“Estado Limite", a fase em que Mariela aceita ser a vilã da própria história

July 22, 2026
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Mariela | ©BANTUMEN/Nuno Silva

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Mariela cresceu entre Angola e Portugal, e é dessa dupla pertença que nasce a escrita musical que tem vindo a construir, ainda indecisa entre o R&B e o trap. "Estado Limite", nome do single mais recente, chega como o primeiro sinal de "Borderline", projeto que a cantora e compositora ainda está a montar e que, nesta fase inicial, recusa fechar-se num género só. A própria intérprete hesita ao descrever o som da faixa, que nasce próxima do reggae antes de se deslocar para o trap, com passagens que classifica como "trap rage". Ao lado dessas faixas mais duras, "Borderline" reserva também momentos construídos sobre jersey club, pensados para um registo mais romântico, sem que a compositora aceite que essa suavidade a aproxime do que chama de "lamechice". "A partir do momento em que fiz o som, as pessoas também não vão achar que é lamechas", garante.


A oscilação sonora acompanha a que a artista descreve na sua própria forma de estar. O nome do projeto vem precisamente daí, do estado clínico que dá nome ao termo "borderline" e à sua tradução portuguesa. "Vou dos zero aos cem. Estou sempre a alternar entre amor e ódio, há sempre uma montanha-russa. Por isso, estado limite”, afirma. Mas Mariela faz questão de circunscrever o alcance da expressão e descreve uma fase musical que está a atravessar enquanto compõe "Borderline", não uma premissa pessoal fixada para o resto do percurso.


É dentro dessa fase que "Estado Limite" ganha o seu sentido mais imediato: o de uma artista cansada de pedir desculpa por ser quem é. Durante anos, cada opinião veio acompanhada de uma ressalva, cada gesto de uma explicação, como se existir daquela forma fosse já uma falta a corrigir. "Cheguei a um momento em que tive de aceitar que tenho defeitos como qualquer pessoa", conta. "Os meus defeitos não me fazem uma pessoa pior do que os outros. Muitas vezes eu tentava diminuir-me, tentava amenizar as coisas quando não tinha nada que ver com isso. Isso é a minha opinião, não tenho de pedir desculpa por ser quem sou."

“Quero que todos vençam, desde que ninguém me atropele”

Mariela

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Mariela | ©BANTUMEN/Nuno Silva

É uma postura que faz questão de separar do ego, até porque, para a cantora, a faixa não nasce da vontade de se sobrepor a ninguém, mas da necessidade de proteger um espaço que já lhe pertence. "Quando percebo que não preciso de atacar as outras pessoas para ser ouvida, para o meu ponto ser compreendido, já não sinto que é uma faixa sobre querer ser a melhor. É mais do género: quero que todos vençam, desde que ninguém me atropele."


O mesmo raciocínio sustenta a forma como aborda os cortes e as amizades que não resistiram à mudança, tema recorrente na faixa e num território comum a boa parte do trap atual. A intérprete recusa esgotá-lo na fórmula do desabafo fácil: "O meu som não é só sobre isso. Essas quebras foram necessárias para eu chegar onde quero chegar." Transformar uma experiência pessoal em algo que outras pessoas reconheçam como seu exigiu um trabalho de tradução que a artista admite ainda estar a aprender a dominar: o equilíbrio entre dizer o que precisa de dizer e tornar isso compreensível para quem ouve de fora.


Ao recusar aceitar o que antes tolerava, Mariela sabe que corre o risco de ser lida como a vilã da história de outra pessoa, um papel que decidiu assumir sem resistência. "Tenho de aceitar que vou ser vista como vilã. Não tenho problema nenhum nisso, desde que saiba onde está a minha consciência." Para a compositora, dizer a verdade sobre o que aconteceu não é o mesmo que falar mal de alguém, ainda que o resultado pareça idêntico a quem está do lado de fora. "Se estive a falar verdade sobre o que aconteceu, será que sou mesmo vilã? Também não tenho problema em ser, até porque não há boa história sem um bom vilão."


Questionada sobre se essa personagem se limita ao palco ou a acompanha também fora dele, a artista procura ser a mesma pessoa nos dois contextos, guiada pela vontade de agir da forma que considera correta. Foi essa mesma naturalidade que a levou ao Festival MIL Lisboa, em outubro de 2025, quando se apresentou ao lado de nomes da eletrónica, do pop e do rap internacional numa das edições do festival dedicadas a talentos emergentes. Desde então, tem mantido essa presença nos palcos de Lisboa, de showcases no terraço da Casa Capitão a uma participação no encerramento da primeira temporada de "Fora do Centro", websérie da Associação Sons da Lusofonia produzida em parceria com a BANTUMEN.


É essa continuidade entre o que canta e o que vive, entre os palcos que já pisou e o projeto que ainda está a moldar, que dá corpo a "Estado Limite" para lá da faixa em si, o primeiro traço de um "Borderline" que se recusa a pedir licença para existir.

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