Welket Bungué publica a obra poética do pai, Paulo Tambá Bungué

June 30, 2026
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Welket Bungué | ©Kristin Bethge

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Trinta anos depois da primeira edição, Cabaró, Djito Tem! regressa como gesto de memória, restituição e continuidade entre literatura guineense, cinema e diáspora. Obra poética de Paulo Tambá Bungué (1948–2002), o livro permaneceu praticamente inacessível ao público durante quase três décadas, mas nunca deixou de circular no espaço familiar, na criação artística do filho e nas obras que dele foram nascendo. Agora, chega numa nova edição revista e publicada por Welket Bungué, com lançamento marcado para 4 de julho de 2026 e já disponível em pré-venda na Amazon.


Publicado originalmente em 1996, Cabaró, Djito Tem! reúne a escrita poética de Paulo Tambá Bungué, poeta, engenheiro florestal, pensador humanista e filho da Guiné-Bissau. A nova edição chega trinta anos depois da primeira publicação, permitindo que uma nova geração de leitores tenha acesso a uma voz singular da literatura guineense contemporânea, marcada pelo cruzamento entre consciência histórica, reflexão social, espiritualidade, natureza e tradição oral africana.


O título da obra é, desde logo, uma chave de leitura. Cabaró é uma figura ancestral associada à tradição oral Bijagó, evocando o ancião que preserva a memória da comunidade, transmite conhecimento e mantém viva a ligação entre os vivos, os antepassados e o território. Lido hoje, esse sentido ganha uma dimensão ainda mais simbólica: tal como o Cabaró guarda e transmite a sabedoria coletiva, também Paulo Tambá Bungué continua a falar através dos seus versos, para lá do tempo em que viveu.


A obra foi concluída e publicada antes de vários acontecimentos que viriam a marcar profundamente a história recente da Guiné-Bissau, incluindo a guerra civil de 1998-1999, os ciclos de governação interrompida, o agravamento das migrações e a centralidade das urgências ecológicas no debate contemporâneo. Ainda assim, muitos dos temas abordados por Paulo Tambá Bungué permanecem atuais. Os seus poemas refletem sobre liberdade, responsabilidade coletiva, justiça social, unidade nacional, dignidade humana e relação entre o ser humano e a natureza.


Sem recorrer ao panfleto ou ao discurso partidário, a escrita de Paulo Tambá Bungué observa aquilo que atravessa os acontecimentos e permanece depois deles. Em poemas como Mudança, Emigrante, COBDE, Amigo ou A Floresta, surgem questões como a fragilidade das instituições, a distância entre governantes e governados, a desilusão perante promessas não cumpridas, os dilemas da diáspora africana e a necessidade de preservar laços comunitários. A sua poesia move-se entre o íntimo e o coletivo, entre a memória e a crítica, entre a palavra escrita e a sabedoria transmitida oralmente.


Ao longo dos últimos anos, a obra de Paulo Tambá Bungué atravessou o percurso artístico de Welket Bungué, cineasta, ator, performer, escritor e curador guineense radicado em Berlim. Fragmentos da escrita do pai inspiraram ou foram diretamente citados em trabalhos como Buôn (2015), Mensagem, Cacheu Cuntum, Mudança e Latitude Fénix (2025). Antes de regressarem ao papel, estes poemas passaram pelo cinema, pela performance, pela diáspora e pelo imaginário de uma nova geração artística.


Nas palavras de Welket Bungué, “este livro mostrou-me desde cedo que o nosso pai permanecia vivo, no espetro das suas palavras potentes, carregadas de profundidade e de sacrifício”. O artista acrescenta que os filmes que compõem a sua filmografia são moldados pela poesia e pela filosofia existencialista do pai.


A nova edição de Cabaró, Djito Tem! assume, por isso, uma dimensão que ultrapassa a reedição literária. Trata-se de um gesto de restituição histórica e afetiva, que devolve ao espaço público uma obra preservada durante anos pela memória familiar e pela criação artística. Ao publicar novamente o livro, Welket Bungué inscreve a voz do pai num debate mais amplo sobre arquivos africanos, transmissão intergeracional, memória cultural e apagamentos no campo literário dos países africanos de língua portuguesa.


Nascido na Guiné-Bissau em 1988, Welket Bungué tem construído uma carreira internacional marcada por práticas anti-coloniais, reflexão sobre identidade, diáspora, imaginação política e autorrepresentação. É cofundador da produtora KUSSA, licenciado em Teatro pela Escola Superior de Teatro e Cinema, em Lisboa, e pós-graduado em Performance pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. Desde 2021 integra a Academia Europeia de Cinema e, em 2024, tornou-se membro fundador da Fundação Bienal MoAC Biss e curador para as Artes Performativas e da Imagem em Movimento da primeira Bienal de Arte e Cultura de Bissau.


A sua obra cinematográfica tem sido apresentada em festivais e instituições como Berlinale, American Black Film Festival, BFI London Film Festival, Sheffield DocFest, Zanzibar International Film Festival, Africlap, Afrikamera, IndieLisboa, DocLisboa, Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro e Stockholm Dansfilmfestival. Em 2020, protagonizou Berlin Alexanderplatz, de Burhan Qurbani, apresentado em competição na Berlinale, papel que lhe valeu uma nomeação para Melhor Ator Principal nos Prémios da Academia Alemã de Cinema e o prémio de Melhor Ator no Festival Internacional de Cinema de Estocolmo.


Com Cabaró, Djito Tem!, o foco desloca-se agora para a origem de uma influência que atravessa a sua obra. A publicação revela a presença de Paulo Tambá Bungué como figura familiar e como matriz intelectual, poética e espiritual de uma prática artística que tem feito da memória um território de criação.


Num tempo marcado pela aceleração, pela fragmentação das narrativas coletivas e pela dificuldade de preservar arquivos africanos e afrodescendentes, o regresso de Cabaró, Djito Tem! propõe uma pausa para escutar. Escutar a voz de um poeta guineense que escreveu sobre o seu país sem perder de vista a condição humana. Escutar a memória de uma família transformada em obra pública. Escutar, também, aquilo que permanece quando a palavra atravessa gerações.


A nova edição de Cabaró, Djito Tem!, de Paulo Tambá Bungué, revista e publicada por Welket Bungué, será lançada a 4 de julho de 2026. A obra encontra-se disponível em pré-venda na Amazon.com, com acesso global.



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