Há um fosso na edição portuguesa, Elga Fontes decidiu atravessá-lo e fundou a Kiala

July 23, 2026

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À primeira vista, o percurso de Elga Fontes parece desenhar uma carreira construída passo a passo. Tradutora, revisora de texto, editora e criadora de conteúdos, juntou essas funções nos últimos à Oficina Quem Me Lera, à coordenação da chancela Kiala e, mais recentemente, ao lançamento do podcast com o mesmo nome do projeto que iniciou há vários anos, como uma simples página de Instagram dedicada à leitura.


Mas Elga faz questão de desfazer rapidamente essa ideia inicial. "Nada do que eu sou hoje foi alguma vez um sonho para mim", começa por explicar. "Isto começou quando criei a minha página no Instagram, o Quem Me Lera, que era inicialmente uma página só para eu falar de livros, porque os meus amigos não gostavam de ler. Eu adorava e não tinha ninguém com quem desabafar.”


Foi dessa vontade de encontrar uma comunidade de leitores que nasceu o ponto de partida do seu percurso. Criada em 2019, a página Quem Me Lera começou por reunir recomendações de leitura e reflexões sobre literatura, tornando-se um espaço de encontro para leitores com interesses semelhantes. Sem um plano definido, o projeto foi crescendo ao mesmo tempo que a própria criadora e acabou por influenciar escolhas que viriam a moldar o seu futuro profissional.

"Há um fosso muito grande entre a literatura negra que existe e a que chega a Portugal"

Elga Fontes

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©BANTUMEN/Nuno Silva

A página acompanhou a licenciatura em Línguas e Culturas, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, e, mais tarde, o mestrado em Estudos Editoriais, na Universidade de Aveiro. Foi também durante esse percurso académico que começou a olhar para os livros para além da perspetiva de leitora. "A página foi crescendo comigo. Também influenciou a minha licenciatura e o meu mestrado. Fui descobrindo que, se gostava tanto de ler, talvez pudesse trabalhar com livros", recorda.


É na Oficina Quem Me Lera que presta serviços editoriais a editoras e autores, desde revisão de texto e tradução à edição, marketing editorial e coordenação de projetos. Apesar da diversidade de funções que desempenha, é na forma como olha para o mercado que surge um dos temas centrais do seu percurso: a representatividade. Para a revisora, existe um desfasamento entre a diversidade da literatura negra publicada internacionalmente e aquela que chega aos leitores portugueses.


"Há um fosso muito grande entre a literatura negra que existe e a literatura negra que chega a Portugal", afirma. "É muito triste que para ler um romance entre duas pessoas negras que não tem nada a ver com racismo, eu tenha de o ler em inglês ou noutra língua, porque não existe traduzido cá.” Foi após essa reflexão que em 2026, surgiu a Kiala, uma chancela da editora Vírgula d'Interrogação dedicada à publicação de autores negros. O nome, inspirado no kimbundu, remete para a ideia de tornar visível e dar luz, o que reflete a proposta editorial do projeto. Segundo Elga, a chancela procura responder a uma necessidade que identifica no mercado português. "A Kiala veio tentar criar uma ponte. Veio tentar tapar esse fosso, tentar concretizar este ideal de que as pessoas negras em Portugal também têm o direito de se verem representadas nos livros que leem." Elga defende que a comunidade “têm o direito de ler livros onde se conseguem imaginar em espaços onde não são apenas vítimas de violência e de racismo."


A Kiala procura publicar géneros desde romance, fantasia, ensaios e ficção de autores negros para público adulto e jovem adulto, focando-se num ângulo mais generalista. Ainda assim, para Elga, o principal desafio não está na identificação de obras ou autores mas na dificuldade de chegar aos leitores. Entre os obstáculos aponta a reduzida dimensão do mercado português, a dificuldade em criar comunidades de leitores e os constrangimentos da distribuição, uma realidade que, considera, continua a limitar a circulação de projetos editoriais independentes. “Em Portugal, as grandes distribuidoras não querem distribuir livros como estes e projectos como estes. Já recebemos muitos nãos, infelizmente.”


Apesar dos constrangimentos, o foco mantém-se na forma como descreve o futuro da Kiala e sobre o que pretende construir daqui para a frente. Elga tem como principal objetivo expandir o espaço, fortalecer o espaço de leitura em Portugal, trazendo diversos livros de diversos géneros e origens, tanto ocidentais como de autorias africanas.

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