O que perdemos quando deixamos de falar a nossa língua? Gio Cattuco recuperou o kimbundu e levou-o às redes sociais

September 28, 2026
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Gio Cattuco | DR

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Na casa da avó, no bairro do Cassenda, em Luanda, falava-se kimbundu. A família de Geovany Fernandes-Cattuco é originária de Malanje e pertence à cultura mbundu, e a avó dirigia-se aos netos na língua da família. Os netos ouviam e respondiam-lhe em português. Geovany nasceu nessa casa e viveu lá até aos nove anos, com a mãe, os tios e os primos, a compreender tudo o que a avó dizia sem nunca chegar a usar a língua para se exprimir. A casa não tinha luz elétrica nem água canalizada. As noites eram iluminadas com candeeiros e a água era comprada em garrafões. “Havia muita escassez de comida, comíamos uma vez ao dia, quando havia comida, quando não havia dormíamos sem comer”, recorda.


Aos nove anos mudou-se para Portugal, onde o pai já vivia. Passou de dividir um pão com duas ou três pessoas para ter um quarto só seu, comer quando tinha fome e provar pela primeira vez coisas como queijo, fiambre ou leite com chocolate. Quando lhe perguntavam se tinha saudades de Angola, respondia que não. “Não tinha como ter saudades da realidade que tinha em Angola.”


Com a distância, o kimbundu foi-se perdendo. O contacto com a língua diminuiu e as palavras que a avó usava em casa começaram a desaparecer da memória. “Quando saí de Angola eu entendia perfeitamente o kimbundu, porque a minha avó em casa só falava kimbundu. Depois de chegar a Portugal, aos poucos fui esquecendo tudo que já sabia.” A morte da avó tornou essa ausência mais evidente e só mais tarde, com vinte e poucos anos, Geovany decidiu reaprender a língua por conta própria. Comprou livros, estudou sozinho e telefonava a familiares em Angola sempre que uma dúvida lhe travava o estudo.

“Os brasileiros têm mais coisas em comum connosco, africanos, do que eles acham”

Gio Cattuco

Fora da internet, descreve-se como uma pessoa discreta e de poucas palavras, que passa grande parte do tempo em casa com a família e se sente deslocada em discotecas. Quando começou a publicar, não tinha intenção de ensinar ninguém. Observava cidadãos de outros países africanos a comunicarem nas suas línguas e perguntava-se porque é que tantos angolanos mantinham distância em relação às suas. Criou um canal no YouTube e começou a publicar pequenos conteúdos sobre kimbundu. Os primeiros vídeos ficavam pelas duas dezenas de visualizações. Aos poucos, começaram a surgir comentários de brasileiros, que reconheciam nas palavras, nas sonoridades e nas expressões elementos do seu quotidiano. Um vídeo que antes teria 25 visualizações chegava às 100 ou 200. Mais tarde, sem tempo para produzir vídeos mais elaborados, passou a traduzir para português, no Instagram, músicas cantadas em kimbundu. Foi com essas traduções que o público angolano chegou em maior número.


Hoje, segundo Gio, cerca de 65% dos seus seguidores são brasileiros, muitos deles ligados a religiões afro-brasileiras. Seguem-no também angolanos, pessoas da diáspora africana e estrangeiros que chegaram à cultura angolana através da música e da kizomba. Parte dos conteúdos que publica no Instagram e no TikTok (onde assina como @gio_cattuco) dirige-se diretamente a quem vive no Brasil, como o vídeo em que reúne palavras de origem kimbundu usadas pelos brasileiros sem conhecerem a sua proveniência. O português do Brasil guarda, de facto, um vocabulário de origem bantu de uso corrente, com palavras como cafuné, caçula ou quitanda, que os estudos sobre o tema associam ao kimbundu. “Os brasileiros têm mais coisas em comum connosco, africanos, do que eles acham”, diz ao mesmo tempo que enumera alimentos, ritmos, instrumentos e palavras que atravessaram séculos e continuam presentes no quotidiano brasileiro.


Aprender uma língua, defende, é aceder a outra forma de organizar o pensamento, porque há conceitos que o kimbundu estrutura de maneira diferente do português. O exemplo que escolhe é o verbo “aprender”. Em kimbundu, kulonga significa “ensinar”, e aprender aproxima-se, na leitura que Gio faz da língua, de “ensinar-se”. Se aprender é ensinar-se a si próprio, o estudante deixa de ocupar uma posição passiva e assume a responsabilidade pela própria aprendizagem. “Depois de aprender o kimbundu, abriu-se para mim uma nova forma de ver e entender o mundo.”


Para o criador de conteúdos, aprender kimbundu, kikongo, umbundu ou outra língua africana acrescenta-se ao português, ao inglês ou ao francês, sem substitui-los. “O inglês serve para nos conectarmos com o mundo, o português para nos conectarmos com os outros países que falam português, e a nossa língua seria para nos conectarmos com os outros povos africanos.” Um angolano que domine uma língua bantu, argumenta, consegue reconhecer palavras e estruturas próximas das que se usam na Zâmbia, na República Democrática do Congo, no Uganda ou na África do Sul, países onde se falam outras línguas da mesma família.


Em Angola, falar corretamente português, inglês ou francês é muitas vezes associado a educação, sofisticação e estatuto, enquanto quem domina sobretudo uma língua nacional corre o risco de ser visto como menos instruído. Para ilustrar o problema, recorre ao caso de alguém que cresceu numa região onde o kikongo é a primeira língua. Obrigada a exprimir todo o seu raciocínio em português, essa pessoa poderá não alcançar a precisão que teria em kikongo, e julgar a sua capacidade intelectual apenas pelo português seria, nas palavras de Gio, “como avaliar um peixe pela capacidade de voar”.

“Depois de aprender o kimbundu, abriu-se para mim uma nova forma de ver e entender o mundo”

Gio Cattuco

Durante o colonialismo português, o domínio da língua portuguesa esteve ligado ao acesso a direitos, à educação e à mobilidade social. O Estatuto dos Indígenas, em vigor em Angola, Moçambique e na Guiné até 1961, exigia a quem pretendesse obter o estatuto de “assimilado” que falasse corretamente português, entre outras condições. Para muitas famílias, deixar de transmitir a língua africana aos filhos tornou-se uma forma de protegê-los, e o efeito prolongou-se por gerações. “Vemos várias famílias onde a avó fala uma língua nacional, os pais não falam, por vezes só entendem, e os netos nem falam nem entendem”, descreve. Considera que, depois da independência, o Estado angolano poderia ter feito muito mais para inverter a perda das línguas nacionais. Ainda assim, recusa esperar apenas pelas instituições e acredita que a recuperação pode começar nas famílias, nas comunidades, na internet e em cada pessoa que decida procurar aquilo que não lhe foi transmitido.


Quando questionado sobre o que mudaria na forma como as novas gerações africanas aprendem história, responde sem hesitar que começaria pelo currículo escolar. Considera que Angola continua demasiado presa a um modelo educativo herdado de Portugal e que a história africana deveria ter um lugar central desde o ensino básico e fala a partir da própria experiência. Na escola portuguesa, aprendeu sobre África sobretudo nos momentos em que a história do continente se cruzava com a de Portugal, das navegações à colonização e às independências. Não aprendeu nada sobre Shaka, o rei que fundou o reino zulu no início do século XIX, sobre Mandume ya Ndemufayo, o último rei dos Kwanyama, que resistiu às tropas portuguesas e sul-africanas no sul de Angola, sobre Njinga Mbandi, rainha do Ndongo e da Matamba, reinos do povo mbundu a que pertence à sua família, ou sobre Gungunhana, o último imperador de Gaza, em Moçambique. Também não acha que a escola portuguesa tenha a obrigação de ensinar essas figuras em pormenor. O raciocínio que faz é outro: se a Europa organiza o ensino a partir da sua própria história, uma criança africana deveria aprender primeiro a história do continente onde vive.


Durante décadas, o espaço mediático falou de África sobretudo a propósito de guerra, pobreza, migração, racismo, colonialismo ou crise. São temas que fazem parte da realidade do continente e que convivem com outros, bem menos presentes nas notícias, como o conhecimento, a filosofia, as línguas, a inovação, a memória, o humor, a tecnologia e a produção cultural contemporânea. A essa escolha de temas junta-se a questão de saber quem os conta, e se os africanos surgem como objeto da narrativa de terceiros ou como autores das suas próprias interpretações. É neste segundo lugar que Gio se coloca. E é com esse tipo de conteúdo, entre a língua e a história, que trabalha diariamente. Pesquisa, cruza fontes e fala diretamente para a sua comunidade. Quando encontra versões contraditórias de um mesmo acontecimento, prefere expô-las lado a lado. “A fonte A diz assim, a fonte B diz assado.”

“Vejo-me como um meio de transmissão de informação e incentivador das novas gerações”

Gio Cattuco

Os pedidos de aulas que começaram a chegar mostraram-lhe que aquilo que partilhava poderia tornar-se uma atividade profissional. Ainda não vive exclusivamente das redes sociais. Estuda cibersegurança e mantém outro emprego. Antes de ser reconhecido na internet, trabalhou como copeiro, estafeta da Telepizza, caixa num parque de estacionamento, operário fabril, motorista da Uber, trabalhador de armazém da Amazon e entregador. Acredita que aulas, formações e palestras podem tornar o projeto sustentável e considera muito mais difícil sustentá-lo apenas com publicidade. Quando uma marca o contacta, analisa o produto, a empresa e a adequação à audiência antes de aceitar.


Confrontado com o debate sobre as novas projeções cartográficas que procuram representar com mais rigor a dimensão real do continente, mostra-se cético quanto à capacidade de um mapa, por si só, mudar a forma como África é vista. “Acho que a industrialização é a palavra-chave.” O continente, argumenta, continua a fornecer matérias-primas essenciais à indústria global, enquanto o processamento, a tecnologia e o valor acrescentado permanecem, em grande parte, fora de África. A mudança de perceção, na sua opinião, chegará quando os países africanos controlarem os seus recursos e forem capazes de transformá-los localmente, criando indústria, emprego, conhecimento e produtos finais. Um mapa pode corrigir a escala de África no papel, mas, para Gio, só a autonomia económica altera o peso do continente nas relações de poder.


Das etiquetas que lhe podem ser atribuídas, de professor, historiador, influenciador ou criador de conteúdos, Gio não reivindica todas para si. O trabalho que desenvolve situa-se entre a comunicação, a educação e a transmissão cultural, e usa as redes sociais para chegar a pessoas em Angola, em Portugal, no Brasil e noutros pontos da diáspora.


Daqui a cinco ou dez anos, Gio imagina-se como uma referência para quem queira aprender sobre cultura africana, à frente de uma plataforma que incentive os jovens a estudar as suas línguas e que possa, um dia, atribuir bolsas para apoiar esse percurso. “Vejo-me como um meio de transmissão de informação e incentivador das novas gerações”, conclui.

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