Marcas por escrever
Contactos
Pesquisa
Pesquisar
Pesquisa

Partilhar
X
A primeira exposição individual do artista visual brasileiro foi inaugurada na Fábrica Braço de Prata, numa noite que colocou o público frente a frente com pinturas de grande formato atravessadas pela memória, pela experiência migratória e por figuras em permanente transformação.
Na noite de 10 de setembro, a Sala Beauvoir da Fábrica Braço de Prata, em Lisboa, recebeu a inauguração de “Câmara de Ecos / Echoes Chamber”, primeira exposição individual de Fillipe Coutiño. O artista visual brasileiro, radicado na capital portuguesa, apresentou um conjunto recente de pinturas de grande formato perante um público que circulou entre as obras, observou os detalhes das telas e ocupou uma sala dominada por rostos, máscaras, olhos, corpos e formas difíceis de fixar numa única interpretação.
As fotografias da inauguração, assinadas por Iñigo Perez / chumbo, ajudam a perceber esse primeiro encontro entre as obras e quem as observa. Há visitantes que se aproximam das telas, outros que recuam para compreender as composições na totalidade e pequenos grupos que conversam diante das pinturas. A presença humana permite também perceber a dimensão física do trabalho de Coutiño: algumas das figuras ocupam quase por completo as superfícies e parecem estabelecer uma relação direta com quem está do outro lado.
Apresentada pela chumbo, galeria de arte contemporânea, em parceria com a Fábrica Braço de Prata, “Câmara de Ecos” reúne trabalhos recentes realizados em acrílico e spray sobre tela. No centro da exposição está uma linguagem visual construída a partir da repetição e da transformação. Determinados elementos atravessam várias obras, mas nunca regressam exatamente iguais. Alteram-se as cores, as proporções, o enquadramento e a própria organização dos corpos.

©Iñigo Perez

©Iñigo Perez
Essa lógica encontra correspondência direta no título escolhido para a exposição. Um eco nasce de uma origem reconhecível, mas regressa condicionado pelo espaço e pela distância que percorreu. Na pintura de Coutiño, a memória parece obedecer a um mecanismo semelhante: imagens regressam deformadas, intensificadas ou parcialmente esquecidas, criando uma espécie de arquivo visual onde passado e presente se sobrepõem.
A experiência migratória é uma das matérias que atravessam esse processo. Coutiño viveu e trabalhou entre Brasil, Estados Unidos, Espanha e Portugal, estando atualmente radicado em Lisboa. As mudanças de território surgem no seu trabalho juntamente com as memórias de infância e episódios de rutura pessoal, não como uma narrativa autobiográfica direta, mas através de fragmentos, símbolos e imagens que reaparecem sob novas configurações.
Visualmente, esse percurso resulta numa pintura de forte presença física. Contornos espessos convivem com manchas de cor intensa e figuras antropomórficas em que as fronteiras entre rosto, máscara e corpo se tornam instáveis. A chumbo enquadra a produção do artista entre a figuração neoexpressionista e a abstração simbólica, referências que ajudam a situar uma linguagem na qual a figura humana permanece reconhecível, mas é constantemente desmontada e reconstruída.
A montagem da exposição reforça essa sensação de continuidade. As obras aparecem lado a lado como diferentes versões de um mesmo universo, permitindo encontrar relações entre formas, gestos e personagens. Em alguns trabalhos, os olhos assumem uma presença dominante; noutros, são os corpos ou as máscaras que concentram a tensão da composição. Há também telas onde diferentes elementos parecem coexistir sem uma narrativa evidente, deixando espaço para que cada visitante construa a sua própria leitura.
Entre as obras que integram “Câmara de Ecos” encontram-se “Anatomia do Eco”, “Dramas Artificiais”, “Transfiguração”, “Bandoleiros”, “Eco do Descobrimento” e “Bicho de Sete Cabeças”. Os próprios títulos prolongam algumas das questões presentes nas pinturas: transformação, conflito, identidade, multiplicidade e memória.
Na noite de abertura, essas questões encontraram um novo contexto na presença do público. As fotografias mostram as obras rodeadas de visitantes de diferentes gerações, num ambiente onde o momento social de uma inauguração coexistiu com a observação individual. Em várias imagens, as pessoas surgem de costas para a câmara e de frente para as pinturas, tornando-se parte temporária da composição e dando escala aos rostos e corpos criados por Coutiño.
“Câmara de Ecos” assinala assim um novo momento no percurso do artista brasileiro em Lisboa. A primeira exposição individual reúne numa mesma sala diferentes referências que têm acompanhado a sua produção e evidencia uma pintura construída sobre deslocamento, memória e transformação, mas suficientemente aberta para não impor uma única leitura sobre aquilo que apresenta.
Relembramos-te que podes ouvir os nossos podcasts através da Apple Podcasts e Spotify e as entrevistas vídeo estão disponíveis no nosso canal de YouTube.
Para sugerir correções ou assuntos que gostarias de ler, ver ou ouvir na BANTUMEN, envia-nos um email para redacao@bantumen.com.
Recomendações
Marcas por escrever
Contactos