Depois de um ano em silêncio, Evandro Lambula regressa com o EP mais ousado da sua carreira

September 10, 2026
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Evandro Lambula | ©BANTUMEN/Nuno Silva

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Um ano de silêncio discográfico e uma quantidade de publicações nas redes sociais que quase ninguém deu pela ausência: foi esse o período de recolhimento que Evandro Lambula precisou para chegar ao projeto que agora tem entre mãos. Um EP de seis faixas, pensado inicialmente para quatro, alargado a pedido do próprio público, que junta kuduro, afrobeat, tarraxinha e uma fusão entre rap e kuduro, com lançamento previsto para este ano. "Há muita criatividade, muito ritmo, muita evolução", antecipa, e diz-se "super ansioso" por entregar o projeto a quem o segue.


O tempo parado, conta, foi importante para repensar a própria "roupagem" artística e cortar com a produtora onde trabalhou durante anos, ao lado de Edmilson, a quem dedica gratidão repetida ao longo da conversa. "Quando o filho cresce, tens de mandar para a rua. Vai, vira-te", resume, comparando essa saída a um amadurecimento que já não podia adiar. É desse corte, e da reflexão que o antecedeu, que nasce o EP: uma resposta deliberada à pergunta que diz ter-se colocado durante meses: o que quer o público, e como se reinventa um artista sem perder aquilo que o tornou reconhecível.


Para perceber essa reinvenção, é preciso recuar à génese: Lourenço Jerónimo Francisco falava com o corpo antes de abrir a boca para cantar. "Eu acho que a dança é o principal da minha carreira", diz. "Há pessoas que, para me verem a cantar, têm de me ver a dançar." Já não é, garante, "aquele tipo de cantor que ainda tem de contratar bailarinos" e as coreografias nascem juntamente com os temas, moldadas pelos mesmos toques e cadências que compõem e é essa disciplina de corpo e ritmo, mais do que qualquer outra coisa, que o novo EP promete levar um passo adiante, com a tal mistura de géneros que nunca tinha experimentado em disco.


Radicado em Portugal, mantém sobre Angola uma vigilância quase obsessiva: o que as pessoas andam a fazer, o que anda a fazer a malta do kuduro, que toques estão a nascer nas ruas de Luanda. Reconhece que a espontaneidade de uma Angola onde a música "sai de esquina em esquina" não se copia a régua e esquadro na diáspora. Ainda assim, encontrou em terras lusas um processo próprio: compõe em convívio, entre conversas e brincadeiras com amigos, deixando que as letras se escrevam sozinhas a partir do quotidiano - o mesmo método que voltou a usar para escrever as faixas do EP.

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Evandro Lambula | ©BANTUMEN/Nuno Silva

"Já estou a sentir Portugal como a minha segunda Angola", diz, e sublinha a recetividade do público português ao kuduro. Há, porém, uma constatação que lhe pesa: sente que a sua arte é por vezes mais valorizada aqui do que na própria Angola, onde o género ainda carrega resíduos de marginalização. "Aqui valorizam mais a nossa cultura, o nosso ritmo, a nossa dança do que em Angola", afirma, sem esconder que a frase dói ao dizê-la. Ainda assim, recusa o vitimismo e assume que “quando é para fazer, onde há vinte pessoas, dez vão criticar, dez vão gostar."


Recua, se lhe perguntarem pela origem dessa disciplina, ao concurso de dança, "BAI Dança com Ritmo", em que participou há cerca de cinco ou seis anos. Não hesita em ler o episódio como preparação divina para o momento em que vive agora: "Eu não sabia que eu estaria aqui, mas o teu lugar chega no momento certo. O concurso foi o momento de preparação para o que estava para acontecer." É essa leitura - dificuldade como antecâmara de conquista - que aplica também ao ano de silêncio que atravessou antes do projeto que se prepara para apresentar.


O percurso que o trouxe até este novo capítulo tem sido pautado por parcerias com nomes como DJ Kalisboy, Flávio Ngola, DJ Kadu e, mais recentemente, Fábio Dance, com quem colaborou no tema “Tom Tom”. Prefere trabalhar com produtores e DJs a colaborar com outros cantores, e explica o porquê com uma lógica de tribo: "Os DJs têm uma união grande. Acho que os cantores têm de ter mais união nas colaborações." Aka M atribui parte da sua formação em disciplina e composição; a Flávio Ngola, a génese de temas como "Sede Acumulada" - nascido de uma noite nos Mártires em que uma amiga negava teimosamente estar embriagada, episódio que se transformou em letra quase sem querer. Também "Assobio das Seis", hoje com meio milhão de visualizações no YouTube, nasceu de uma brincadeira entre amigos sobre despertadores e atrasos crónicos. "Não promovi essa música. Mas quando é para cair na graça de Deus, a música cai e voa", resume e é essa mesma confiança, entre espontaneidade e fé, que diz ter guiado a escrita do EP.


Entre os temas que quer preservar nas novas faixas está a língua. E a nova música “Nfulo”, com o DJ Kadu e Fukinho Dans Le Beat Quoi, é o exemplo perfeito disso. Cantada em lingala, língua falada nas províncias do norte de Angola (como Uíge e Zaire) devido à proximidade geográfica e ao trânsito fronteiriço com os Congos, a faixa reflete essa forte influência cultural. Então, cantar nas línguas nacionais de Angola é, para Lambula, um gesto de resistência: "É muito importante, como artista, manter a identidade linguística viva, porque infelizmente muitos jovens já não falam as línguas nacionais." Fazê-lo é também uma forma de preservar a cultura enquanto africano e é essa identidade, mais do que qualquer cálculo de mercado, que diz ter norteado as seis faixas por vir.


Falta pouco para o lançamento e Evandro Lambula afirma que este é, nas suas palavras, "o melhor momento da carreira". Resta ao público confirmar se o EP cumpre a promessa de evolução que o artista lhe atribui.

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