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Para quem cria e trabalha sozinho, organizar o trabalho, encontrar com quem colaborar, chegar a clientes e pôr a criação no mercado sem uma estrutura de apoio à volta são alguns dos desafios que vão muito além do próprio ato de criar. Foi a pensar nesse vazio que Carlos Guedes começou, no final de 2024, a construir, no Bairro da Cruz Vermelha, na periferia de Lisboa, uma inteligência artificial pensada para criadores de língua portuguesa. Fê-lo sem financiamento externo, a partir de uma trajetória ligada à música, aos projetos comunitários e à intervenção cultural. É também dessa experiência que vêm, segundo a 2 LADOS, empresa que fundou, vários dos problemas que a DUA procura resolver.
A primeira versão da plataforma chegou ainda em 2025, construída, segundo a empresa, a partir de mais de um milhão de linhas de código próprio e sem recorrer à adaptação de modelos estrangeiros. Bastaram poucos meses, ainda segundo a 2 LADOS, para a empresa somar parcerias com a Google for Startups e a AWS, um sinal de tração técnica pouco comum para um projeto nascido sem capital externo. Foi sobre essa base que, em março de 2026, chegou a DUA 2.0, um sistema com capacidade de metacognição, no qual a inteligência artificial escrevia diariamente uma entrada num diário interno, refletindo sobre as interações do dia e ajustando o próprio comportamento. Foi também com esta versão que a DUA passou a comunicar em crioulo de Cabo Verde e em crioulo da Guiné-Bissau, além do português, construindo a sua base linguística a partir de conteúdos em crioulo recolhidos na internet e de comunicação direta com falantes dos dialetos, começando, no caso do cabo-verdiano, pela variante de Santiago, com possibilidade de expansão para a de São Vicente. Rui Santos, da equipa do projeto, explicou então à agência Lusa que o objetivo era chegar a comunidades que tendem a ficar à margem das evoluções tecnológicas.
Desde a versão 2.0, a DUA assume a figura de uma mulher negra de rastas, uma escolha que a 2 LADOS associa também à questão da representação num setor em que os bastidores continuam maioritariamente ocupados por figuras masculinas.
É nesse percurso que se insere a versão 3.0, apresentada em setembro, em Lisboa, que a empresa associa à marca dos 1.000 utilizadores registados, entre eles criadores de diferentes países da lusofonia. Uma ideia pode nascer no DUA Chat, ganhar forma nos Estúdios de música, imagem e vídeo, e ser organizada no Backstage, o módulo de gestão de projetos, agenda, documentos e tarefas da atividade criativa. A Comunidade liga criadores e profissionais através de perfis, publicações e conversas; o Radar reúne bolsas, concursos, residências e chamadas abertas, com apoio da equipa da DUA na preparação de candidaturas. O Market, cujo lançamento a empresa já anunciava para o primeiro semestre deste ano, chega agora integrado na versão 3.0 e permite comprar e vender arte e serviços, incluindo artigos e workshops. Na música, a KYNTAL assegura a distribuição digital e o acompanhamento de lançamentos, integrada no ecossistema mas com condições próprias. O acesso à Comunidade, ao Radar e ao Market é gratuito; as restantes ferramentas podem implicar custos específicos.
Este ano também trouxe dois reconhecimentos externos. Segundo a 2 LADOS, a empresa venceu a categoria de Empreendedorismo Criativo e Cultural da Mostra Nacional de Jovens Empreendedores, organizada pela Fundação da Juventude. Já confirmada de forma independente está a outra distinção: a DUA foi uma das nove finalistas nacionais do START Rise AI Challenge, iniciativa da Start Campus em parceria com a Porto Business School, ao lado de projetos como a Mena.ai ou a SpectrAll. As duas distinções ajudam a fechar um arco: em menos de dois anos, a DUA passou de um artista a escrever código sozinho para uma plataforma que a empresa apresenta hoje com mil utilizadores registados em diferentes países da lusofonia.
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