver-nos de forma positiva, sem estarmos em constante batalha." É também com essa convicção que assina a curadoria do ciclo na Gulbenkian: levar estas histórias a este espaço ganha sentido "neste período em que vivemos, onde a extrema-direita continua a ganhar importância e começamos a perceber os caminhos deste governo."


O título da série vem do provérbio africano “até que os leões contem as suas próprias histórias, os caçadores serão sempre os heróis das narrativas de caça.” Para Almeida, traduz-se numa distinção simples, "há uma diferença entre fazer sobre e fazer com", que é, no fundo, o que a Many Takes existe para tornar real. A série surpreendeu-o na receção e confessa que ”não estava à espera que fosse tão bem recebida." Mas a surpresa não mudou o método. "Eu trabalho um bocado assim. Não ponho muitas expectativas nas coisas: bora fazer, e o que vier, veio." 


A 12 de julho, quando o último episódio for exibido no Estúdio do CAM e a conversa se abrir à sala, a série terá percorrido o caminho inteiro, da RTP Play para a Gulbenkian, do ecrã para o encontro. O que é, afinal, a única coisa que Almeida sempre quis: "Não há nada que eu goste mais do que as pessoas verem as coisas, que não fiquem escondidas numa gaveta."

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